Após a conclusão das gravações da telenovela Amor à prova, Alexandra Lencastre e Diogo Infante dedicam-se inteiramente a Tchékhov e a um dos seus maiores clássicos. Antecipando os ensaios, falamos com a atriz e o encenador, colegas e amigos. E cúmplices de longa data.
Alexandra Lencastre (AL) – Foi? Tanto tempo… A partir de uma determinada altura, uma atriz, para se defender, começa a esquecer as datas. Embora sinta a dimensão do tempo, acho que elas não são assim tão importantes.
AL – É mesmo pela mão do Diogo que regresso, porque se ele não me der a mão… O Diogo tem a condição. Pelo talento que tem, pela confiança que me dá, pela nossa amizade. Ao mesmo tempo, é muito persuasivo e há toda uma sedução de profissional para profissional que nos levanta um bocadinho o ego e abre o apetite para algo que parecia adormecido.
AL – Guardo imensas saudades desse tempo. Naquela época, cada companhia tinha a sua própria bolha, a sua forma de funcionar, e, no Teatro da Graça, existia a dinâmica de estarmos muito uns com os outros, num teatro dentro do teatro, dentro da nossa casinha, dentro das nossas almas, dos nossos corações, dos nossos autores. Essa bolha como que nos poupava à exposição. Aliás, se não nos falassem do que dizia a crítica, nós não íamos saber porque nem sequer procurávamos, e isso era algo que nunca tinha vivido noutras companhias. Portanto, na altura, tão jovem, nem sequer me apercebi do impacto que, por exemplo, tive no Diogo, um também muito jovem ator que ali, espectador, me via a fazer o papel de Nina.
AL – São várias sensações, e muitas delas contraditórias. Na primeira leitura do texto, agora, comovi-me de uma forma exageradíssima, quase melodramática. Embora esta versão seja a do Diogo, esteja adaptada aos nossos dias, a essência do texto de Tchékhov está toda lá. E mesmo sendo completamente diferentes, lembrei-me muito desse espetáculo no Teatro da Graça, recordei a maravilhosa Isabel de Castro, que fazia a Irina, personagem que será a minha neste espetáculo, e que com ela tanto se irritava…
AL – Acho que a Irina ridiculariza um pouco as atrizes e, de certo modo, eu represento um bocadinho aquele tipo de atrizes conotadas com a telenovela e com coisas mais comerciais, que fazem menos teatro. A Isabel, que tinha toda uma carreira de cinema e teatro, irritava-se com isso. Eu, pelo contrário, assumo-o, porque é mesmo assim.
Diogo Infante (DI) – Na verdade, há pontos de contacto entre a Irina e a Alexandra. Ela é uma atriz de meia-idade, de grande sucesso, com medo da solidão, com medo de envelhecer e com receio de deixar de ser relevante. Ao mesmo tempo, é uma lutadora ou, como se diz agora, uma mulher empoderada num mundo de homens no qual se conseguiu afirmar.
DI – Diria que é um papel perfeito para a Alexandra no sentido em que potencia características como atriz que, acredito, muitas pessoas nunca tenham visto. A televisão bidimensiona-nos; no teatro, a tridimensionalidade permite que possamos viver ali um tempo intenso, e enquanto espectadores, respirar com os atores. Ora, isso é único e mágico.
DI – Esta peça é de uma beleza incomensurável. Mesmo que a tivesse mantido na sua época, continua a ser, para começar, uma reflexão profunda sobre a identidade do artista. No fundo, é como se olhássemos para as especificidades de um artista nas suas várias fases. Temos dois jovens, a Nina [Rita Rocha Silva] e o Treplev [André Leitão] – uma ambiciona ser atriz, outro ser escritor; ambos com os seus sonhos, fantasias, expectativas, dúvidas e incongruências. Depois, temos duas figuras de sucesso, a Irina e o Trigorin [Ivo Canelas], instaladas, mas, contudo, continuando de alguma forma a ter receios…
DI – Sim, claro. Nós temos sempre receios. Lembro-me de trabalhar com a Eunice [Munhoz], com a Carmen [Dolores] e com o Ruy de Carvalho, e testemunhá-lo. Com o Ruy, quando fizemos o Rei Lear, perguntei-lhe um dia “está nervoso, Ruy?”, ao que ele respondeu, agarrando-me a mão: “Meu querido, isto nunca passa!” – que é como quem diz, “Prepara-te”. [risos]
DI – Para esta adaptação, pareceu-me interessante retirar tudo aquilo que pudesse datar a peça, o que, surpreendentemente, não é assim tanto. Procurei também universalizar o texto do ponto de vista geopolítico, porque ele pode passar-se em qualquer cidade ou país na atualidade. Fundamental é o retrato que Tchékhov faz do processo criativo, a reflexão que propõe sobre o ato de criar, mas também sobre o amor nas suas várias fases e etapas. Portanto, os pontos de contacto com a atualidade são mais do que muitos. No fundo, tem muito a ver com a ideia de acharmos que todos temos de ter sucesso, todos temos a expectativa de ter a capacidade de mudar e a maior parte de nós não o fazer, seja porque não consegue reagir, seja porque tem medo de arriscar.
