As jornadas de Madalena Sá Rodrigues

As jornadas de Madalena Sá Rodrigues


Cronista do jornal Público, Madalena Sá Fernandes estreou-se na literatura em 2023 com Leme, uma obra que revelou uma voz singular na escrita contemporânea portuguesa. Seguiu-se Deriva, uma coletânea de crónicas publicadas e textos inéditos, onde aprofundou a sua atenção ao quotidiano, à memória e às fragilidades da experiência humana.

Em Sótão, o seu mais recente livro, Madalena Sá Fernandes nos conduz a um território profundamente pessoal. Partindo da imagem do sótão – espaço de memória, recolhimento e imaginação –, revisita episódios de sua vida, relações marcantes e experiências transformativas. Entre a infância, a maternidade e a busca de autonomia, constrói uma narrativa que interroga a ideia de casa e as heranças emocionais que carregamos. Arquitetado como um movimento constante entre passado e futuro, Sótão confirma Madalena Sá Fernandes como uma das vozes a serem ouvidas na nova literatura portuguesa, transformando a experiência íntima numa reflexão universal sobre memória, pertença e identidade.

Conversa com Édouard Louis

Com o escritor e Leonor Rosas
Teatro São Luiz, a 18 de junho, às 19h

“A conversa com Édouard Louis, guiada por Leonor Rosas, é um dos eventos mais promissores da semana. Vem a propósito do lançamento de Mudar: Método, livro em que Louis revisita a transformação de Eddy Bellegueule em Édouard Louis, isto é, a metamorfose social, corporal, linguística e simbólica que permeia toda a sua obra. O interesse maior para mim está na maneira como Louis converte a vida num laboratório político onde classe, violência, homofobia, vergonha e emancipação deixam de ser temas abstratos para se tornarem matéria literária. Édouard Louis transformou a autobiografia numa ferramenta de pensamento político. É uma oportunidade única para ouvir um escritor que devolveu à literatura contemporânea uma dimensão social sem abdicar da forma, da inteligência e da tensão íntima. Além do mais, Édouard é um dos oradores mais articulados que já ouvi. Poucos escritores contemporâneos conseguem articular pensamento político e emoção com a intensidade de Édouard Louis. Escutá-lo é entender como a literatura pode se tornar uma forma de intervenção pública.”

Patente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, até 28 de setembro

“No CAM Gulbenkian, a exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários merece ser apreciada com tempo. É uma exposição sobre cinema, mas não no sentido convencional. Há filme, som, instalação, escultura, projetores, películas e uma relação intensa com a palavra, o arquivo e a ideia de impermanência. Barba trabalha a imagem como uma matéria instável, o próprio dispositivo que torna possível ver. A exposição transforma o CAM num espaço de montagem, quase como se estivéssemos dentro de um filme tridimensional. A artista atua entre cinema, instalação, escultura, som e performance, criando obras em que o dispositivo cinematográfico deixa de ser invisível e passa a ocupar o espaço como matéria física. A exposição é particularmente interessante para quem aprecia arte contemporânea com densidade conceptual. A artista italiana cria um espaço onde as imagens parecem pensar por si próprias, aproximando a arte da astronomia, da poesia e da arqueologia do futuro.”

Visita à Livraria Linha de Sombra

Sita na Rua Barata Salgueiro, 39

“Recomendo também uma visita à Livraria Linha de Sombra, uma das livrarias especializadas mais bonitas de Lisboa. Está situada no primeiro andar da Cinemateca e dedica-se sobretudo ao cinema e às artes. Possui livros, revistas, DVDs, postais, edições novas e usadas, ensaio, técnica, cinema português, realizadores, géneros cinematográficos e história da imagem. É uma sugestão ideal para uma tarde sem um programa rígido. A esplanada do 39 Degraus é o complemento perfeito. Um espaço suficientemente afastado da rua para parecer um intervalo urbano. Vale sobretudo ao fim da tarde, antes ou depois de uma sessão, ou como um destino autônomo para quem quer combinar livros, conversa e cinema sem pressa.”

Uma ida ao LU.CA – Teatro Luís de Camões

Sito na Calçada da Ajuda, 80

“Para quem tem crianças, o LU.CA continua a ser um dos projetos culturais mais interessantes e divertidos da cidade. Não trata os mais novos como espectadores em formação, mas como leitores, criadores e pensadores capazes de dialogar com a dança, o teatro, o cinema e as artes visuais. É um exemplo de programação infantil que se recusa a simplificar o mundo. As crianças são convidadas a relacionar-se com a arte como interlocutoras plenas, capazes de responder à complexidade, à ambiguidade e à imaginação. Fantástico para crianças e para os pais.”

Procura Nada, de Eduardo Brito

Edição: Cutelo

“Recomendo também o livro Procura Nada, de Eduardo Brito, uma das leituras que mais gostei nos últimos tempos. Um objeto dificilmente classificável, entre uma narrativa-ensaio, uma deriva, uma meditação sobre deslocação, imagem e desaparecimento. Um livro que parece desafiar a obsessão contemporânea pela produtividade e pela finalidade, lembrando que a literatura continua a ser um dos poucos lugares onde a errância, a atenção e o desvio conservam o seu valor.”

O que é a verdade?

Conversa com António de Castro Caeiro, no âmbito do ciclo Sobre a verdade da mentira
No Centro Cultural de Belém, a 25 de junho, às 19h

“No CCB, António de Castro Caeiro encerra o ciclo Sobre a Verdade da Mentira com a conferência ‘O que é a verdade?’, colocada em diálogo com o Novo Testamento e Nietzsche. Gostei muito da conferência deste ciclo a que assisti e recomendo. Numa era em que a informação circula a velocidades supersónicas, mas a reflexão raramente acompanha seu percurso, regressar à verdade é um exercício de resistência. Uma boa oportunidade para pensar numa questão que voltou a ser urgente: o que resta da verdade num tempo de desinformação, deepfakes, bots, propaganda e erosão da confiança? Gostei muito da forma como o professor António de Castro Caeiro ligou questões clássicas da filosofia com questões muito contemporâneas que nos dizem respeito a todos.”

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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