O cenário como espaço de ação


“O que fazer quando o fogo está ardendo por todo o mundo?”, questiona Ana Sampaio e Maia. Enquanto artista, ela acredita no poder do palco como um espaço de intervenção, considerando o teatro um local de encontro e idealizando um espetáculo como Abrir Fogo, onde a realidade se manifesta nos corpos das intérpretes por meio de fragmentos de diversas histórias e vozes.

Estamos falando de uma realidade concreta, a que presenciamos atualmente, aquela que é refletida nos ecrãs de televisão e telemóveis, instante a instante. Uma realidade onde a paz já não é concebida sem a presença da guerra, onde o genocídio se tornou uma trivialidade, e onde o discurso de ódio se banalizou, levando à normalização da violência e do preconceito. Nesse contexto, o ativismo desobediente se manifesta muito mais através da indignação nas redes sociais do que por meio de intervenções coletivas nas ruas.

Como o espetáculo é resultado de um processo de escrita que aconteceu simultaneamente aos ensaios, as posições políticas são bastante evidentes e se manifestam de forma explícita. É um teatro que denuncia a “política tchim-tchim”, que se envaidece com um artigo de um jornal estrangeiro que destacou Portugal como “economia do ano”, ao mesmo tempo em que falta moradia para as pessoas, ou que transformou “o 25 de Abril num museu imaginário nas nossas cabeças” e promete prosperidade através de um novo pacote de leis trabalhistas.

Assim, Abrir Fogo emerge com a missão de criar “um manifesto dentro de uma sala de teatro”. Como afirma Marta Lapa, codiretora da companhia Escola de Mulheres e coprotagonista, ao lado da bailarina Mélanie Ferreira, neste espetáculo, “tudo aqui paira, ora no concreto, ora na sugestão”. Trata-se de um “objeto feito de camadas” onde, rapidamente, os corpos nos conduzem a leituras mais livres, ressaltadas pelo espaço cênico projetado pela artista plástica Lea Managil, enquanto as vozes nos confrontam com a realidade, frequentemente ilustrada no drama cotidiano da “mulher que nos limpa a casa a sete euros à hora, ou do estrangeiro que distribui refeições por quase nada”.

Ainda não sabemos, como menciona a encenadora, “em que medida a arte é poderosa como instrumento de protesto”. Mesmo assim, esta que é a 80.ª produção da Escola de Mulheres declara-se, sem rodeios, como “uma peça de teatro política”. Marta Lapa ressalta que Abrir Fogo “faz justiça ao número redondo, por ser escrita, encenada e interpretada por mulheres. Mas também, por estar eticamente comprometida com os valores, princípios e ideais” que têm sido compartilhados há mais de três décadas pela companhia. “Não somos heroínas nem heróis, como aqueles que, por exemplo, embarcaram em flotilhas, arriscando suas vidas. Mas espero que, pelo menos, através do teatro, possamos continuar a colocar algumas pedras na engrenagem”, conclui.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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