No dia 12 de junho, há o tradicional desfile na Avenida da Liberdade, com a presença da Marcha Infantil das Escolas de Lisboa (que integra dois marchantes de cada escola da cidade). A 20 de junho, a Alameda D. Afonso Henriques recebe as atuações individuais de cada grupo — com coreografias, músicas e letras originais — culminando numa grande performance conjunta e no desfile de todos os grupos sob o tema anual. O apadrinhamento desta edição está a cargo do vereador Rodrigo Mello Gonçalves e da atriz Melânia Gomes.
Irene Gonçalves é uma das figuras incontornáveis na gênese das Marchas Infantis de Lisboa. Fã confessa da tradição e antiga diretora da Escola 193, em Marvila, lutou até reunir verbas para montar um desfile com oito marchas das escolas da freguesia. Aproveitando a visita do então vereador da Educação, António Abreu, sugeriu que a ideia fosse replicada em toda a cidade. No ano seguinte, o Parque Eduardo VII recebia a primeira edição oficial das Marchas Infantis das Escolas de Lisboa.
Das décadas de dedicação, guarda muitas memórias e alguns percalços, como o dia em que, num estúdio de televisão, o entusiasmo foi tanto que o Santo António não resistiu: “Eram tantos meninos com arcos que, ao levantarem o Santo, ele caiu e partiu-se. Felizmente, não se viu na emissão”, recorda entre risos. Hoje reformada, continua a ser presença assídua e um pilar de apoio moral, tendo já sugerido, com o carinho de quem viu o projeto nascer, o título de “madrinha vitalícia” da Marcha.
A trabalhar no Departamento de Educação da Câmara Municipal de Lisboa há muitos anos, Jorge Alves, juntamente com Sónia Nunes, é o coordenador do projeto das Marchas Infantis de Lisboa. “As Marchas Infantis integram o projeto educativo Lisboa Cidade de Tradições, que pretende manter vivos os costumes locais através de iniciativas como visitas ao Museu de Santo António, ateliês ou conversas com floristas e varinas”, explica.
O objetivo fundamental é evitar que as tradições da capital caiam no esquecimento, transmitindo aos mais novos a relevância da história e da cultura da sua cidade. Para registar o impacto desta herança, os coordenadores prepararam um livro comemorativo, com lançamento previsto para 15 de junho, que reúne testemunhos de quem ajudou a construir estas três décadas de história. “O propósito maior é garantir que as crianças sintam e perpetuem o que significa ser lisboeta”, conclui Jorge Alves.
Cláudia tinha apenas três anos quando marchou, pela primeira vez, pela Escola Básica João dos Santos. “Sempre me senti fascinada por este universo; queria muito participar porque adorava dançar. Comecei como mascote e, mais tarde, passei a marchante”, recorda. O envolvimento era familiar: o pai estava sempre disponível para colaborar na logística e a irmã mais nova acabou por lhe suceder no papel de mascote. Entre as memórias mais divertidas, destaca quando, aos quatro anos, desfilou vestida de Noiva de Santo António e teve receio que a obrigassem a casar com o seu par.
Hoje, orgulha-se de pertencer à Marcha de Marvila, onde desfila desde os 15 anos. Sobre a dedicação que a tradição exige, desmistifica: “As pessoas, quando entram, já não querem sair; é muito difícil abrir uma vaga”. O impacto desta experiência foi tão profundo que, atualmente, Cláudia dedica-se a um mestrado em história da arte e património, focando a sua tese precisamente no tema das Marchas Populares de Lisboa.
Sempre esteve ligada à dança, pelo que foi com naturalidade que Cristiana Lima assumiu o papel de coreógrafa quando a escola abraçou o projeto das Marchas. Apesar da logística exigente — criar coreografias e figurinos —, garante: “É recompensador ver o orgulho com que as crianças representam a escola e a freguesia”. O objetivo é superar o trabalho do ano anterior, mas o percurso é feito de imprevistos, “desde alergias à maquilhagem na hora do desfile a adereços partidos ou t-shirts sujas de chocolate”.
Contudo, o maior desafio é a mobilização familiar, para garantir que nenhuma criança fique sem par no desfile. No final, o esforço compensa: “É engraçado ver os pais envolverem-se, criarem as suas t-shirts de apoio e formarem, todos os anos, uma claque fiel”. Para Cristiana, o mais gratificante das Marchas “é levar as crianças a sentir as tradições de Lisboa”.
Do alto dos seus oito anos, Constança é uma criança decidida. Tinha apenas quatro quando se estreou na marcha da Escola Básica das Gaivotas, onde frequenta agora o 2.º ano. Embora confesse que a sua disciplina preferida é Estudo do Meio, admite, com um sorriso, que “é mais divertido ensaiar para as marchas”. O futuro de Constança parece estar dividido entre duas grandes paixões: quer ser veterinária e desfilar na Marcha dos adultos. No coração, não há dúvidas — torce pela Marcha da Bica.
Quando questionada sobre o que torna este universo de cor e música tão especial, a resposta surge na ponta da língua: “O melhor é descer a Avenida e fazer novos amigos”. Antes de seguir para o ensaio, a pequena marchante fez questão de deixar um beijinho especial ao Vasco, seu par, que a ajudou a dar os primeiros passos na marcha, e às suas ensaiadoras, que são o grande motor de motivação da jovem marchante.







