As Jornadas de Junho João

As Jornadas de Junho João

Dela já se disse que “possui uma presença hipnótica na tela”, referindo-se à sua atuação em Duas Vezes João Liberada, filme de Paula Tomás Marques, que estreou nas salas de cinema na semana passada, no qual é protagonista e coargumentista. June João fala deste projeto, que obteve uma menção honrosa no Festival de Cinema de San Sebastián, de maneira entusiasmada. A atriz uniu-se à realizadora, que há tempo investiga documentos históricos da Inquisição para encontrar registros de pessoas dissidentes de gênero e orientação sexual, criando uma obra de ficção baseada na realidade. “Quisemos metaforizar a nossa existência, falar sobre o fato de que historicamente houve pessoas trans. Queremos destacar que somos pessoas com história. Não somos uma invenção moderna; somos um fato cultural e biológico. No entanto, nossas histórias e nosso poder de fala frequentemente nos são negados”, afirma.

Embora os direitos das pessoas trans sejam um tema central neste filme, a mesma discussão não ocorre na peça que se apresenta esta semana no Teatro São Luiz (de 26 a 28 de junho). Es Tr3s Irms, de Tita Maravilha, espetáculo vencedor da 5.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colação, reúne June João, Ivvi Romão e Luan Okun para uma adaptação do clássico de Tchekhov As Três Irmãs, abordando o desejo de fuga. “O espetáculo reflete sobre o fim iminente das coisas, o colapso diário do mundo, e quais escapatórias são possíveis, para onde podemos ir, o que podemos fazer para nos reconquistar”, descreve. O fato de terem intérpretes trans no elenco não é o foco, ressalta June João, que, ao reconhecer que Duas Vezes João Liberada a vincula novamente a essa questão, confessa que gostaria de ser convidada para um elenco simplesmente por ser atriz. “Fazer este espetáculo é extremamente gratificante, pois nos proporciona um espaço no palco que geralmente não nos é concedido. Adoraria que os papéis para os quais sou lembrada não fossem unicamente classificados na categoria trans. Ou, espero estar enganada, mas talvez isso seja uma condição da qual não posso escapar e talvez eu deva desenvolver uma relação menos problemática com isso…”

No teatro ou no cinema, vale a pena procurá-la esta semana. E, como bônus, siga suas sugestões sobre o que mais fazer nesses dias.

Funny Girl – Uma Rapariga Endiabrada, de William Wyler
A 23 de junho, às 15h30

Meet Me In St. Louis – Não Há Como a Nossa Casa, de Vincente Minnelli
A 25 de junho, às 19h
Na Cinemateca Portuguesa

Duas sugestões do ciclo Revisitar os Grandes Gêneros: O Musical, da Cinemateca, que June João escolheu pelas protagonistas dos filmes: “Amo Funny Girl e estou ansiosa para revê-lo. Adoro a Barbra Streisand, apesar de ter algumas questões com seu discurso político, especialmente seu apoio ao Estado de Israel. Acredito que este foi o primeiro filme que vi dela e quis assistir a tudo que ela fez depois. Meet Me In St. Louis é com Judy Garland, que também amo, é um grande ícone, e tenho ideia de que a primeira vez que a vi no cinema foi na Cinemateca. Gosto muito desses dois filmes, e vê-los em uma grande tela é ainda mais especial.”

O Bolo de Aniversário de Agrião, de Lobby Teatro
A 28 de junho, às 15h
No Teatro Nacional D. Maria II

De 24 de junho a 19 de julho, o Teatro Nacional D. Maria II apresenta o que chamou de Prólogo, antecipando a reabertura do edifício que tem estado em obras de reabilitação. É nesta programação que retorna O Bolo de Aniversário de Agrião. “Sugiro esta visita encenada, criada pela minha amiga Joana Brito Silva e pela Mariana Fonseca. Nunca participei de uma visita aos bastidores do D. Maria e adoraria fazer uma e conhecer o camarim que foi cenografado como se fosse o de uma grande diva. Disseram-me que ele ainda existe!”

A Luz que Ficou – Um retrato íntimo do São Luiz, de Estelle Valente
Visita guiada a 28 de junho, às 11h
No Teatro São Luiz

“Ainda não vi esta exposição da Estelle Valente no São Luiz, onde consta uma linda foto minha com um slime, no Jângal, o espetáculo dos Praga [2018]. Acho importante que uma fotógrafa da casa tenha este espaço e que suas fotografias não sejam apenas um instrumento de divulgação das peças, mas que seu trabalho seja realmente reconhecido como artístico. Fico feliz por terem organizado esta exposição e é especial para mim fazer parte dela, ter aquela fotografia exposta e aquele momento cristalizado.” No domingo, dia 28, haverá uma visita guiada, com a própria Estelle Valente.

Buracos Negros – as letras, de Diogo Bento
Editora Urutau

Acabou de ser editado e apresenta-se como “uma ficção autobiográfica organizada por capítulos segundo a sequência do alfabeto” e “o retrato de uma sociedade rural como pano de fundo, de onde emerge um jovem gay a caminho da capital e do mundo”. June João ainda não leu, mas o livro está no topo de seus planos. “O Diogo, um dos membros fundadores do Teatro Praga, que foi a minha grande escola de teatro, lançou-o recentemente. Minha amiga Ana Tang já leu e recomendou muito, disse que é muito emocionante e que abrange muitos locais. Estou muito curiosa porque o Diogo é alguém que adoro e, apesar de já o conhecer há muitos anos, acredito que vou ter ali vislumbres de outras fases da sua vida.”

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

axLisboa.pt
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.