Colado à entrada da livraria Poesia Incompleta, há um papel com “respostas para evitar perguntas”. Uma delas afirma: “Os livros expostos são para cheirar, ler ou comprar. Não são para fotografar”. Para o livreiro Changuito, essa deveria ser uma regra de bom senso. “Não entendo: as pessoas querem viver a vida através de um retângulo?”, questiona ele, responsável por esta livraria voltada para a poesia, que frequentemente realiza recitais de leitura. O ambiente ali dentro espera-se que não tenha “trambiques nem sons de maquinetas”, e a gravação de vídeos ou fotografias é desencorajada.
Em um tempo dominado pela tecnologia, a busca por momentos offline começa a aumentar. Um estudo da Eventbrite, plataforma que reúne eventos em diversos países, indica que o número de eventos que proíbem telemóveis ou fotografias cresceu cerca de 567% entre 2024 e 2025. Em Lisboa, os primeiros sinais dessa tendência já estão surgindo, junto com um aumento nas vendas de livros impressos e uma queda no uso de redes sociais em certas faixas etárias. É a fadiga digital levando muitos a preferirem a experiência analógica.
Na livraria Gondwana, a entrada de dispositivos eletrônicos não é recusada, mas os visitantes não contam com wifi. As mesas e cadeiras, em vez de estimularem o uso de computadores, convidam para conversas e leituras. “Queremos que seja um lugar de livros e um retorno à antiga tradição das tertúlias nas livrarias, que infelizmente se perdeu. Com computadores ou telemóveis, o ambiente se torna mais desagradável e falta a conexão humana”, afirma Walter DeMirci, um dos responsáveis por este espaço que foca na literatura do hemisfério sul. A política da casa já apresentou resultados, com clientes frequentemente desenhando ou estudantes da faculdade vizinha conversando. “São pessoas novas e é lindo ver isso. Já surgiram amizades aqui.” David Gough, sul-africano e sócio da Gondwana, resume a experiência que oferecem: “Gostamos de estar em um lugar tranquilo para ler, desfrutar e conversar com os outros, e acredito que todos apreciam essa conexão com os demais”.
Com pouco mais de quatro meses desde a sua abertura, o Absent, localizado na Praça da Alegria, confirma a demanda por momentos sem telemóveis. O primeiro ato ao entrar é guardar o dispositivo em uma bolsa magnética que proíbe seu uso. Depois, os visitantes podem relaxar tomando um café, lanchar ou conversar, ou, mediante uma mensalidade, usar uma variedade de materiais disponíveis (livros, jogos, lápis, canetas, atividades manuais) ou participar de oficinas artísticas que estão na programação.
“Percebemos que as pessoas pareciam cansadas da tecnologia e que buscavam cada vez mais o que fazer fora desse universo”, explica Shalini Choudhar, que trocou a Índia por Portugal há 13 anos e, juntamente com Mara Kesnere da Letônia, abriu o Absent em janeiro. “Quando ninguém usa telemóveis, a energia do ambiente muda completamente”, observa. O objetivo deste novo espaço é “recriar um pouco aquela sensação da infância, em que não tínhamos que ser produtivos, mas apenas nos divertir”.
No Absent – assim como em outros lugares que normalmente permitem a entrada de telemóveis – algumas das atividades do The Offline Club Lisbon acontecem. Este é um clube que começou há dois anos em Amsterdã e já está presente em mais de duas dezenas de cidades europeias e em Bali. Desde setembro, eles já promoveram uma “festa” de leitura silenciosa na Ribeira das Naus, que reuniu cerca de 150 pessoas, e diversos encontros que incentivam os participantes a dedicar tempo a suas atividades favoritas (ler, escrever, desenhar, ouvir música) e depois interagir entre si jogando ou trocando conhecimentos sobre suas paixões.
Em todos os eventos, os aparelhos são armazenados em um armário chamado “hotel de telemóveis” e devolvidos ao final. Lilly Parla, americana, e Joëlle Hartog, neerlandesa, são as amigas por trás dessa filial. “É a oportunidade perfeita para ler aquele livro que sempre dissemos que iríamos ler, mas nunca lemos, ou para tricotar aquela peça que estamos adiando há meses.” Elas garantem que, ali, o tempo voa, e muitos confessam que ficar offline acaba sendo mais fácil do que imaginavam. “A tecnologia não vai desaparecer, mas podemos usá-la de forma consciente no nosso dia a dia”, afirmam.
No mundo da música, também se começa a questionar o uso dos telemóveis. Em 2023, Bob Dylan proibiu seu uso durante a Rough and Rowdy Ways Tour, que passou por Lisboa e Porto. Os fãs guardaram seus aparelhos em bolsas seladas fornecidas pela organização para garantir um concerto livre de ecrãs. Já os Iron Maiden, que se apresentam no Estádio da Luz em 7 de julho, pediram a seus fãs que moderem o uso. “Queremos que aproveitem o espetáculo diretamente e não através dos seus pequenos ecrãs”, afirmou o manager da banda, “a obsessão pelos telemóveis está fora de controle e se tornou uma distração desnecessária”.
Retornando à livraria Poesia Incompleta, vale a pena refletir sobre o que diz Changuito: “Não consigo aceitar que se trate o uso do telemóvel como algo imutável, como uma fatalidade. Não é.” Basta querer se desconectar.





