O Raio

O Raio



Quando comecei com os Poppers, não sabia nada sobre música. Iniciei numa garagem a aprender sozinho, junto com os meus amigos. Com os The Poppers éramos quatro, e foi fundamental começar com aquelas três pessoas que me ajudaram a evoluir como músico. Eu escrevia as canções tocando guitarra acústica. Portanto, este formato que hoje existe sempre foi familiar para mim, só nunca tinha sido exposto. Ao decidir lançar Buffalo, senti que era a fase certa, pois estava passando por momentos muito delicados, provavelmente os piores da minha vida, e sempre encontrei apoio na música. Quando escrevia as canções, fazia todo o sentido ser o mais autêntico possível, sem distrações. Não é que rock and roll tenha distrações, mas é outra dinâmica. Esse estado de espírito impulsionou-me a avançar com este formato. Para responder à pergunta, sinto-me muito livre, como nunca antes em palco, porque depende apenas de mim. Esse formato é especial pois me proporciona uma liberdade que nunca tive. É algo que me agrada imenso.

Eu e Paulo temos uma química muito forte. A nossa relação é perfeita, onde quase não precisamos de palavras. Quando ele me convidou a colaborar na canção Bright Lights, proporcionou-me liberdade. Havia uma diretriz sobre o que a música representava, mas ele me deu espaço para contribuir, trazendo uma textura diferente — não melhor, nem pior — mas uma textura que portasse o meu ADN. A forma como as coisas fluem entre nós é sempre natural, há cumplicidade e uma dinâmica quase inexplicável. Acho que se relaciona com as influências que tivemos e o tipo de música que gostamos, bem como com quem somos, o que nos alinha mais. Desde que nos conhecemos, nunca houve um grande esforço nisso. São aquelas boas surpresas da vida que nos levam a querer preservar essas pessoas para sempre. Quero manter o Paulo na minha vida, não apenas como músico, mas como amigo.

Tenho um método de composição muito peculiar e fragmentado. Sempre carrego um bloco de notas para anotar textos que se transformam em poemas. Esses textos refletem o que estou sentindo no momento, seja algo bom ou ruim, ou mesmo o trivial. A guitarra acústica está sempre comigo: se estou no sofá, toco; antes de dormir, toco; após o jantar, enquanto meu filho Valentino termina de comer, eu toco para ele. Se capturar uma melodia que me parece interessante, a vibe dessa melodia me faz lembrar de uma letra guardada que posso encaixar na canção. Se a melodia é mais sombria ou introspectiva, já sei qual letra utilizar. Muitas vezes, quando escrevo melodias na guitarra, os refrães surgem naturalmente, facilitando a escolha das letras. Às vezes, pode começar com uma letra pronta, boa, mas reescrevo tudo, preservando apenas aquela frase. Sinceramente, isso está atrelado à forma como minha mente opera; o pensamento é fragmentado e, de certa forma, organizado, mas à minha maneira. Qualquer pessoa que entrasse na minha mente ficaria assombrada com o que acontece aqui dentro [risos]. Mas é o meu caos, e confio nele.

As letras do disco são muito introspectivas, refletindo sobre a morte, amor e cotidiano. Busco inspiração em sentimentos. Pode ser observado um amigo enfrentando um momento delicado, e, talvez por ser sensível, absorvo o que vejo. Mas, normalmente, estão sempre ligados a mim. Fui educado por uma mulher incrível chamada Maria de Lurdes, minha avó. Grande parte do disco foi escrito nos últimos meses de vida dela no hospital. Existem canções que refletem nossas conversas, como Run Buffalo Run. Também há temas mais cotidianos, como uma canção que não está no disco, mas fala sobre andar de moto. Tenho uma Bonneville e um dia decidi escrever uma música meio blues sobre a experiência de andar de moto, observar as montanhas e acelerar. Portanto, pode ser tão profundo quanto a proximidade da morte de um ente querido ou simplesmente andar de moto, tudo está ligado ao que sinto no momento. Este disco foi um exorcismo. Nunca me tinha emocionado tanto ao ouvir um disco após concluí-lo. Para ser sincero, só ouvi o disco masterizado uma vez, porque tenho a tendência de encontrar defeitos onde não existem. Se fiz o melhor que pude na hora, não faz sentido me preocupar, porque foi o meu melhor, não vale a pena ficar criando problemas.

Muito, sim. Este é o lugar onde quero estar, pois há um extremo cuidado em cada palavra que digo. Esta nova fase a solo me faz explorar partes de mim que não exploraria de outra forma. Acredito que não estaria preparado para fazer este disco ou apresentações desse tipo aos 30 anos, quando saía de quinta a domingo. Minha percepção da vida e como absorvo as coisas mudou, e isso reflete na forma como me apresento no palco e escrevo canções. Isso me deixou com um sentimento muito bom. Quando ouvi o disco, pensei: “Está bom, agora é seguir em frente”.

