Bum, bum, bum, que batucada legal

Bum, bum, bum, que batucada legal


No final da tarde, no salão do Clube Oriental de Marvila, os colchões das aulas de ginástica são retirados, as cadeiras são organizadas num amplo círculo ao redor de uma mesa, e os instrumentos musicais começam a chegar. Pandeiros, tantãs, tamborins, reco-recos, congas, surdos, repiques de mão, agogôs e outros instrumentos que proporcionarão sonoridade ao samba invadem o espaço. Em poucos minutos, o ginásio se torna o cenário da aula da Patú Sambá, a primeira oficina de roda de samba da Europa, comandada pelo mineiro Diogo Presuntinho. As pessoas chegam vestindo desde calças e bonés a calças beges com camisas azuis, com cabelos coloridos e peles de diferentes tons. O português é falado, tanto o do Brasil quanto o de Portugal, além de inglês e outras línguas que aparecem.

Patú Sambá: aulas, concertos e workshops disponíveis no Instagram

Estabelecida em Lisboa há dois anos, a Patú Sambá conta hoje com mais de 200 alunos, distribuídos em diversas turmas. A maioria deles são brasileiros residindo em Portugal, mas também há muitos portugueses e cerca de 20 nacionalidades diferentes representadas. Com idades que vão dos 11 aos 90 anos, predominam as mulheres, e quem aqui chega geralmente vem para experimentar, muitas vezes sem ter tocado um instrumento antes. “Não imaginei que fosse tanta gente. Essas pessoas não são músicos, mas aqui não se trata apenas de aprender um instrumento, mas sim de viver a experiência de comunidade, que é o que o samba preza: estar na roda, todos juntos, todos se vendo, ajudando, com idades e nacionalidades diversas”, explica Presuntinho. “Patú Sambá tem como principal objetivo criar uma comunidade e proporcionar às pessoas um espaço para se encontrar e tocar, que também seja uma rede de apoio.”

O crescente interesse pelo samba resultou no surgimento de várias rodas pela cidade. As sonoridades que nasceram entre os brasileiros escravizados e as festas realizadas nos quintais já há muito saíram das favelas, mas apenas nos últimos anos passaram a ser presença constante na programação cultural de Lisboa. Cícero Mateus, do coletivo Viva o Samba, criado há 11 anos por sete primos brasileiros que iniciaram realizando rodas esporádicas, agora têm uma agenda repleta e contam com uma equipe de 19 profissionais. “É gratificante ver esse entusiasmo pelo samba e a aceitação dessa música aqui. Já não se olha para o Brasil apenas pela caricatura do Carnaval”, ressalta.

Viva o Samba: todos os domingos no Lat.a

No Lat.a, nas Docas de Santo Amaro, onde atuam regularmente, os Viva o Samba transformam qualquer domingo em uma festa concorrida. Em roda, os 12 músicos tocam e cantam músicas do repertório sambista que muitos dos presentes conhecem, aplaudindo e dançando, deixando os corpos em movimento. Sorrisos e uma alegria contagiante tomam conta do ambiente. “Bom, bom, bom, que samba bom”, entoará Cícero, trazendo para a roda o Samba Bombom, de Xande de Pilares, ou ainda Canta, Canta, Minha Gente, de Martinho da Vila, arrancando um forte coro do público: “A vida vai melhorar”.

No Quiosque Verde Lima, em plena Jardim de Campolide, nos primeiros sábados de cada mês, depois de uma feijoada à brasileira, a mesa é montada para a roda: um vaso com uma Espada-de-São-Jorge, planta usada para afastar o mau-olhado, proteger contra inimigos e abrir caminhos para a música fluir, e uma figura do santo que lhe deu nome, cultivada pelos escravos para cultuar o orixá Ogum sem sofrer perseguições. O movimento Mesa Brasileira surgiu há cerca de um ano pela determinação de Jessé de Oliveira Barbosa. Foi no restaurante O Nelson, no Rego, onde reside, que encontrou os companheiros ideais, aqueles que se reuniam para “ficar batucando” durante os jogos do Corinthians. Atualmente, são seis – Vitor Reis, Rogério Pessoa, Rafael Pedroso, Kairon Santos e Vinicius de Abreu – mas estão abertos a quem deseja tocar. A proposta é mesmo essa: recriar a tradicional roda de amigos que se juntam com seus instrumentos. “O samba é algo que une, é sobre amizade. Transcende a musicalidade”, defende Jessé. “Sempre nos sentamos à mesa antes de tocar. E a roda é o símbolo da boemia brasileira: cerveja, samba, reunião de amigos, cachorro caramelo circulando por ali…”

Mesa Brasileira: no primeiro sábado de cada mês no Quiosque Verde Lima

Esse “rolê gratuito e popular” tem atraído cada vez mais pessoas, com a festa se estendendo pela tarde (na última, mais de 500 pessoas compareceram). “Começou para nos divertirmos, sem mais intenções, e foi crescendo, de amigo para amigo, de conhecido para conhecido”, afirma Jessé. O samba “cura tudo”, acreditam por aqui, cultivando a “troca de energia” e o sentimento de comunidade. Com repiques, banjos, cuícas, rebolos e outros instrumentos, a Mesa Brasileira busca “fazer com que todos se sintam acolhidos”. “O samba é o mais democrático”, enfatiza.

Visando a inclusão, foi criado, há quase cinco anos, o Coletivo Gira. “Os espaços do samba ainda são extremamente masculinos e temos dificuldades em ter protagonismo neles. A intenção foi ocupar esse lugar de maneira diferente, como mulheres imigrantes LGBT, com protagonismo, poder de fala e tomadas de decisão”, explica Emile Pereira. Atualmente, o coletivo se apresenta principalmente na Fábrica Braço de Prata e no 8 Marvila, “lugares seguros” para o público que desejam atrair. “É como se fosse para nós também. Criamos uma comunidade que se transformou em uma rede de apoio, conectando pessoas na cidade.”

Coletivo Gira: no primeiro e terceiro sábado de cada mês na Fábrica Braço de Prata e na segunda e quarta sextas-feiras de cada mês no 8Marvila

Porque o samba é definido como festa, também é visto como resistência e política, como afirmam todos que o tocam. As letras das músicas refletem a luta dos escravos e daqueles que, ao longo das últimas décadas e até hoje, sonham com um mundo melhor. “Fazemos política à nossa maneira, não é?”, pergunta Cícero, dos Viva o Samba, com um largo sorriso. Emile, do Coletivo Gira, também acredita: “Essa é a nossa ferramenta: de transformação social, de inclusão, de diversidade.” Ao seu lado, Tida Pinheiro acrescenta: “O samba pode ter mudado a face de Lisboa, e isso tem nos dado dignidade enquanto imigrantes aqui.”

Nas rodas do Coletivo Gira existem boas-vindas para todos, mas o protagonismo será sempre de quem muitas vezes foi privado dele. No centro da mesa está a bandeira arco-íris, que se vê replicada em alguns dos leques trazidos por quem participa nos dias quentes. Há abraços com o corpo em movimento, acompanhando o ritmo do samba, palmas e sorrisos exuberantes, e entoações animadas nas letras mais conhecidas: “Ô, gira, deixa a gira girar!”

“Simbora!” É como cantava Reinaldo, o Príncipe do Pagode, “o samba é terapia popular”.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

axLisboa.pt
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.