O título é provocador, ou não tivesse saído da mente de André e. Teodósio. Em Podia Ser na Tate Mas É Aqui, o ator e encenador convida à conversa dois artistas contrastantes das artes performativas. Para já, estão agendadas três datas no Teatro São Luiz: a 13 de janeiro, com Filipe La Féria e Tiago Vieira; a 23 de fevereiro, com Ricardo Pais e Mónica Calle; e a 23 de março, com João Mota e Joana Craveiro. “O nome evoca um local onde ocorrem performances, associado a uma certa qualidade, por haver um pensamento profundo sobre práticas artísticas, mas nós também temos uma trajetória — ou várias histórias em paralelo — e Lisboa tem um peso nessa narrativa,” defende.
Podia Ser na Tate Mas É Aqui é uma evolução da série de conversas Histórias do Experimental, na qual Teodósio participou em 2021 no Teatro do Bairro Alto, abordando o experimentalismo nas artes performativas, além do livro resultante desse projeto, Um Outro Teatro – Histórias do Teatro Experimental em Portugal, publicado no ano passado. “Recentemente pensei: e se esses experimentais estivessem a dialogar uns com os outros?”, revela, explicando que, apesar das suas diferenças, os artistas que ele reúne têm ligações menos evidentes. Durante os encontros, ele pede que falem “sobre o seu trabalho, suas influências, suas inquietações, o diálogo que estabelecem com seus pares e a relação com o país e os públicos. E, também, sobre o que não gostam”.
As conversas, de entrada gratuita, serão abertas ao público, que é encorajado a participar. A ideia é realmente aprofundar o pensamento sobre as práticas artísticas e qualificar essa reflexão. “É crucial realizar este ciclo agora, pois há um tipo de teatro que tem menos espaço e essa história corre o risco de desaparecer,” enfatiza André e. Teodósio. Ele lança o desafio: “É importante aproveitar esta assembleia no bairro para trocar ideias e pedir autógrafos aos artistas!”.
Além disso, André tem muitas sugestões para esta semana. Aqui estão algumas para anotar na agenda.
Titus
Em cena no Centro Cultural de Belém, de 16 a 25 de janeiro
Cátia Pinheiro e José Nunes, da companhia Estrutura, encenam a adaptação da peça Titus Andronicus, de William Shakespeare, elaborada em conjunto com Hugo van der Ding. Uma “obra marcada pelo excesso — de violência, de sangue, de desejo de poder” que transporta para os dias atuais, reconhecendo “os ecos dessa barbárie no nosso próprio tempo”. Titus é a primeira sugestão de André e. Teodósio, que assistiu ao espetáculo em sua estreia no Porto. “Gosto muito da Estrutura, são meus amigos. Fazem um teatro que busca algum risco. Além disso, é bom ver uma companhia sediada no Porto quando vem a Lisboa. Também acredito ser importante assistir a espetáculos, independentemente do gosto, pois este não é um critério em arte.”
Compositoras
Na Fundação Calouste Gulbenkian, de 13 de janeiro a 18 de fevereiro
O curso da Gulbenkian, concebido e orientado pela musicóloga Inês Thomas Almeida, é composto por seis sessões que podem ser assistidas de forma avulsa ou como um todo. Dirigido a públicos não especializados, oferece “um panorama abrangente sobre peças musicais notáveis escritas por compositoras, que têm sido gradualmente integradas na programação das grandes salas, mas que ainda são desconhecidas do público em geral”. Para Teodósio, “é fundamental discutir música contemporânea, pois provavelmente é a que tem menos presença em Portugal, até mesmo na própria Gulbenkian.” Ele acrescenta: “O curso apresentará o trabalho de mulheres que continuam a ser invisibilizadas.”
Húmus
Patente no Atelier-Museu Júlio Pomar, até 5 de abril
Com curadoria de Ana Rito, esta mostra reúne obras de Graça Morais, Júlio Pomar, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, inspirando-se em Húmus, de Raul Brandão (1917) e de Herberto Helder (1967), “dois marcos da literatura portuguesa que, apesar da distância temporal e formal, convergem na metáfora da terra como arquivo e força geradora.” “É uma exposição muito interessante, porque convoca obras de artistas bastante distintos e não é sobre coisas. Tem um aspecto aparentemente telúrico, mas não se relaciona com a ruralidade, penso que fala mais sobre esta fase que a humanidade está atravessando,” destaca André.
Integral João César Monteiro
No Cinema Medeia Nimas, até 11 de fevereiro
Os filmes de João César Monteiro estão de volta ao grande ecrã, em cópias restauradas. O ciclo do Cinema Nimas, que começou no dia 8, exibe a obra integral do cineasta e programou para esta semana sete longas-metragens, além de uma sessão com suas curtas. Teodósio diz: “É um realizador que admiro profundamente. Estive perto de entrar em um de seus filmes, mas acabei por recusar. De qualquer forma, sempre fui fã e assisti a todas as suas obras. Os filmes dele fazem parte da minha imaginação e da minha forma de fazer arte.”
Cantar
Disco de Gal Costa
“Assisti ao espetáculo de Francisco Thiago Cavalcanti [Cantar] na Culturgest, durante o Festival Alkantara, que trazia uma música da Gal Costa, e depois procurei pelo disco. Tornei-me viciado. Acredito que os espetáculos de teatro e dança nos apresentam muitas coisas que desconhecíamos,” afirma o ator. Cantar, de Gal Costa, foi lançado em 1974 e começa precisamente com a canção que chamou a atenção de Teodósio, Barato Total.
Quem?
Livro de Rute Bianca
O livro foi lançado no ano passado, em uma edição de autor, e é uma autobiografia que reúne memórias e experiências de Rute Bianca enquanto mulher trans em Portugal. “É uma fonte primária sobre as vivências queer, é muito bonito e tem um poder enorme, revelando o país nos anos 80 e 90 e como era a vida de uma pessoa trans naquela época. Não é uma história tão distante,” ressalta André. “Comprei na Livraria Aberta, no Porto. E deixo o convite para que frequentem livrarias independentes de Lisboa, como a Snob ou a Letra Livre.”
Bloco Central
Podcast do Expresso
Todas as semanas, com moderação do jornalista Paulo Baldaia, Pedro Siza Vieira e Pedro Marques Lopes discutem os acontecimentos e os protagonistas dos últimos dias, além de “coisas importantes da vida”. Os episódios do podcast Bloco Central estão disponíveis no site do Expresso, e, quase sempre às quintas-feiras, há um novo episódio para ouvir. “É bastante incisivo. Pelos tópicos abordados, mas também porque, em uma era em que parece que opiniões diferentes não podem dialogar, ali existe um espaço para conversa. É uma ágora auditiva.”








