O que se passa em Lisboa? A cidade possui mais dias ensolarados do que a maioria dos outros países europeus, com recorde de mais de três mil horas de sol por ano, o que equivale a mais de 9 horas diárias, 260 dias anuais. Contudo, ultimamente, é difícil lembrar quando foi a última vez que saímos de casa sem botas ou guarda-chuva e… sem a presença do sol. A pergunta ressoa nas ruas e nas redes sociais, onde os influenciadores levantam a questão: está realmente a chover mais do que o habitual? Ou será apenas a nossa memória a pregar-nos partidas?
A análise dos dados meteorológicos demonstra que há, de fato, um fenômeno em curso: só em janeiro – e mesmo antes do mês terminar – Lisboa experimentou 21 dias de chuva em 30, valor significativamente superior à média.
Quando falamos de chuva, o que é o “normal”?
Para responder a essa questão, é necessário consultar a chamada “Normal Climatológica”, um documento que compila valores médios que caracterizam o clima de uma localidade. No entanto, analisar o clima de uma região apenas com dados de um único ano seria o mesmo que julgar uma equipe de futebol por uma má temporada, por isso, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) estabeleceu que a avaliação do clima deve considerar períodos de 30 anos, contados a partir de cada década.
Os anos analisados mais recentes abrangem 1991 a 2020 e são a base para entender o que está acontecendo em Lisboa atualmente.
No decorrer desses anos, Lisboa registrou em média cerca de 10 dias de chuva em janeiro (com pelo menos 1 milímetro de precipitação) – tendo como base os dados da estação meteorológica do Geofísico. Isso é muito inferior ao número de dias (consecutivos ou não) em que já choveu apenas neste janeiro: 21.
Portanto, sim, está chovendo mais em Lisboa durante este mês de janeiro.
No entanto, isso não implica necessariamente um aumento no volume de precipitação – para uma avaliação precisa, será necessário verificar o total acumulado de chuva ao final do mês, algo que só será possível quando janeiro se encerrar.
A memória (imprecisa) de um inverno incomum
Por outro lado, ao examinar os meses anteriores, observamos que este inverno não é totalmente atípico: entre setembro e dezembro, o número de dias de chuva em Lisboa esteve próximo ou apenas ligeiramente acima do que é considerado normal. Nos 30 anos registrados na Normal Climatológica, Lisboa teve em média cerca de 9 dias de chuva em outubro, 10 em novembro e 10 em dezembro. Em 2025, a cidade experimentou 7 dias de chuva em outubro, 13 em novembro e 13 em dezembro.
Ricardo Deus, especialista da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), observa que é razoável considerar que estamos vivendo um inverno bastante chuvoso até o momento, mas alerta que a sensação de que a chuva “não dá trégua” resulta também de uma “memória meteorológica” curta.
“Nas últimas décadas em Portugal Continental, tem sido comum a ocorrência de anos com menos chuvas, resultando numa situação de seca meteorológica em grande parte do território. Isso pode dar a impressão de que a precipitação intensa e constante durante os meses de inverno é algo excepcional.”
Um exemplo que ajuda a colocar isso em perspectiva: 2025 foi o terceiro ano mais chuvoso desde 2000, mas se voltarmos até 1941, ele aparece apenas como o vigésimo terceiro. O mesmo se aplica a dezembro de 2025, que não figura entre os cinco meses mais chuvosos do século.
Embora a situação seja desanimadora, é previsível que ainda teremos mais dias com chuva e vento. E se, por um lado, não é fácil ser lisboeta em dias chuvosos (seja pela construção da cidade, com áreas de alta vulnerabilidade a inundações, ou pela calçada portuguesa, inerentemente escorregadia), por outro lado, conhecemos bem as consequências de uma seca na cidade.
Janeiro está, de fato, registrando números acima da média em vários pontos do país, tanto em relação ao número de dias de chuva quanto à quantidade total de precipitação. Entretanto, a ideia de que “nunca choveu tanto” pode ser mais uma questão de falta de habituar a invernos mais severos – como os que já ocorreram no passado.
De onde vem esta chuva?
Harry, Ingrid, Joseph, Kristin. Já perdemos a conta dos nomes das tempestades discutidas nas últimas semanas, sendo que a mais recente teve consequências devastadoras para muitas regiões do país – à redigir este artigo, dois dias após os incidentes causados pela tempestade de vento Kristin, Leiria ainda enfrentava falta de energia.
A situação resulta de uma sucessão quase contínua de depressões. Ou melhor: um verdadeiro “comboio de tempestades”. Trata-se de um fenômeno ligado a condições atmosféricas que fazem com que as depressões atlânticas, em vez de seguirem uma trajetória mais ao norte, desçam para latitudes mais baixas e atinjam Portugal continental de maneira mais direta. Elas trazem grandes quantidades de vapor d’água e massas de ar frio do Atlântico Norte, resultando em chuvas persistentes, ventos fortes e agitação marítima.
Dentre essa sequência, a depressão Kristin foi a mais intensa – e, inclusive, gerou uma rajada de vento que estabeleceu um novo recorde: 208,8 km/h no concelho de Soure (distrito de Coimbra), na madrugada de 28 de janeiro. Antes, o recorde era de 176,4 km/h, registrado na Figueira da Foz em 2018, durante a tempestade Leslie.
A lista de nomes atribuídos às tempestades, que inclui tanto nomes masculinos quanto femininos, é estabelecida desde o dia 1 de setembro de cada ano e aprovada por diversos Serviços Meteorológicos da região Sudoeste da Europa. Neste ano, pessoas chamadas Marta, Pedro ou Samuel ainda podem ter uma tempestade batizada com seu nome.
De acordo com o IPMA, a nomeação das tempestades serve como uma ferramenta eficaz para nos manter informados e facilitar a comunicação sobre esses fenômenos meteorológicos que podem representar riscos e que não devem parar tão cedo. A expectativa é de mais chuvas nos próximos dias.
O jornalismo realizado pela Mensagem de Lisboa une comunidades,
relata histórias que muitas vezes passam despercebidas e pode transformar vidas.
Dantes, o financiamento era feito via publicidade,
mas essa abordagem agora é domínio das grandes plataformas.
Se aprecia o que fazemos e reconhece sua importância,
se deseja fazer parte desta comunidade em crescimento,
apoie-nos com sua contribuição:









