O Dia Mundial dos Contadores de Histórias é uma oportunidade para reconhecer uma prática ancestral que continua a influenciar nossa compreensão e a forma como comunicamos o mundo. Celebrado a 20 de março, convidamos cinco narradores a refletir sobre o significado de exercer esta arte e o que os motiva a mantê-la viva.
“Contar histórias é uma arte efémera,
mas que perdura dentro do sujeito”
Cristina Taquelim é uma das principais vozes na mediação de leitura e narração oral em Portugal. Dedicou mais de três décadas à Biblioteca Municipal de Beja, que considera “o berço” da sua experiência como mediadora e narradora. Para ela, “o narrador constrói-se na relação com quem ouve, na humildade, na escuta, na atenção ao grupo”. Além disso, tem a função de “religar e ocupar espaços de ausência, reconstruir a história da comunidade e ajudar o outro a encontrar palavras para expressar o que não sabe dizer, como as incertezas da morte e os mistérios da vida”. “Contar histórias é uma arte efémera, mas que perdura dentro do sujeito, porque abre portas, janelas, imagens e questionamentos”, acrescenta.
O contador não pode ser “um mero reprodutor daquilo que escuta”, mas alguém que ilumina a história a partir da sua própria geografia íntima. Ela defende que a oralidade é fundamental para o desenvolvimento, afirmando que “sem linguagem não há pensamento” e evidencia que, num tempo em que “a escuta é preterida, é essencial recuperá-la”.
Inspirada pelo escritor e jornalista Gianni Rodari, que dizia que “a palavra é como uma pedra lançada ao lago”, Cristina acredita que “a palavra tem a função de criar círculos de sentido na escuta do outro”, assim como a pedra gera ondas na superfície do lago.
“A melhor forma de chegar ao outro é através de
histórias que nos unem desde o início dos tempos”
Ana Sofia Paiva, nascida em Lisboa e formada em teatro, dedicou-se à narração oral desde 2007, tanto em Portugal quanto no exterior. Além de atuar, é autora, coletora e pesquisadora de folclore poético e narrativo, mitologias do mundo, poesia e música tradicional, entrelaçando pesquisa e performance cênica.
Contar histórias continua sendo um gesto profundamente contemporâneo para Ana Sofia: “existe a possibilidade de ressignificar símbolos, arquétipos e grandes narrativas que sustentam nossas crenças”. Ela vê na tradição uma ferramenta de encontro, “a melhor forma de chegar ao outro, através de histórias que nos unem desde o início dos tempos”.
A pesquisadora Isabel Cardigos foi fundamental em seu caminho, ao mostrar que os contos tradicionais têm “milhões de versões distintas” e atuam como “pistas culturais e traços identitários”. Antes de se interessar pelo conto, sua paixão eram as histórias enquanto “estruturas de pensamento”. Os mitos de criação e o mundo simbólico, que traduzem metaforicamente como os antepassados compreenderam o mundo, são o que a motiva: “mensagens para o futuro” que procura reconstruir no presente.
“Ser contador de histórias nos dias de hoje
é recuperar o tempo da palavra demorada”
Jorge Serafim é mediador de leitura, escritor e contador de histórias, envolvido na promoção do livro e da palavra falada. Para ele, “ser contador de histórias hoje é recuperar um tempo, o tempo da palavra demorada”, que é característico da tradição oral, diferente da leitura em voz alta de um livro. “O conto de tradição oral resgata o tempo da escuta, do ouvir e contar”. Neste espaço, revelam-se os grandes dilemas humanos: “o confronto entre o bem e o mal, entre a esperança e a angústia”.
Em Beja, onde nasceu e trabalhou como técnico no setor infantil da biblioteca municipal durante cerca de 13 anos, ele começou a valorizar as histórias de vida que ouviu na infância, no Alentejo, e compreendeu que “o conto é o início da humanidade”.
A linguagem é a grande invenção humana, defende, pois “permite nomear o mundo ao nosso redor, o nosso mundo interior e dar sentido às emoções”. Ele se fascina especialmente por contos onde a morte é uma personagem, não como ameaça, mas como uma dimensão que “dá sentido à vida”. Porque, como destaca, “os contos são terapêuticos; falam dos obstáculos, ajudam-nos a lidar com o que nos angustia e com quem somos”.
Contar histórias assemelha-se a “empurrar uma pedra
e depois deixá-la rolar sozinha”
Rodolfo Castro, nascido em Buenos Aires e que viveu no Uruguai e no México antes de chegar a Portugal em 2010, é professor de ensino básico, escritor, ilustrador e formador, mas se apresenta ironicamente como “o pior contador de histórias do mundo”.
Há mais de 30 anos, ele atua em palcos, bibliotecas e escolas para provocar a escuta e o pensamento. “Assumo-me como transmissor, comunicador e, de certa forma, provocador. Meu objetivo é tocar onde dói, onde se sente”, afirma. Para Rodolfo, contar é como “empurrar uma pedra e depois deixá-la rolar sozinha”, sem uma moral fechada, mas com espaço para reflexão.
A experiência de emigração influenciou seu percurso: no México, começou contando em voz alta. “Um dia surgiu a oportunidade de contar sem livro, e adorei”. Hoje, ele se movimenta entre o livro e a oralidade. “Não acredito na pureza da oralidade”, afirma, e, por isso, cria narrativas híbridas que fundem literatura e histórias de vida. Seus personagens são “transgressoras, inesperadas”, desafiando modelos previsíveis. É na interação com a atualidade, que ele “questiona, provoca e angustia”, que encontra a matéria de sua arte.
“Não há nada que substitua estarmos
próximos de alguém a partilhar uma história”
Bru Junça, nascida em Évora, cresceu cercada de histórias, pois em casa sempre se costumava “estar à mesa, conversar e ouvir sobre muita gente” que não conhecia. Quis ser educadora de infância, mas tornou-se contadora de histórias e mediadora de leitura, participando de encontros dedicados à literatura infantil e à narração oral.
Num mundo saturado de imagens e informações, o que a motiva é simples: “a palavra relação”. “Não há nada que substitua estarmos próximos de alguém, olho no olho, mão na mão, compartilhando uma história”. Para Bru, o digital não ocupa “esse lugar de colo, de afeto”.
A escuta foi seu território inicial: “o primeiro lugar para mim foi a orelha, ela foi educada para ouvir”. Entre a tradição oral e o livro, rejeita hierarquias, pois acredita que “nenhum substitui o outro”. Escolhe narrativas pensando no público e no diálogo com o presente. Há livros-âncora que nunca falham e contos que ganham novas dimensões com o tempo. Porque, acredita, “a palavra une, desembaraça e abraça”, e é nesse espaço de encontro que continua a encontrar significado.









