A Experiência de Édouard Louis: Reflexões sobre Identidade e Pertencimento

A Experiência de Édouard Louis: Reflexões sobre Identidade e Pertencimento

Sim, existe uma razão. Os meus livros não são sobre histórias pessoais; são histórias coletivas: meus pais, mãe e irmão representam determinismos sociais e destinos maiores do que eles. Nãose trata de mim, da minha história ou da minha família; é sobre como essa família pode ser um laboratório para compreendermos uma realidade maior de classe, de violência familiar, de homossexualidade e de dominação masculina. As pessoas perguntam-me se não é difícil escrever sobre coisas tão íntimas. Nunca entendo essa pergunta. Não sei o que responder porque não sinto que seja íntimo de certa forma. Mesmo que seja hiperintimista. O que procuro nessa hiperintimidade é o coletivo que existe por trás.

Isso ocorreu quando, na universidade, estudei sociologia, e Pierre Bourdieu, em particular. Comecei a ler seu livro mais importante, A Distinção – Uma Crítica Social da Faculdade do Juízo, sobre o sistema de classes, e tive consciência de que o que eu considerava como sendo pessoal, ou seja, escolhas individuais, gostos individuais, destinos individuais, eram de fato determinados pela sociedade, pelo coletivo. Na minha família, dizia-se que não íamos à escola porque não gostávamos da escola, e na infância achava que era assim, que as pessoas tinham um determinado gosto que era a favor ou contra a escola. Ao ler Bourdieu, percebi que é a estrutura de classes que faz com que as pessoas dominadas digam isso. Que faz com que se excluam do sistema educativo. De repente entendi que todas as escolhas, decisões e a textura das nossas vidas eram moldadas pelas desigualdades do sistema de classes.

Assim acontece. E pode ser ainda pior hoje. Nos últimos anos, a França tem sido dominada por uma política neoliberal de pessoas como Sarkozy, Macron e até mesmo Hollande, cuja política tem sido cortar auxílios sociais aos necessitados, dificultando o acesso deles a vários tipos de assistência e apoio. Muitos hospitais e escolas foram fechados porque esses governos não querem taxar os ricos, que estão cada vez mais ricos. Daí, considerar que a situação esteja atualmente pior do que a que descrevo nos meus livros. Existe uma perseguição contra a classe operária, na França e na Europa em geral. Em França, o sistema político se transformou em um sistema persecutório contra os pobres. O estado vigia permanentemente se essas pessoas estão trabalhando; se se esforçam para arranjar trabalho; caso contrário, retiram-lhes o subsídio. O aparato persecutório que existe é maior do que o dos meus tempos de infância.

A escrita é algo muito difícil para mim. Sofro bastante quando escrevo. Não pelos relatos das experiências, mas pela escrita em si: chegar à frase correta, ao parágrafo certo, é a maior dificuldade para mim hoje. Ao mesmo tempo, a escrita foi o que me salvou na minha infância. Tornou possível pagar meu apartamento em Paris. Permitiram-me viajar pelo mundo, algo que nunca faria enquanto membro da classe operária. Permitiram-me conhecer algumas das pessoas que mais admiro: Ken Loach, Anne Carson, Laurie Anderson, com quem colaborei. Mudou, em termos práticos, a textura da minha vida. Mas isso aconteceu depois da escrita, porque o processo de escrever é um inferno para mim.

Num certo sentido, sim. Porque quis tornar-me escritor e queria escapar da pobreza. Quis obter reconhecimento pelo meu trabalho. Mas, como digo no livro Mudar: Método [2021], tornei-me no que desejava ser, mas tornar-me essa pessoa não me trouxe a felicidade que tanto desejava. É assim que o livro termina. É estranha a sensação quando luta-se tão arduamente por algo e pensa-se que, ao obtê-lo, a vida se tornará perfeita, fabulosa. Depois, alcança-se esse objetivo e conclui-se que não se obtém o que se pensava estar prometido. Pensei que minha vida seria perfeita ao tornar-me escritor, ao passar a ser um intelectual, mas o resultado mostrou-se muito mais complexo do que isso.

Essa passagem refere-se ao meu irmão, quando se comportou de forma estúpida e violenta: bebendo demais, roubando, agredindo mulheres. Essas atitudes fizeram com que meus pais o rejeitassem. E nessa altura, o que era necessário era ajudá-lo. Em vez de escorraçá-lo, deveria-se procurar ama-lo mais. Mas, ao mesmo tempo, entendo que estivessem furiosos com ele, e tinham motivos para isso. Eles já carregavam feridas próprias, era muito difícil para eles acumularem as feridas de outro, além de seus problemas. A expressão “todos estão certos, todos estão errados” se relaciona à forma como reagimos à violência em geral. Quando nos deparamos com a violência, a atitude inteligente seria tentar compreender, dar o tempo necessário. Mas, claro que se justifica ficarmos irritados. Por outro lado, é errado, porque se queremos combater a violência, devemos procurar entendê-la. Quando culpamos e punimos a violência, não produzimos nenhuma mudança. Mudamos a violência quando lhe dedicamos tempo e paciência. O total oposto do que acontece no presente. As pessoas querem cada vez mais castigar, excluir, cancelar.

