Lisboa em Alta, Estrela em Decaimento: o Termômetro dos Cidadãos sobre a Vida na Capital

A história de uma cidade de sol e calor que acordou tarde para as esplanadas

Qual é o melhor lugar para viver em Lisboa? Em 2024, a resposta é Benfica. Este resultado não é um prémio oficial nem fruto de um estudo acadêmico, mas sim uma conclusão do Barómetro de Perceção da Qualidade de Vida nas freguesias de Lisboa, uma iniciativa de cidadãos que avaliou a cidade com base nas experiências cotidianas de seus moradores, uma análise que agora é compartilhada pelo cronista da Mensagem, Rui Martins.

O resultado trouxe uma vitória surpreendente — Benfica saltou da 13.ª para a 1.ª posição, em comparação com a primeira edição do barômetro em 2021. Próximo a ele, São Vicente teve uma ascensão ainda maior, do 21.º para o 2.º lugar, enquanto Campo de Ourique manteve-se no pódio.

Em contrapartida, Estrela sofreu uma queda significativa. Caiu para os últimos lugares, juntando-se a Campolide e Santa Clara, freguesias onde o descontentamento parece aumentar.

Uma cidade em queda livre 📉

Os dados mostram uma narrativa clara: Lisboa agrada cada vez menos aos seus habitantes. Como mencionado por Paulo de Carvalho, em uma recente entrevista feita pelo fadista Carlos Leitão e publicada na Mensagem, “Lisboa está maltratada, de um modo geral; é uma enorme confusão que não me agrada”.

Esse barômetro confirma essa percepção: a média global de qualidade de vida caiu de 2,93 para 2,45 (em uma escala de 5). A nota dada à satisfação com a Câmara Municipal também caiu — de 2,52 para 1,91.

As reclamações nos comentários se repetem: ruas mais sujas, transporte público superlotado, serviços públicos lentos. Contudo, há pontos de resistência: os lisboetas ainda valorizam ter escolas próximas, internet rápida e uma rede de ciclovias que, apesar de falhas, é considerda como um ativo da cidade.

Veja os resultados completos do barômetro, abaixo ⬇️

O autocarro que nunca chega 🚌

Na mobilidade pública, a situação é um pouco menos sombria. Santa Maria Maior, São Domingos de Benfica e Carnide ocupam as primeiras posições, nesta mesma ordem. Na parte inferior da tabela: Marvila está em último lugar, seguida pela Misericórdia e Campolide. Estrela, que ocupa a última posição no ranking geral, está também entre as 10 piores resultados neste aspecto. Benfica encontra-se na metade da tabela.

Entretanto, a cidade não avança de forma uniforme: Misericórdia caiu do 10.º para o 23.º lugar desde 2021, acompanhada de queixas sobre cortes nas linhas de autocarros e tempos de espera que parecem intermináveis. Em 2024, a velocidade média dos autocarros da Carris atingiu o valor mais baixo já registrado: 13,7 quilômetros por hora. Como já discutido anteriormente, a solução pode estar na expansão da rede de corredores BUS.

Em termos de ciclovias, a imagem é muito mais positiva. Alcântara, Avenidas Novas e Parque das Nações são as mais bem avaliadas, apesar de críticas sobre interrupções nas vias. Em apenas uma década, o uso da bicicleta aumentou mais de 900% nas freguesias das Avenidas Novas, Arroios e Areeiro, segundo os Censos 2021. Essas freguesias possuem uma rede ciclável mais ampla e densa.

No que se refere ao espaço pedonal, as desigualdades são acentuadas. Alvalade é reconhecida pela qualidade das calçadas, mas Estrela caiu para a última posição e Campolide parece incapaz de sair daquele lugar.

Lisboa precisa de uma limpeza… em grande escala 🧹

Um aspecto que gera consenso é a limpeza urbana — ou a falta dela. Este é o indicador que recebeu a pior classificação em toda a cidade. Entretanto, existem algumas ilhas de exceção: Parque das Nações e Alvalade continuam a se destacar e a Penha de França surpreendeu ao subir do 23.º para o 4.º lugar.

