Ivan Turguéniev
O Primeiro Amor
O renomado autor Ivan Turguéniev (1818-1883) nasceu em uma família rica, proprietária de terras. Com um temperamento tímido, foi educado rigorosamente pela mãe, que frequentemente o agredia. Sua vida amorosa foi marcada por frustrações, particularmente devido a uma prolongada relação com a mulher casada, a famosa mezzo-soprano e compositora Pauline Viardot, uma amiga de diversas personalidades como Liszt, Chopin e Flaubert, pela qual ele ficou maravilhado. O Primeiro Amor revela de maneira intimista as experiências familiares e emocionais do autor, retratando, com profundidade psicológica, a transição da adolescência para a idade adulta e o despertar da sexualidade do jovem Vladimir Petróvich. Com apenas 16 anos, ele é solitário e introvertido, com um pai ausente e uma mãe que não lhe dá atenção, e passa férias na casa de campo da família, nos arredores de Moscovo. É lá que conhece Zinaída, uma jovem encantadora de 21 anos, por quem vive um intenso e não correspondido primeiro amor (“Não gostaria que semelhante emoção alguma vez se repetisse, mas ter-me-ia por infeliz se nunca a tivesse vivido”). Anos depois, ao ser desafiado por amigos a recordar seu primeiro amor, decide registrar suas memórias em um caderno. Turguéniev detalha esse momento transformador e o “sentimento sem nome que tudo abarca”, utilizando as palavras de Rainer Maria Rilke: “com a alma leve e a dor intacta.”
Giacomo Leopardi
Cantos
“Agrura e tédio / A vida, nada mais; e é lama o mundo / Para já. Desespera / A última vez. À nossa espécie o fado / Não deu mais que o morrer.” Este trecho do poema A Si Mesmo de Giacomo Leopardi (1798-1837), considerado por muitos como o maior poeta italiano após Dante e Petrarca, expressa sua visão pessimista da vida e do mundo. Sua vida, breve e repleta de sofrimento, foi moldada por uma educação austera e a frieza das relações, além da deterioração de sua saúde e visão. Influenciado pela cultura helenística e pelos poetas românticos, sua poesia reflete tanto experiências interiores quanto uma profunda reflexão sobre o destino humano e do universo. Como mencionado por Mariagrazia Russo no prefácio desta edição, “Leopardi observa o tempo, a memória e a efemeridade da vida com um olhar que mescla aceitação e inquietação. Seu pessimismo não se traduz em amargura gratuita; resulta de uma análise lúcida da realidade, uma tentativa de entender a existência sem se deixar levar por ilusões.” Suas poesias líricas, lançadas entre 1824 e 1835, estão reunidas sob o título Canti (Cantos). A tradução é de Jorge Vaz de Carvalho.
Paulo Moreiras
Do Palito à Perdiz
Paulo Moreiras, que até hoje se aventurou em diversas profissões, finalmente se encontra como escritor e, em Do Palito à Perdiz sobre a mesa muito se diz – Curiosidades da Gastronomia Portuguesa, explora suas paixões pela gastronomia. Neste trabalho, ele fala sobre “coisas antigas, antigualhas perdidas na memória do tempo”, em colaboração com a investigadora Ana Paula Guimarães. A origem do palito remonta à pré-história, enquanto a vila de Lorvão, no concelho de Penacova, é lembrada como a capital do palito. Ele também menciona o tremoço, “marisco do povo”, as tradições de Lisboa e as referências literárias a este alimento; a morcela, além da fava, a primeira leguminosa do mundo antigo que Pitágoras proibiu aos seus discípulos pelo impacto que causava na luxúria; e as cerejas e ginjas, culminando na emblemática A Ginjinha. A obra se conclui com a perdiz, ligada a Lisboa, especialmente a Alfama, onde até mil e seiscentas perdizes eram vendidas. Esta é uma obra que perfaz uma viagem gastronômica, onde história e tradição se entrelaçam.
Dario Fo e Franca Rame
Morte Acidental de um Anarquista
Em 1997, o Prêmio Nobel da Literatura foi concedido a Dário Fo, um dramaturgo iconoclasta, autor de mais de 40 peças, muitas das quais coescritas com sua esposa, a atriz Franca Rame. Juntos, fundaram companhias teatrais como Nuova Scena, que se apresentavam em fábricas e associações de trabalhadores, e Il Colletivo Teatrale La Comune. Nascido na província de Varese, na Itália, Fo teve uma obra que refletiu a comedia dell’arte, marcada pelo espírito anarquista, atacando o capitalismo e a corrupção do governo italiano, enquanto defendia a dignidade dos oprimidos. Morte Acidental de um Anarquista é sua peça mais encenada, baseada em um fato real: a morte do anarquista Giuseppe Pinelli, que foi asesinado durante um interrogatório policial em Milão. Na satírica trama, um “louco/justiceiro” invade a sede da polícia e reencena o interrogatório que culminou na morte do anarquista, expondo a hipocrisia da situação.
