Ferdinando Heitor

Ferdinando Heitor

Não é incomum que os espetáculos celebrativos coloquem em destaque figuras históricas. No caso do Variedades, que recebeu artistas tão populares e que fazem parte do nosso imaginário, isso poderia parecer natural. No entanto, a escolha foi “contar a história” através do público, ou seja, através de personagens representativas de uma Lisboa distinta.

Desde os anos áureos, especialmente na década de 20 até aos anos 80, o Parque Mayer atraiu um público muito especial. E não me refiro apenas ao público dos teatros. Havia um grupo, de forma um tanto pejorativa, conhecido como a “fauna do Parque”. Eram principalmente pessoas solitárias que buscavam aconchego, vindas dos diversos bairros, algumas ricas, outras muito pobres, entre as quais havia uma conexão. Neste espetáculo, decidimos não utilizar o rótulo de “fauna” e, ao contrário, tratá-las com todo respeito.

Quem são, então, essas pessoas?

São dez personagens carinhosamente inspiradas nessa “fauna”. Entre elas, encontram-se um ardina, uma varina, um marujo, um vendedor de coplas, um cauteleiro, uma menina da barraca de tiros, uma viúva rica que veio do Brasil, uma costureira, uma escritora e um comerciante que abriu um restaurante no Parque. Essas personagens têm a particularidade de ter assistido a todos os espetáculos desde a abertura do Variedades em 1926. Não perderam nenhum…

Ou seja, espectadores que transcendem a vida…

Eles têm muito tempo para se conhecerem e se tornarem amigos inseparáveis na vida e na morte. Como não tinham família, encontraram no Parque Mayer uma “família”, percebendo que vieram ao mundo para cuidar uns dos outros. Assim, tornam-se os guardiões das memórias do Teatro Variedades.

Não teme que essas figuras, como o ardina ou a menina da barraca de tiros, sejam desconhecidas pelas novas gerações. Sabem, por exemplo, o que é uma varina?

Acredito que a história explica isso bem. Na peça, as personagens vão morrendo à medida que suas profissões desaparecem de Lisboa. A “nossa” varina para de vender peixe com a canasta à cabeça logo após o 25 de Abril. Mesmo com propostas para trabalhar em um supermercado, ela recusa, vende o ouro e vai ao Variedades…

É o Teatro Variedades que as une?

A peça se desenrola em vários encontros desses dez amigos, em celebrações de Natal, Páscoa ou aniversários, onde relembram os números que assistiram no Variedades. Vamos conhecê-los desde 1926 e, conforme vão falecendo, permanecem na essência do teatro.

É através dessas lembranças que se evoca a história do Teatro e das suas grandes figuras?

Sim. Sem a intenção de imitar Beatriz Costa ou Ivone Silva, são eles que as recordam, assim como nós, que agora podemos cantarolar “sou marinheiro / deste velho cacilheiro…”, como o José Viana mencionou no fado “Zé Cacilheiro”, ou a “Lisboa Antiga” da Hermínia Silva. Essa foi a forma que encontramos para contar a história, evitando o clichê de relatar uma epopeia, do tipo “em 1926, Vasco Santana fez a revista…”.

Por que o subtítulo “como uma ópera bufa erótica e satírica”?

Antes de mais nada, achei “Variedades” um título apropriado. E devido à ingenuidade da história, pensamos na “ópera bufa”… Há uma certa infantilidade e uma fantasia na forma como as personagens interagem. Por exemplo, eles têm relações sexuais uns com os outros, mas tratam esses relacionamentos de maneira muito inocente.

Um elenco tão diversificado, não apenas em termos de gerações, mas também em experiência e método, é essencial para alcançar o resultado desejado?

Sempre acreditamos que sim, pois antes de se unirem, as personagens são bastante diferentes entre si. Temos aqui atores com formações e trajetórias muito variadas, como Sandra Rosado, que foi bailarina do Ballet Gulbenkian, Maria João Luís, e Miguel Raposo, que conhecia de seus papéis em musicais… Achei muito interessante misturá-los e tudo está fluindo muito bem. Alguns nunca haviam dançado ou tocado um instrumento.

Conseguiu convencê-los?

Claro. [risos] Recentemente, para outro espetáculo, convidei o Bernardo Souto (que também faz parte do elenco) e perguntei se ele cantava; ele respondeu que “não sabia, nunca cantei”. E acabamos o colocando para cantar e tudo saiu muito bem. Aqui está ocorrendo o mesmo.

