A narrativa é guiada pela perspectiva de uma jovem que observa o mundo ao seu redor com um olhar quase investigativo. Através do cotidiano – das relações familiares às amizades, do vínculo com os animais aos pequenos gestos – O paraíso são os outros constrói um caminho poético por diversas formas de afeto. Mais do que fornecer respostas, a peça se apresenta como uma busca. “Esta pergunta não tem uma única resposta, nem uma resposta definitiva. O espetáculo é uma busca sobre um conceito tão complexo, mas tão essencial, que passa pelo espanto, pela curiosidade e pela dúvida”, explica Nídia Roque.
Essa busca se materializa em um dispositivo cênico imersivo, idealizado pela cenógrafa Ângela Rocha, que aproxima intérpretes e espectadores em um mesmo espaço sensorial. Elementos suspensos, figuras abstratas e concretas, um chão texturizado e uma disposição envolvente criam um ambiente onde o público é convidado a sentir e interpretar à sua maneira. “Cada um vê, interpreta e sente de maneira diferente, respeitando cada elemento. Para mim, isso é uma bela metáfora para o amor”, afirma a criadora.
Com a interpretação de Beatriz Brás e música original ao vivo de Leonardo Outeiro, o espetáculo articula palavra e som em um equilíbrio entre ação e contemplação. A proximidade entre o palco e a plateia não é apenas um recurso formal, mas o fundamento do projeto. “Quando pensei neste tema, meu interesse estava em que, em vez de falarmos sobre o amor, pudéssemos senti-lo nas relações que nos cercam”, menciona. Para Nídia Roque, essa imersão cria um espaço utópico, mas necessário: “É nas utopias que encontramos a possibilidade de superar sentimentos que nos bloqueiam ou nos separam.”
A escolha de uma narradora jovem permite explorar o amor como um processo de aprendizagem e construção contínua. Inspirando-se em A Arte de Amar, de Erich Fromm, o espetáculo percorre diferentes tipos de amor – do parental ao romântico, do amor-próprio ao amor enquanto conexão ética com o outro. “O amor entre casais é o primeiro tipo de relação que conhecemos enquanto crianças e é a partir daí que construímos nossa relação afetiva com o mundo e conosco mesmos”, destaca. Com base nisso, o espetáculo convoca valores como respeito, aceitação das escolhas dos outros e rejeição da violência.
Sem alterar o texto original de Valter Hugo Mãe, O paraíso são os outros transforma a escrita literária em uma linguagem cênica onde teatro, música e artes plásticas se entrelaçam. O resultado aproxima-se de um objeto performativo, quase expositivo, em que o espectador, embora não seja convocado à participação direta, torna-se um explorador desse território entre imaginação e realidade.
A experiência se estende na oficina Paraisos Infinitos, destinada a crianças a partir dos 8 anos, que convida à experimentação criativa por meio da escrita e de jogos teatrais. Para a criadora, essa continuidade é crucial: “É aqui que criadores e espectadores se encontram para refletir sobre a arte e o próprio espetáculo. É também um espaço de escuta das inquietações e expressões mais genuínas das crianças.” Mais do que um complemento, a oficina se afirma como um gesto contínuo, contribuindo para a formação de espectadores críticos e conscientes, tanto no presente quanto no futuro.
Esta produção do Teatro da Cidade será apresentada na Black Box do Centro Cultural de Belém de 27 de janeiro a 1 de fevereiro. A oficina ocorrerá no dia 31 de janeiro, às 11 horas.









