É uma das vozes mais emblemáticas da música angolana. Consegue identificar o momento em que a música deixou de ser um sonho e em que percebeu ser esse o caminho?
Perfeitamente. Comecei por cantar em bares e tocar viola. Um dia, participei no concurso Gala Sexta-Feira – uma espécie de festival da canção em Angola – e infelizmente não passei no casting, fiquei como suplente. Isso trouxe-me algumas dúvidas sobre se era este o meu caminho. Entretanto, acabaram por me chamar porque aconteceu alguma coisa ao outro concorrente e acabei por ir ao concurso e ganhar. Ganhei um carro zero quilómetros na altura e, por incrível que pareça, isso foi um grande incentivo. Tratando-se de um concurso onde havia candidatos de toda parte do país, de Cabinda ao Cunene, foi um grande despertar. Antes eu tocava viola nos bares, mas tinha algumas incertezas dentro de mim. Foi este prémio que me deu força para me dedicar à música e a esta profissão que amo tanto.
Que parte desse Matias mais jovem, que lutava por um sonho, ainda existe no músico consagrado que é hoje?
Apesar de me ter tornado numa grande estrela, de ser reconhecido em muitas partes do mundo, ter gravado discos e ter recebido muitos prémios, o que me conecta à minha essência é o violão, porque eu venho da trova. Gosto de voltar àquele tempo em que pego numa viola e começo a escrever as canções e as notas. É nesses momentos que me conecto com o Matias antigo, que ainda vive em mim e que continua a escrever canções de amor com o violão. Não consigo escrever música sem pegar nesse instrumento, é uma ligação muito forte. Acho que essa é a minha conexão entre o passado e o presente.
Celebrou recentemente duas décadas de carreira. Este marco trouxe-lhe uma sensação de ‘missão cumprida’ ou deu-lhe uma nova urgência para criar algo diferente?
Parece que foi ontem, mas, entretanto, já conquistei tantas coisas: discos de ouro, concertos lotados… Para um miúdo que sonhava com pouco e que conquistou tanto, estes 20 anos acabaram por trazer uma responsabilidade enorme e vieram acrescentar novas expectativas e novos sonhos. Quero, obviamente, conquistar novos mercados: o latino, o do Brasil… O mundo é muito maior do que o bairro da Lixeira onde eu morava. Estes 20 anos, em vez de me trazerem uma sensação de missão cumprida, deram-me uma responsabilidade onde sinto que posso fazer muito mais. Procuro isso todos os dias.
As suas canções transformaram-se em sucessos que encantam várias gerações. Qual é o segredo que faz com que pessoas de várias idades se sintam igualmente tocadas pela sua mensagem?
Tenho o privilégio de ter crianças, jovens e pessoas mais velhas nos meus espetáculos. A minha grande referência de canções é o amor, é sobre isso que escrevo. O amor é uma linguagem que não tem idade, é transversal e intemporal. Por ter nascido em Angola, estes ritmos fazem parte de mim. Tenho uma linguagem poética, mas simples. Acho que a minha forma direta de cantar chega ao coração das pessoas. Tenho tido o privilégio de me conseguir conectar com todas estas gerações, talvez pela forma de compor e, sobretudo, pela forma simples de falar sobre o amor e os problemas do dia a dia.
Tem colaborado com artistas de todo o mundo. Interessa-lhe essa experiência multicultural?
Sem sombra de dúvida. Fazer duetos e trocar experiências, trocar ideias, construir canções em conjunto é uma experiência bastante boa. Tenho necessidade de me renovar e de beber de outras culturas e, sobretudo, de cantar com artistas que admiro, de quem sou fã. Isso embebeda-me de forma positiva. Com estas conexões sinto-me um artista novo. Aprende-se muito quando se faz um dueto, vou continuar a fazê-los.
Se pudesse escolher qualquer artista, de qualquer época, para dividir o palco consigo amanhã, quem seria?
