É verdade que, quando tinhas cinco anos, a tua mãe te apanhou a rezar para te oferecerem um piano? Toda a minha família é de Fátima, por isso a minha infância foi muito relacionada com a religião católica. Lembro-me de estarmos perto do Natal e de a minha avó entrar no quarto e de me encontrar de joelhos. Agora pensando, parece muito estranho essa minha imagem a fazer isso [risos], mas sim, pedi um piano ao Menino Jesus. E recebi-o.
Portanto, surtiu efeito. Sim, ele ouviu e trouxe-me o piano [risos]. Era um pequenino, mas depois reclamei porque queria um grande. Tive sorte porque foi assim que comecei a ter aulas de piano.
Então, soubeste muito nova que querias seguir esta área? Sim, mas não sei bem explicar porquê. Sei que ouvia muita música na aparelhagem e comecei a cantar muito novinha. Se calhar os meus pais também me incentivavam a isso, mas ter vontade de tocar piano não faço ideia porque é que aconteceu.
Li que um dos teus sonhos era saber tocar todos os instrumentos… Gostava de ter possibilidade de comprar todos os instrumentos para os poder experimentar. Todos têm sonoridades diferentes e eu gosto de explorar esse lado.
És designer de formação. Que influência é que isso tem na tua música? Acho que acaba por influenciar toda a parte visual e tudo o que está relacionado com design, vídeo e fotografia. Na verdade, o meu curso tinha todas essas vertentes. Foi um curso bastante visual e acho que isso dita completamente a minha linguagem enquanto artista. Uma vez fiz uma viagem com os meus pais às Dolomitas, que é uma cordilheira nos Alpes de Itália. Lembro-me de estar lá a filmar e depois fiz uma música para o vídeo. Escrevi uma canção sobre aquele momento e lancei-a.
Acontece-te muito teres primeiro a imagem que vai servir de inspiração para uma canção? Nessa altura, sim. Andava meio a fugir da música, apesar de ter sido uma coisa muito presente desde os meus cinco anos. Era um hobby, nunca vi a possibilidade de fazer disto vida. Achava ser impossível fazer dinheiro na música e precisava de algo mais seguro. Até que chegou uma altura em que já não dava mais para adiar. Até esse momento, eu estava sempre a arranjar desculpas para trazer a música para a minha vida. Entrei no curso de Audiovisual e Multimédia porque queria aprender a fazer videoclipes para as minhas músicas. Só que depois quis ir para Design.
Horas Mortas (2023) foi o teu primeiro disco. Como é que o definirias? Tem canções muito diferentes, de fases de vida diferentes. Por isso, combina sentimentos antigos e sentimentos mais recentes. Mesmo na produção dá para perceber duas coisas diferentes: há um lado indie pop mais divertido e leve, e depois tem canções em que exploro mais a minha voz. Acho que isso foi porque eu vim do [concurso televisivo] The Voice, em 2021, e a certa altura fiz uma versão da Chaga, dos Ornatos de Violeta, que me marcou bastante e que as pessoas gostaram muito. Tinha distorções e puxava pela voz. Saí do programa a pensar que se calhar isso era algo que deveria explorar. Acabei por fazê-lo em três ou quatro canções deste disco. Acho que, com o Horas Mortas, ainda estava a tentar perceber o que é que gosto mais de fazer. Só quando comecei a tocá-lo ao vivo é que percebi o que gosto de tocar e o que o público gosta mais. Curiosamente, o que eu e o público gostámos mais foi a mesma coisa, por isso foi bom, por ser uma coisa mais leve e mais dançável. Divirto-me muito mais em palco quando estou a cantar essas canções e não as mais intensas.
Um dos singles desse álbum é Sofá. Como é que te surgiu a ideia da canção e também do vídeo? Foram pensadas em alturas diferentes, e a letra não tem necessariamente a ver com o tema do videoclipe, apesar de tudo fazer sentido. Escrevi a letra quando estava na fase inicial da relação com a [atriz] Raquel [Tillo] e ela sugeriu que fizesse uma música sobre um sofá específico, é verde e de veludo. A letra fala sobre aquele sofá, mas também sobre aquela fase de início de relação, de estar a conhecer alguém e de como isso me fez sentir, descobrir os medos da pessoa, as fragilidades… fala sobre o sofá, mas também sobre cuidar da pessoa, esperar por ela, querer saber sobre a vida dela. A música não foi single, mas a Antena 3 decidiu começar a passá-la por iniciativa própria. A música começou a rodar muito, as pessoas gostaram bastante e comecei a sentir que estava a ser single sem o ser. Depois, decidi que fazia sentido fazer um vídeo e aí soube que queria fazer algo com coisas a acontecer num sofá e com várias pessoas, várias situações, mas sempre no mesmo sofá. Tinha de ter uma causa associada para sentir que não estava a fazer um vídeo só porque sim, era para apoiar alguma coisa. A Catarina Peixoto, a Filipa Batista e a Maria Calé Gaspar foram as três pessoas que fizeram o vídeo comigo. Um dia estávamos a reunir por Zoom, e os nossos cães apareceram na reunião, saltaram para o sofá e, meio a brincar, alguém sugeriu que fizéssemos o vídeo com a União Zoófila (UZ). Decidimos falar com a organização da UZ e eles gostaram da ideia. Gostei muito desse projeto, recordo essa produção com muito carinho.
