Por acaso, sei precisar esse momento. Foi num concerto do Bruno Mars no MEO Arena, quando tinha 16 anos. Lembro-me perfeitamente da forma clara com que ele conseguiu transmitir aquilo que estava a sentir através da música, e a maneira como o público se uniu a esse sentimento… tornando-se numa experiência compartilhada entre todos os presentes. Foi a primeira vez que olhei para o palco e pensei: “é ali que eu quero estar”.
A minha grande referência é sempre Stevie Wonder; ele será a minha referência até o fim da vida. Depois, tenho várias referências menores. Em Portugal, os irmãos Sobral, Manel Cruz, Samuel Úria, Maro… e muitas referências do Brasil, que é uma música que adoro: Jobim, Edu, Dori Valle, e Nana Caymmi.
Há momentos em que a emoção é tão intensa que sinto a necessidade de escrever e preciso ‘vomitar’ pensamentos através da guitarra. No entanto, é preciso ter alguma disciplina na escrita de canções. Trata-se de um músculo que trabalhamos, que treinamos, e até ler um livro ou poesia é parte desse trabalho… Acho que é daí que vem a disciplina e, muitas vezes, a inspiração. Regularmente, sento-me para tentar escrever, pois sei que pode surgir a alegria de criar algo muito bonito, mas também aceito a ideia de criar algo menos bom, que ainda assim me leva a um novo lugar.
Participei de um curso de escrita de canções com a Luísa Sobral. O que aprendi foi exatamente sobre essa disciplina. Lembro-me da Milhanas dizer que, nessas aulas, a Luísa ensinou que a inspiração não vem de uma nebulosa manhã ou de uma madrugada luminosa. Percebemos que a inspiração muitas vezes surge dessa busca, dessa disciplina, e não é porque nos impomos sentar e escrever que as canções sairão melhores. Muitas vezes, é a forma como nos conectamos com nossos pensamentos e sentimentos.
Lancei recentemente o meu terceiro disco, gravado ao vivo no estúdio de Vale de Lobos. A vontade de gravar ao vivo surgiu de uma sensação de falta. Quando gravo um disco, sinto falta do público, e quando estou em palco, sinto falta da intimidade do estúdio. Assim, unindo as duas experiências, poderíamos ter o melhor dos dois mundos: estarmos todos juntos em um estúdio – que é um lugar tão bonito e íntimo – gravando, enquanto nos deixamos contagiar pela energia do público. Muitas vezes, respondemos quase fisicamente ao que a energia do público nos pede, e isso era algo que realmente queria gravar. Isso acontece muito em outros países, com vários showcases desse tipo, e nós ainda não temos muitos assim. Foi uma experiência maravilhosa, e gostaria de repetir.
Nesse disco, tive a participação especial de Rui Veloso, um dos meus ídolos de infância. Trabalhar com ele foi mágico. O Rui é uma grande referência; crescemos ouvindo suas músicas. Desde pequena, adorava o trabalho dele, ainda hoje admiro. Quando fazia covers em bares, era sempre suas canções. Para mim, ele sempre foi uma referência tão alta que parecia impossível alcançá-la. Com o passar do tempo, tive a sorte de conhecê-lo e de ele ouvir a minha música. Foi algo muito bonito e orgânico. Ele é uma pessoa generosa que, quando gosta, elogia na frente de outras pessoas. Cada vez que o encontrava, deixava um elogio, dizendo ‘ela faz coisas bonitas’. Isso me reconfortava, pois ia para casa sentindo segurança, pensando que estivesse no caminho certo. Ter esse tipo de validação é algo que, muitas vezes, é difícil de encontrar, pois a jornada do artista é mais feita de ‘nãos’ do que de ‘sins’. Com esses ‘sins’, decidi arriscar e fazer o convite: ‘participas, vens cantar comigo?’ E, felizmente, ele aceitou.
Escolhi gravar com o Rui uma versão de Vai Ruir, que fazia parte do meu segundo disco, Contornos (2023). Curiosamente, foi ele quem escolheu a canção, o que faz sentido, pois é um pouco mais blues, e estamos a falar do rei do rock. A canção parece ter chamado por ele por causa da batida e da ideia blues que está por trás. Foi uma combinação perfeita.
No disco Contornos, também tenho outras colaborações com artistas como Luísa Sobral e Ricardo Ribeiro. Para mim, trabalhar com nomes consagrados é importante. Isso me dá confiança. Tenho sido muito sortuda com as respostas positivas que recebo. Por outro lado, isso me motiva a querer mais. A insatisfação é algo inerente ao ser humano; quando temos ‘sins’ de pessoas que admiramos, sentimo-nos como se o céu fosse o limite. Sou muito grata às pessoas que quiseram trabalhar comigo, pois elas me ensinaram muito. Essa é a essência: elas me deram um ‘sim’ e também estenderam a mão para me ajudar e guiar. Sou um pouco como uma esponja; apesar dos meus 26 anos, ainda me sinto nova e estou em uma fase em que tenho muito a aprender.
Voltando ao novo disco, fiz uma versão da canção O Navio Dela, do Manel Cruz. Esta canção significa muito para mim a nível lírico, pois transita de um estado real para algo lúdico e etéreo, e depois retorna ao real – é simplesmente maravilhosa. E a ideia de “a minha mulher não é minha, é da cabeça dela” é um lema que devemos levar conosco. Isso é lindo e nos oferece liberdade. Sempre adorei essa canção, foi uma das primeiras de que fiz cover. Fazia parte do meu primeiro alinhamento de concertos como artista solo, por isso quis gravá-la e eternizar essa versão.
No dia 29, atuo no Teatro Tivoli BBVA. Estou a preparar um concerto muito especial. Vou ter a companhia do Rui, o que é maravilhoso, e também do Miguel Marôco, um artista da fusão indie, que está dando os primeiros passos na música. Ele é um grande músico e estou desenvolvendo um projeto com ele, pelo que levarei uma canção desse projeto ao concerto. Também apresentarei algumas canções novas, não muitas, só para deixar um gostinho do que vem a seguir. Revisitei algumas obras antigas; se anteriormente saímos do palco para o estúdio, agora estamos retornando ao palco e tentaremos amplificar essa intimidade do estúdio, tornando-a um pouco mais abrangente na magnífica sala que é o Tivoli.