Outro fator de descontentamento crescente é o ruído. Lumiar, que já foi considerada uma freguesia tranquila, caiu para o 21.º lugar, afetada pelo trânsito e pela explosão de esplanadas. Em Arroios, a tensão foi tamanha que a junta determinou o fechamento de 38 delas após várias queixas de moradores.

Sobre a qualidade do ar, Alvalade está em primeiro lugar, seguida pelo Parque das Nações e Areeiro. A situação mais alarmante é a de Campo de Ourique, que caiu da 3.ª para a última posição.

No que diz respeito à reciclagem, a situação é desigual: Alvalade, Campo de Ourique e Penha de França lideram, enquanto Campolide, Estrela e Santa Clara continuam a falhar, segundo o barômetro.

Guerrilheiros de uma Lisboa verde🌳

Nos espaços verdes, a quantidade não garante qualidade. Olivais, Benfica e Santa Clara lideram em número: os respondentes do questionário consideram que vivem em freguesias com espaços verdes. No entanto, a manutenção é outro tema. Alvalade e Campo de Ourique têm jardins bem cuidados, conforme apontado nas respostas ao barômetro. Neste contexto, surgem iniciativas como a de Nuno Prates, um morador que faz “jardinagem de guerrilha” e cuida de canteiros abandonados, demonstrando como os cidadãos tentam compensar o que o poder público não realiza. Por outro lado, Arroios, Misericórdia e Marvila estão na parte inferior da lista.

A cidade dos 15 minutos… é uma utopia? 🏙️

Há dez anos, o conceito da “cidade dos 15 minutos” começou a ser discutido. Termo criado por Carlos Moreno, urbanista especializado em sistemas complexos, que vive em Paris há mais de 20 anos e é professor na Sorbonne. Mas o que significa realmente ser uma cidade de 15 minutos? O conceito coloca o tempo no centro da organização urbana — não apenas o espaço —, indicando que devemos viver em cidades onde estamos a “um passo” de serviços, comércio e transportes, para levar uma vida mais sustentável.

Por que discutimos isso? Porque está refletido neste barômetro: a distância casa-escola é um dos indicadores melhor classificados em todas as freguesias. Alcântara e Santa Maria Maior destacam-se positivamente nesse aspecto. Embora seja Alvalade a zona de Lisboa considerada a mais próxima do conceito de cidade de 15 minutos, devido à acessibilidade a serviços essenciais, escolas e espaços verdes, muitos dos quais estão a uma curta caminhada ou de bicicleta.

Consultas adiadas 🏥

No que toca ao acesso à saúde, as notícias também não são favoráveis, refletindo um problema que tem gerado manchetes no país. Alcântara caiu do 3.º para o 15.º lugar, enquanto Alvalade agora está na última posição e São Domingos de Benfica não está mais no top 5 em comparação com 2021. Os moradores falam de longas filas, consultas adiadas e a necessidade de buscar atendimento no setor privado.

No entanto, não é por acaso que a freguesia de Santa Maria Maior, onde está localizado o centro de saúde da Baixa, é a melhor classificada na percepção de cuidados de saúde. É ali que Martino Gliozzi, médico, conseguiu eliminar as filas de espera. Confira a história:

Este barômetro não é oficial. Ele se baseia em uma pequena amostra de pessoas que residem na cidade e decidiram participar dessa iniciativa.

A amostra não é equilibrada por freguesia, o que significa que algumas áreas estão mais representadas que outras: Benfica, primeira no ranking geral, recebeu 25 respostas; Arroios (70), Alcântara (52), Avenidas Novas (31) e Alvalade (27) tiveram as maiores participações; enquanto Estrela, em último lugar, obteve apenas 15 respostas (participação moderada).

Os participantes foram solicitados a classificar a qualidade de vida em sua freguesia, de forma temática, em uma escala de 1 a 5, sendo 5 a satisfação máxima (nenhuma das respostas alcançou a classificação máxima).

Os resultados parecem corroborar com a percepção geral: Lisboa está perdendo qualidade de vida, mas existem bairros que demonstram que é possível viver melhor — e até pedalar até o topo do ranking.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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