Para este espetáculo, você conta com dois colaboradores de longa data: um deles é o músico João Paulo Soares, e o outro, Flávio Gil, que pertence a uma geração mais jovem, com quem você vem trabalhando. Como vocês conciliam suas visões para criar uma autoria conjunta?

Discutimos bastante, mas tudo acaba bem. O texto é escrito por mim e pelo Flávio, que é um jovem ator e encenador que veio diretamente do teatro amador para o Teatro Maria Vitória, onde rapidamente se destacou. Fui apresentado a ele por Mariema, que já vivia na Casa do Artista na época, e elogiou-o como “um garoto muito talentoso”. Fui vê-lo em uma revista e acabamos a noite bebendo juntos. Mais tarde, conversamos sobre uma peça que eu tinha escrito, “Mário – História de um Bailarino no Estado Novo”, a pedido de São José Lapa, mas que não foi realizada por falta de verba. O Flávio leu e logo quis fazer. Assim, conseguimos o financiamento e nossa parceria começou.

E quanto ao João Paulo Soares? Ele é um amigo de longa data…

Trabalhamos juntos há muitos anos, principalmente na Casa da Comédia, com Filipe La Féria. João Paulo foi compositor e diretor musical em diversos projetos meus e do Filipe, como “Passa por Mim no Rossio”.

Fernando, você trabalhou no Parque Mayer com Filipe La Féria…

Trabalhei muitos anos com ele, especialmente na dramaturgia e assistência de encenação. No início da década de 1990, trouxemos da Casa da Comédia para o Parque, para o Teatro ABC, “What Happened to Madalena Iglesias”. Mas foi em 1992 que fomos ao Variedades gravar o Grande Noite…

… que era um espetáculo de revista para a televisão, certo?

Semanalmente montávamos uma nova revista, por isso costumo dizer que durante quase um ano vivi no Variedades, onde trabalhávamos de 12 a 14 horas por dia. No Grande Noite, além de auxiliar o Filipe e trabalhar no texto, eu atuava como o crítico que encerrava cada episódio fazendo críticas negativas ao programa [risos]. Enquanto o teatro já estava bastante deteriorado, esse é o motivo da grande ternura que sinto pelo Variedades.

No elenco, há uma atriz que estreou exatamente nesse programa…

A Wanda Stuart começou no Grande Noite. Ela fez audição, foi parte do coro, mas no terceiro ou quarto programa começou a fazer números.

Antes dessa ligação profissional ao Parque Mayer, que já estava em declínio, e como este espetáculo também reflete sobre o público como guardião das memórias do teatro, como você recorda aquele lugar enquanto espectador?

Sinto-me um guardião das memórias de muitos teatros de Lisboa. Na minha juventude, era aluno do Liceu Camões e testemunhava o movimento de atores na zona do Saldanha, por causa do Teatro Monumental. Todos os dias, eu via os cartazes e frequentemente cruzava com Laura Alves. Por volta dos 15 anos, aos domingos à tarde, eu fugia para o Parque Mayer. Não ia aos teatros, pois não me deixavam entrar. Ficava ali observando os atores passarem e admirando a famosa “fauna”. Isso me fascinava. Acabei fazendo amizade com um garoto da minha idade cuja mãe vendia revistas em segunda mão numa barraca de madeira azul, na entrada do Parque. Esse garoto inspira uma das personagens da peça. Depois, nos anos 60, comecei a ser espectador de teatros e fiz muitas amizades, participando de tertúlias que incluíam Ivone Silva, Carlos Quintas e muitos outros.

Era um Parque Mayer que já não existe mais…

Embora não seja mais nem de longe o que foi, as minhas memórias sobre o Parque são tão boas que gosto sempre de lá ir. Isso é semelhante às pessoas que dizem não gostar de ir à Baixa porque só há turistas; apesar dos encontros, costumo ir ao menos duas vezes por semana. Gosto de descer o Chiado, gosto de comer nos restaurantes que ainda existem e gosto de recordar como era. Não sou bairrista, mas sou muito lisboeta, e ainda compro o manjerico ou o ramo de espiga. Com a mesma graça infantil com que se passa esta “ópera bufa” que vamos apresentar no Variedades.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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