Encontrei a resposta, mas infelizmente ela me diz que estarei sempre em busca de uma outra vida. Estou condenado a isso. Cresci como gay numa família e num meio marcados por uma violenta homofobia. Muito cedo, minha obsessão passou a ser a de fugir, e isso se tornou uma espécie de ADN. Mesmo tendo-me já evadido, esse ADN continua dentro de mim. Continuo a ter a sensação de precisar de fugir. Quando comecei a publicar meus livros, tive a impressão de estar sufocando devido ao status que tinha atingido. Fugi para os Estados Unidos, onde estive vários meses, vivendo sob uma identidade falsa, totalmente anônimo e passando por pequenas cidades remotas. De um momento para outro, tinha leitores, tinha uma plateia, e detestei tamanha exposição. Daí, fugi novamente.

Essa nota de rodapé diz respeito à minha intenção de fazer uma autobiografia radical. De ir além da oposição entre autoficção e autobiografia. Não refiro apenas um fato real, nem tomo somente a liberdade característica da autoficção; uso um fato real e faço uso da liberdade de alterar algumas coisas, dizendo que o faço. Podes fazer uma autobiografia radical, usando elementos ficcionais, mas quando esclareces que se trata de um elemento ficcional, ele deixa de ser. Por exemplo, em O Colapso, onde invento uma conversa entre mim e o fantasma do meu irmão. Trata-se de um falso diálogo, mas que incluo como parte de um projeto autobiográfico. O que tento fazer é forçar uma ideia de experimentação dentro da autobiografia.

Esse disco faz parte da minha descoberta da cultura gay em Paris. Aceito que a canção possa ser vista como a minha história, mas só a descobri depois. As pessoas insistem nas diferenças culturais entre os países (o que é em parte verdade, as culturas e civilizações são diferentes), mas por trás dessas diferenças, nas conversas sobre livros e nas conferências que fiz no estrangeiro, notei quanto as coisas se passam exatamente da mesma forma em todo lugar. Penso que foi por isso que Smalltown Boy obteve tanto sucesso internacional no seu tempo.

Reconheço que a honestidade pode tornar-se, por vezes, cruel. Da mesma forma que a sociologia pode ser cruel, por ser sobre honestidade, sobre revelar o mundo desfazendo a mitologia. O fato de referir a pobreza nos meus livros fez minha mãe sentir-se agredida e envergonhada. Ela se sentiu primeiro violentada, mas depois teve uma tomada de consciência e, hoje, não tem problemas em falar sobre essa questão e deseja combatê-la. Ela vota agora na esquerda, quando durante minha adolescência sempre votou na extrema-direita.

Sim, isso terá ocorrido talvez em dois momentos. Quando era criança e sofria as consequências da homofobia, queria morrer. Pensava frequentemente em me matar por volta dos 9 ou 10 anos. Como muitas pessoas gays, não sou exceção. E essa vontade veio de novo quando meus livros começaram a ser publicados na França, e muitos críticos usaram de extrema violência contra mim. Diziam que só escrevia mentiras; filmavam vídeos da minha mãe na casa dela que já não era a mesma onde cresci; entrevistavam pessoas que se diziam minhas amigas e que me difamavam. Isso deixou de acontecer, mas no começo, o sistema cultural francês e a elite literária queriam se ver livres de mim. Nessa época, entrei em depressão e tive que tomar grandes quantidades de antidepressivos.

Discordo (risos). Minha homossexualidade não se limita aos atos. É um modo de ser, de olhar o mundo, de existir nesse mundo. É obter uma sensação de liberdade ao estar no mundo. Liberdade para escapar das tradições, das estruturas da sociedade: paternidade, casais que compartilham uma casa, todos esses modos de vida antiquados. A homossexualidade proporciona-me estar fora do sistema heteropatriarcal. Sinto que sou gay antes de tudo o resto. Antes de ser escritor, mesmo antes de ser humano. É o que mais prezo na vida.

Diário do Ladrão [1948], de Jean Genet, seria o livro que absolutamente recomendaria. É o mais importante para mim. Aquele que releio mais vezes. Trata sobre explorar o mundo através do desejo. Genet viaja por toda a Europa, é um ladrão que se apaixona por indivíduos que vivem à margem da sociedade. Outro livro que recomendaria é o do americano Garth Greenwell, What Belongs to You [2016]. Conta a história de sua paixão por um prostituto em Sófia, na Bulgária. Ele se encontra naquela cidade a dar aulas e se perde de amores por esse “bad boy”. É uma das mais belas histórias de amor que li desde Romeu e Julieta.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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