O instante em que a autonomia trouxe timbre de Belém, foi cenário e degustada em um copo: a 9.ª versão da Mensagem Presencial.

O instante em que a autonomia trouxe timbre de Belém, foi cenário e degustada em um copo: a 9.ª versão da Mensagem Presencial.

Será que já se ouviram todas as histórias que poderíamos ter ouvido sobre o 25 de Abril de 1974? Não. E a prova estava sentada nas cadeiras de veludo vermelho e encostada às paredes do Cine-teatro Turim, em Benfica, no passado 1 de maio. Sala esgotada e 90 lugares que não chegaram para a sede que esta cidade tem de se ouvir mais e melhor. Foi a 9.ª edição da Mensagem ao Vivo – desta vez atracada neste bairro, nesta freguesia, para contar as histórias deles e das suas gentes como nunca antes. Na primeira pessoa. E numa sala esgotada.

Nuno Markl foi o primeiro a ouvir-se. Em vídeo, abriu as portas do seu “cinema-casa” de infância, este Turim “onde viu alguns dos melhores filmes” da sua vida, ele que cresceu em Benfica e na freguesia vizinha com o mesmo nome. Markl batizava uma noite que seria tudo menos convencional.

Silêncio, que se vai cantar o fado. É voz de Lena, a fadista do Bairro da Boavista. Cantou à capela, mostrando por que razão é a “tia” que inspira até os rappers do bairro.

E, logo a seguir, a Liberdade ganhou um sabor literal: melancia com manjericão. Luís e Miguel, da Geladaria Lumi, subiram ao palco para apresentar o “sabor da Liberdade“, um gelado criado propositadamente para este desafio da Mensagem, depois das sugestões de leitores.

Nem cinco minutos depois do final da Mensagem ao Vivo, a fila era longa na Lumi.

E trouxemos o passado para o presente sem o pó da nostalgia. José Antunes Ribeiro, o dono da histórica livraria Ulmeiro, subiu ao palco para sacudir preconceitos. “Ao contrário do que pensam, eu acho que os jovens leem. Tenho provas disso, antes e depois do 25 de Abril”, afirmou com a autoridade de quem fez dos livros uma trincheira. Ele que viveu a madrugada de 25 de Abril de 74 com o Zeca que todos cantamos, que lá se escondia tantas vezes.

José trouxe a memória, Alla Litkovets trouxe a urgência do agora. Falou-nos das suas três vidas: a da Ucrânia onde cresceu; a da Lisboa que a acolheu; e a da Lisboa pós-fevereiro de 2022, quando a guerra lhe partiu a geografia familiar. “Em Portugal, eu sinto-me livre. Em Portugal, eu sou como sou”, rematou, perante o silêncio atento de uma sala que percebeu, ali, que a integração é um caminho longo – Alla confessou que ainda vive “numa ilha imigrante” por cá. Uma história que levou a plateia aos extremos, ao riso e ao choro. E como gostam os lisboetas de “sorrir”, diz Alla.

E, de repente, uma voz no escuro. Estávamos on air com o Padre Nuno, da igreja de Benfica. O “padre jornalista“, que fundou uma rádio nas traseiras da igreja, fazia uma emissão especial a partir da região do Turim, mesmo por trás da plateia. Uma história de “boas notícias” e de como elas ajudaram um bairro em confinamento.

O que é que Maria Lamas, Eusébio e Lobo Antunes têm a ver com tudo isto? Neste dia, estiveram na voz de Ferreira Fernandes – cronista e fundador da Mensagem. Foi ele que nos levou à História das histórias de Benfica. E como se podem contar tantas e tão importantes no mesmo quilômetro quadrado.

O final foi um salto para o futuro. Com a sala em penumbra, ouviu-se a voz do rapper Valete, o mentor por trás da Escola Horizontal 360. No palco, Timóteo e Ana Beatriz mostraram o que a escola faz: transforma vulnerabilidade em arte. A Ana Beatriz explicou como a Horizontal não cria apenas artistas, mas “ligação humana”, antes de o Timóteo fechar a noite com uma atuação que fez vibrar as paredes do Turim.

Na plateia, uma luz, que não era de telemóvel nem tablet: Pedro Loureiro, ilustrador, desenhou em aguarela, personagem a personagem, o que ali ia acontecendo. Um registo vivo de um jornalismo que também é arte.

Ele e o amigo Branco estão a ilustrar 12 demonstrações culturais na cidade, através do projeto “Cadernos Lx”, vendedor de uma bolsa da Lisboa, Cultura e Media, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

No piso inferior do Turim, montámos uma exposição de fotografias sobre histórias de Benfica publicadas na Mensagem, que pode ver até ao final de maio.

Porque o jornalismo é também ele um instrumento de vizinhança.

Este evento teve o apoio do Cine-teatro Turim e da Junta de Freguesia de Benfica

Fotos de Catarina Ferreira

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Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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