Lanças agora o segundo disco, Trinta, com sete temas que refletem as tuas inquietações aos 30 anos de idade… é um disco mais maduro? A grande diferença do primeiro para este é que este disco já foi feito a pensar num conceito. Aqui fiz tudo do zero para lançar um conjunto de canções. Na verdade, a primeira a sair do EP foi a Quantos Queres, destinada ao Festival da Canção. A partir daí o conceito já estava parcialmente formado, o que coincidiu com a altura em que comecei a fazer terapia, por isso foi um processo de conhecimento pessoal, de perceber como é que pegava nas coisas que aprendi ao longo dos anos e as transformava em música.
É um disco muito sincero onde abordas temas pessoais. Não tens medo de te expor demais? A Mais, que é uma música onde falo sobre a questão dos filhos, talvez seja a música mais íntima deste disco. Não diz em concreto se vou ou não ter filhos, mas fala sobre o desejo de os ter. Quando escrevo não sinto que esteja a revelar o que vai acontecer na minha vida. Mas, não sei, essa pergunta é um bocado difícil. No momento nunca penso nisso. Depois, na fase de seleção das canções para produção, questiono-me se quero ou não partilhar determinadas coisas, mas não sinto muita pressão pelo facto de as pessoas irem ouvir o que escrevi. Acho que o faço por mim, quero escrever uma canção que fala sobre determinado tema, perceber no que resulta a nível sonoro.
A última música do disco, Eu vou aprender, inclui um áudio teu em pequena a cantar. Como te lembraste disso? É uma música infantil, foram os meus pais que ma ensinaram. Quando decidi que o universo do EP era os 30 anos, as memórias e o crescimento, pensei logo em fazer um dueto com a Inês de três anos. Mandei mensagem ao meu produtor a perguntar se podíamos usar o som de um vídeo meu gravado em VHS, conseguimos usar o som e resolver as questões técnicas, e depois aconteceu.
Porque escolheste esta música em concreto? Porque a letra não era assim muito infantil, tinha de ser algo que fizesse sentido cantar enquanto adulta. A melodia também era interessante. Eu sabia que queria começar com a Inês de três anos, entrava a Inês de 30, e depois queria ter as duas ao mesmo tempo. Queria que o tema tivesse muitas guitarras, que fosse meio nostálgico… essa canção é completamente diferente das outras do EP.
Participaste na edição deste ano do Festival da Canção. O que retiraste dessa experiência? Teve bastante impacto, até porque a preparação foi muito intensa, desde o momento em que soube que a canção tinha sido selecionada. Sabia que queria fazer uma coisa grande, que não é bem o que eu costumo fazer, acho que sou mais simples e mais casual, mas para o festival sabia que queria algo maior e com esta canção em específico sabia o que queria transmitir. A canção fala metaforicamente sobre roupa e sobre despir e tirar camadas. Eu sabia que queria retratar isso na atuação e sabia que queria falar sobre questões de género. Na verdade, é um bocado sobre isso, sobre a ideia de haver roupa para menino e para menina. Eu queria retratar isso e por isso é que mudo de roupa durante a atuação. Há ali uma libertação: primeiro começo com uma saia e estou num estado mais feminino, depois tiro a saia e torno-me mais masculina, e depois acabo por tirar o casaco e ficar com um ar meio andrógino. Pelo menos foram essas as três fases que tentei passar. Acho que foi bom para perceber o que é que consigo fazer e explorar. Saí de lá a pensar que tinha dado tudo o que podia e estou orgulhosa.
E também serviu para te dares a conhecer a outros públicos… Não imediatamente com o Festival da Canção – até porque nessa altura não teve muito destaque – mas, depois, no TikTok acho que consegui promover a canção de uma forma que chegasse às pessoas que se iam identificar com a letra. Como tem muitas metáforas, é provável que à primeira audição não se perceba do que é que estou a falar. Acho que no TikTok consegui chegar às pessoas e, consequentemente, a música correu bastante bem. Há pouco tempo saiu o Spotify Wrapped e a Quantos Queres voltou a ser muito ouvida, por isso acho que dá para perceber o impacto que a canção teve.
Em janeiro, apresentas este disco na Casa Capitão… Vamos ter uma formação diferente. Em vez de quarteto, vamos passar a ser um trio porque o meu guitarrista emigrou. Tenho ensaiado bastante porque tive de aprender riffs na guitarra, tocar as coisas que ele tocava e cantar ao mesmo tempo. Assim, vou tocar muito mais guitarra. Este EP tem uma sonoridade mais eletrónica do que o primeiro e por isso estamos a fazer novos arranjos a algumas das canções do Horas Mortas para o concerto ser mais coeso.
Já tens ideias para o teu próximo projeto? Já estou a planear, já tenho ideias para o próximo, mas agora estou focada neste concerto na Casa Capitão. Depois de dia 23 começo a focar-me no próximo projeto. Não sei quando será lançado, mas sei o que quero fazer e estou entusiasmada.