“Este formato é muito especial, porque me dá uma liberdade que nunca tive”

Sim. Sempre abordei os sentimentos de forma aberta, porque fui educado para falar sobre as coisas. Esse processo não é diferente; estou apenas expressando a verdade, e essa verdade é mais profunda. Além dos temas abordados, faço isso com guitarra e voz. Enquanto compôo, também encontro mais espaços para a elasticidade da minha voz, ou para cantar de uma forma mais aguda, projetando exatamente o que quero dizer, como se estivesse gritando, mas de maneira não agressiva… é encontrar uma melodia que permita que eu suba o tom no momento em que desejo transmitir algo importante às pessoas. A guitarra é a base que ajuda minha voz a projetar a mensagem que quero passar.

Mais do que nunca, a verdade precisa ser compartilhada; tudo começa dentro de nós e na forma como nos sentimos. Nunca recebi tantas mensagens de pessoas. Elas escrevem coisas bonitas sobre como vêem determinada canção e como elas as ajudam a superar desafios. Isso começou a acontecer quando decidi fazer este disco e contar a verdade. Não tenho problemas em me abrir. A poesia acaba por esconder muito, e muitos a utilizam dessa forma; eu também me utilizo disso para camuflar sentimentos. Mas é quase instintivo. Se cada um de nós dissesse um pouco mais a verdade, o mundo poderia ser melhor. Não hesito em expressar o que sinto. Não o faço por obrigação, mas percebo que isso cria uma conexão. Isso me faz pensar que talvez esse seja o caminho que devo seguir, pois tem impacto sobre os outros. Já tinham crianças da idade do meu filho me esperando ao final do concerto, querendo abraçar-me, conversar e entender quem está por trás daquela voz. Já ouvi de pessoas mais velhas que este disco as fez vender suas guitarras elétricas e voltar à guitarra acústica, algo que não tocavam há 40 anos. Há pessoas que estão passando por momentos semelhantes ao meu. Quando me dizem que se identificam com o que escrevi e que minha música as faz sentir-se um pouco melhor, então já vale a pena.

Nessa época [o ano passado], tantas canções lindas foram feitas em Portugal, tantos grandes discos… é incrível que o prêmio tenha ido para uma canção escrita com verdade e amor, apenas com uma guitarra acústica e minha voz. Curiosamente, a canção no disco foi gravada na casa do Paulo e foi o primeiro take. Lembro-me dele ter comentado que nem precisaríamos regravar, e eu achei que ele estava maluco, mas depois de tentar gravar novamente, desisti porque reconheci que ele tinha razão. Essa distinção para mim significa que não é necessário usar excessos para fazer algo que conecte as pessoas. Já fiz esse esforço antes, tentando encontrar a canção perfeita e, no fim, ganhei o prêmio com uma canção gravada no primeiro take. Essa é a maior lição que levo. Receber esse reconhecimento da Sociedade Portuguesa de Autores é um bônus. Fiquei muito feliz com a distinção.

Ela trouxe uma leveza e uma ingenuidade quase angelical. O timbre dela equilibra a minha voz, que é um pouco o oposto. Um dia, estávamos na casa da Helena, e ela quis me mostrar uma canção que havia feito. Assim que começou a tocar os acordes iniciais, as notas do refrão vieram imediatamente à minha mente. Escrevemos a canção em meia hora, de forma muito natural. Gravei o disco em dois dias, e no segundo dia o Paulo perguntou por que não gravávamos aquela canção da Helena? Novamente, foi uma canção feita de forma simples e orgânica.

O que as pessoas podem esperar é ver o Ray com sua guitarra. Estarei acompanhado pelo Gospel Collective. O gospel sempre me fascinou; já colaborei com ele em meus discos, mas ter um coro gospel em um concerto é diferente, especialmente em um lugar como o àCapela – Live Arts&Bar. Na minha cabeça, fez total sentido reunir esse tipo de música que estou fazendo, onde estou sozinho, com vozes a reforçar o que estou cantando. Tenho uma ligação muito próxima com o Gospel Collective; aprecio imensamente as pessoas que estão lá, são muito queridas e empáticas. Conversei com a Selma [Uamusse], e ela concordou. Estamos trabalhando nos arranjos, que superaram minhas expectativas; voltei a me emocionar com duas ou três canções que eles me enviaram e percebi que isso será muito especial. Também contarei com o [The Legendary] Tigerman para cantar algumas músicas comigo. Estou muito animado: o lugar é lindo, os arranjos do Gospel Collective são maravilhosos, e esta é a hora certa para fazer este concerto; não sei se terei uma nova oportunidade. Uma coisa é certa: vocês verão o melhor de mim. Este disco é muito especial, e poder tocá-lo com essas vozes me traz felicidade e um profundo sentimento de realização. Sou muito grato às pessoas que têm comparecido aos concertos e todo carinho que me têm proporcionado; estou vivendo uma fase mágica e não desejo sair dela.


Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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