O segredo oculto que determina o crescimento do câncer intestinal

O segredo oculto que determina o crescimento do câncer intestinal

Assim como o universo começou com uma colossal explosão, o câncer colorretal também vivencia um momento de “Big Bang” que determina como ele crescerá e se espalhará, de acordo com novas pesquisas apoiadas pela Cancer Research UK e pelo Wellcome Trust.

Cientistas do Instituto de Pesquisa do Câncer em Londres, da Fondazione Human Technopole em Milão e da Universidade de Tecnologia de Chalmers na Suécia descobriram que esse evento crucial ocorre quando as células cancerígenas conseguem se esconder do sistema imunológico. Esse processo, chamado de escape imunológico, permite que as células evitem a detecção e continuem a se desenvolver sem controle.

Durante o escape imunológico, as células do câncer colorretal interrompem os genes que normalmente permitem que as defesas imunológicas do corpo as reconheçam como uma ameaça. Uma vez que isso acontece, os pesquisadores descobriram que a capacidade do câncer de se disfarçar permanece praticamente inalterada à medida que cresce.

Essas descobertas podem ajudar os médicos a identificar pacientes que têm maior probabilidade de responder à imunoterapia, incluindo vacinas experimentais contra o câncer colorretal que treinam o sistema imunológico para atacar e destruir células cancerígenas.

Como o Câncer Colorretal Engana o Sistema Imunológico

O professor Trevor Graham, professor de Genômica e Evolução e diretor do Centro de Evolução e Câncer do Instituto de Pesquisa do Câncer, explicou a importância da descoberta:

“Alguns cânceres colorretais são ‘destinados a ser ruins.’ Como eles interagem com o sistema imunológico é definido desde o início.

“A imunoterapia e as vacinas contra o câncer colorretal têm um enorme potencial para tratar a doença. Nossa pesquisa sugere que a relação de um câncer colorretal com o sistema imunológico não muda muito à medida que ele cresce. Se pudermos direcionar essa relação no início, o tratamento terá uma chance maior de sucesso.

“À medida que o tratamento do câncer colorretal se torna cada vez mais personalizado, entender como os tumores evoluem e mudam é ainda mais importante do que antes. Assim como a explosão que definiu o curso do universo, o Big Bang do câncer colorretal nos dá as maiores pistas sobre o que o futuro reserva e como podemos mudar esse futuro.”

Um Câncer Comum e Desafiador

O câncer colorretal é o quarto câncer mais comum no Reino Unido, com cerca de 44.100 novos casos a cada ano — cerca de 120 por dia. Aproximadamente 15% desses casos respondem bem à imunoterapia, enquanto a maioria permanece resistente a essa abordagem de tratamento.

Atualmente, vários tipos de vacinas contra o câncer colorretal estão sendo testados em ensaios clínicos. Essas vacinas visam ajudar o sistema imunológico a reconhecer e destruir células cancerígenas que retornam ou se formam novas após cirurgias ou outros tratamentos.

A autora principal do estudo, Eszter Lakatos, bióloga matemática da Universidade de Tecnologia de Chalmers e da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, disse:

“Nosso grupo de pesquisa investigou e encontrou respostas sobre como as células cancerígenas se tornam invisíveis ao sistema imunológico. Nossa esperança é que esses insights levem, eventualmente, a tratamentos mais direcionados, eficazes e precoces, além da cirurgia.”

Para descobrir esses mecanismos, a equipe de pesquisa analisou células tumorais e imunes de 29 pessoas com câncer colorretal. Eles sequenciaram o DNA e o RNA de cada amostra e examinaram quão firmemente o DNA estava enrolado ao redor de proteínas nos cromossomos (um processo conhecido como epigenética).

Os cientistas descobriram que as mudanças epigenéticas nas células cancerígenas alteram a forma como o DNA é “lido” para produzir RNA, que carrega as instruções para a fabricação de proteínas. Essas mudanças podem reduzir o número de neoantígenos — proteínas “bandeira vermelha” que alertam as células imunológicas sobre o perigo — na superfície das células cancerígenas. Com menos neoantígenos, o sistema imunológico tem dificuldade em reconhecer e destruir o tumor.

Rumo a uma Imunoterapia Mais Eficaz

Os pesquisadores acreditam que a combinação da imunoterapia com medicamentos que modificam o epigenoma poderia melhorar os resultados do tratamento. Tal combinação poderia aumentar o número de neoantígenos exibidos pelas células cancerígenas, tornando-as mais fáceis de serem atacadas pelo sistema imunológico. Testes adicionais serão necessários antes que essa abordagem possa ser levada a ensaios clínicos.

A Dra. Catherine Elliott, diretora de Pesquisa da Cancer Research UK, afirmou:

“Para vencer o câncer colorretal para todos, precisamos entender o que acontece nas fases mais iniciais da doença. Não importa quão diferentes possam parecer os tumores colorretais; um momento definidor no início faz uma grande diferença em como o câncer cresce.

“O câncer colorretal tem uma habilidade insidiosa de resistir ao tratamento. A imunoterapia está começando a funcionar bem para os pacientes, mas não funciona para todos. Esta pesquisa nos ajuda a entender o porquê, além de nos fornecer novos insights para tornar a imunoterapia mais eficaz para o câncer colorretal.”

Compreendendo os Primeiros Momentos da Doença

Tom Collins, líder de Pesquisa em Pesquisa de Descoberta no Wellcome Trust, acrescentou:

“Ao acompanhar as fases mais iniciais do câncer colorretal, a equipe de pesquisa lançou nova luz sobre um mecanismo que pode levar a tratamentos mais direcionados, eficazes e precoces.

“Este é um poderoso exemplo de ciência de descoberta. A pesquisa em nível molecular forneceu uma compreensão mais profunda de como o câncer colorretal se desenvolve, o que pode levar a melhores resultados de saúde para os pacientes a longo prazo.”

O estudo, intitulado “Evacuação Imune e Dirigida Epigeneticamente na Evolução do Câncer Colorretal,” foi publicado em 5 de novembro na Nature Genetics.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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