Naguib Mahfouz
Em Busca
Naguib Mahfouz (1911-2006) é o mais destacado escritor de língua árabe do século XX e o único laureado com o Prêmio Nobel de Literatura (1988). Com uma vasta obra que inclui romances, contos e roteiros, ele alcançou grande renome com a Trilogia do Cairo, que o comparou a escritores como Flaubert e Tolstoi. Suas memórias de infância, especialmente as visitas aos museus com sua mãe, influenciaram a revisão da história do Egito em seus romances. O protagonista de Em Busca, Saber, é um jovem que em busca do pai, um homem importante que ele desconhecia, vive uma vida de extravagâncias. Envolvido com duas mulheres opostas, ele luta para se libertar de seu passado de pecados e crimes. Este romance inaugura a coleção Cruzeiro do Sul, focada em autores de regiões menos representadas.
Maria João Martins
Isto Agora É em Off
A jornalista Maria João Martins, que se descreve como “uma menina tímida”, traz em sua obra Isto agora é em off – Entrevistas para a história da Cultura portuguesa (e não só), um acervo de mais de 35 anos de carreira. Reunindo histórias de personalidades como Agustina Bessa-Luís e Chico Buarque, ela revive as publicações que fez em diversos meios. Além das entrevistas, ela compartilha notas de bastidores que colaboram para a compreensão dos diálogos realizados. Martins ressalta que uma entrevista é mais do que um simples diálogo, representando um espaço íntimo onde o ouvir o outro se torna um ato de coragem. Um testemunho valioso que enriquece nossa memória coletiva, confrontando a efemeridade da imprensa escrita.
Virginia Woolf
Um Quarto Só Para Si
Um Quarto Só Para Si é um ensaio que resulta de dois discursos que Virginia Woolf apresentou em 1928, abordando a relação entre mulheres e ficção. Ao se sentar à beira de um rio para refletir sobre a questão, afirma que não poderia oferecer regras definitivas, mas apenas a opinião de que uma mulher precisa de dinheiro e de um espaço próprio para escrever. Woolf explora as barreiras enfrentadas pelas mulheres na literatura e a necessidade de liberdade intelectual. A mensagem, poderosa e direta, serve como um manifesto sobre a condição feminina e um apelo às mulheres do futuro, desafiando qualquer cerco à sua liberdade mental.
Joseph Conrad
A Estalagem das Duas Bruxas
Joseph Conrad (1857-1924) começou uma carreira marítima antes de publicar seu primeiro livro, com suas experiências no mar formando a base de sua ficção. Suas narrativas lidam com os efeitos do colonialismo e a crise dos ideais numa era de crescente capitalismo e moralidade relativista. Na introdução da presente edição, Conrad discute as narrativas que constituem este primeiro volume de seus contos completos. Com contos como A Lagoa, Um Entreposto do Progresso e Os Idiotas, ele reflete sobre sua evolução como escritor e a complexidade das experiências humanas que capturou ao longo de sua obra.
Tezer Özlü
As Noites Frias da Infância
Tezer Özlü (1943-1986), frequentemente comparada a Sylvia Plath e Virginia Woolf, é uma voz primordial na literatura turca do século XX. Seu primeiro romance, As Noites Frias da Infância, escrito entre 1950 e 1970, entrelaça ficção e autobiografia, narrando sua infância em um ambiente pobre e a descoberta sexual. A obra também aborda a complexidade da mente humana e a batalha contra a depressão. Özlü expressa um profundo desassossego interno, que reflete sua luta contra a opressão feminina e a sociedade patriarcal, tornando-se uma forte crítica social em um contexto político turbulento.
Sven Lindqvist
Os Mergulhadores do Deserto
Os Mergulhadores do Deserto detalha a viagem de Sven Lindqvist ao Saara, explorando o destino de escritores que inspiraram sua busca por “evasão e fantasia”. Referindo-se a autores como Antoine de Saint-Exupéry e André Gide, Lindqvist transmite a beleza e a complexidade do deserto enquanto examina os efeitos do colonialismo. A obra reflete sobre as experiências dos mergulhadores que trabalhavam para manter os oásis e descortina as tragédias do imperialismo colonial, abordando temas como exploração, repressão e miséria, sempre sob a ambientação serena e opressiva do deserto.