Um é indiscutivelmente o grande Luis Miguel, de quem sou fã incondicional. Outro seria o Salif Keita, um artista africano com uma voz inacreditável. São os dois grandes sonhos que tenho, são artistas que admiro muito.
As suas canções contam histórias de amor, força, esperança e otimismo. O que o inspira a compor?
Compor é o que mais gosto de fazer. Inspiro-me no quotidiano, sou uma pessoa muito atenta aos sinais, às conversas. Também me inspiro em filmes ou livros. A vida, o quotidiano por si só, oferece-nos tanta coisa: a beleza da natureza, o amor. Sempre estive rodeado de amor da minha avó Augusta, da minha mãe, dos meus irmãos, do meu pai, dos meus filhos, da minha Carolina. Acho que essa atmosfera é, sem sombra de dúvida, todo um ecossistema. Compor canções é buscar muitos sentimentos, muitas palavras. E são essas vivências que me inspiram a compor sobre vários temas.
Dia 26, encerra as Festas de Lisboa na Torre de Belém. Como vai ser esse concerto?
É um privilégio encerrar as Festas. Vou ter como convidados o Ivandro, o Héber Marques, que cantou comigo o tema Loucos, e a grande Rita Guerra, de quem sou fã há muito tempo. E, claro, vai haver uma surpresa de Angola. Vai ser a primeira vez que vou atuar naquele espaço lendário e muito importante. Vai ser um espetáculo memorável. Estou muito entusiasmado por ir fazer uma festa lindíssima.
As Festas de Lisboa têm uma mística muito própria, entre os bairros e as marchas. Como é para si, que tem uma ligação tão forte com Portugal, ser a banda sonora deste momento?
Lisboa é a minha segunda casa. É um privilégio poder cantar numa festa tão mítica, tão importante. Ter sido escolhido para fazer o espetáculo de encerramento é muito prazeroso. Vou levar comigo o bairro da Lixeira, o semba de Angola, Luanda, Benguela, Cabinda a Cunene, as nossas tradições. E levo a força que África tem e esta relação bonita que Portugal tem com Angola. Nós estamos ligados para sempre, temos uma história que nos liga para a vida toda. Vai ser o estreitar destas pontes artísticas e culturais.
Cantar num contexto de festa popular é muito diferente de atuar numa sala de espetáculos?
Numa festa popular, as pessoas têm uma energia de rua incomparável. Quando estamos num sítio fechado, temos algumas limitações. Acho que a grande diferença está aí. As pessoas vão para pular, dançar, para se divertir. A festa popular traz também uma sensação de liberdade e é isso que vamos fazer: libertar as pessoas para um momento inacreditável.
É um dos maiores embaixadores da música angolana em Portugal. Este concerto representa a celebração máxima de uma Lisboa que é, cada vez mais, uma mistura de todos nós?
Há muitos anos que existe uma emigração de angolanos para Portugal. Hoje, a cidade é de todos nós: pessoas de vários sítios e de várias culturas e conexões. Portanto, é gente da nossa gente que se tornou gente de Lisboa. Como embaixador de Angola, é fantástico poder ter a oportunidade de cantar para os meus numa festa popular como esta, e tenho a certeza de que estarão lá muitos dos meus conterrâneos, mas não só. Lisboa é a cidade de todos nós e esta vai ser uma festa para todos nós.
Depois deste concerto em Lisboa, o que se segue? Podemos esperar colaborações com artistas portugueses ou um novo álbum no horizonte próximo?
Tenho um álbum para ser lançado entre setembro e outubro. Está a ser preparado com muito carinho, com muitos convidados: artistas portugueses, angolanos, cabo-verdianos, espanhóis, brasileiros… e está praticamente pronto. Estamos a fazer os últimos ajustes para poder entregar às pessoas aquilo que elas merecem. Quero que o disco esteja à altura de todos aqueles que me têm acompanhado ao longo destes anos.