DI – Ele fala sobre uma sociedade que sofre de grande apatia perante a transformação. É curioso, estarmos, de facto, na iminência de uma qualquer revolução. E embora sem perceber ao certo o que aí vem, estando mesmo meio apáticos, somos como um animal que sente a tempestade, que sente a tormenta, mas não sabe para onde fugir.
DI – São personagens trágico-cómicas numa espécie de sátira – ele tratava as suas peças grandes como comédias – sobre a incapacidade que temos de reagir. Isso acaba por ser trágico, porque essas personagens nunca percebem que estão condenadas à partida. Por isso mesmo, olho para elas como um belíssimo ponto de partida para olharmos para dentro com um sorriso nos lábios, e termos a capacidade de autocrítica e de rir de nós mesmos.

AL – Como diz a Nina na peça, “é o horror, é o horror… vem aí o diabo”. Tenho de manter o pânico para não baixar a guarda. É mesmo assim. Tal como a Irina, não posso desistir nem posso fracassar. Claro que, o primeiro e último espectador é sempre o meu encenador, e sendo o Diogo, é ele que me guia, que me corrige e inspira e a quem quero agradar. Devido a estes hiatos que tenho tido, creio que me vou tornando mais obsessiva, mais focada, mas também mais medrosa. Ou seja, tudo parece estar mais potenciado, não é? Quando se torna rotineiro subir a um palco, às tantas, há uma descontração e uma entrega diferente.
AL – O Diogo respeita muito os espaços. Há a peça, mas também há a tua vida, a tua mãe, as tuas filhas, etc. É uma pessoa em quem confio absolutamente, que admiro ao ponto de estar sempre a aprender e de gostar de tudo o que ele tem feito ao longo dos anos. E, às vezes nos ensaios, ouço as suas gargalhadas súbitas que são alertas. E é sempre preferível ouvi-las a levar um ralhete [risos].
DI – Somos da mesma geração. Quando saí do Conservatório, a Alexandra já estava a trabalhar e o fascínio que ela conseguiu exercer sobre o público e a crítica foi notável, não se falava de outra coisa. Fiquei completamente absorvido pelo que vi e pelo que testemunhei dela em palco. Embora eu seja ligeiramente mais novo, muito cedo cruzámos caminhos, sobretudo na televisão. A amizade nasceu aí e permite-nos ter uma cumplicidade grande que transmite e transforma matéria-prima artística. Ou seja, há coisas que sei que posso dizer-lhe de uma determinada maneira e ela sabe sempre que comigo pode arriscar, correr riscos. Tudo porque estou lá para ela; tudo porque desejamos o melhor um do outro.
DI – É como as personagens do Tchékhov, a Irina e a Nina. Nós temos um profundo medo do ridículo, medo de nos expormos, medo de ficar aquém das expectativas.
DI – Há dias, falávamos sobre isso, e eu dizia estar a fazê-la não para o meio, mas para o público. Para aquelas pessoas que conhecem Tchékhov, sim, mas sobretudo para as que não conhecem e que vão descobrir um texto incrível, uma história maravilhosa, seja ela passada no final do século XIX ou agora. Se tivermos contribuído para que novos públicos possam testemunhar este texto, já ficamos muito felizes.
DI – Estou numa fase da vida em que estou bastante mais confortável no meu papel de encenador…
AL – Não posso dizer, pois não?… É que brincamos com a hipótese de, se me der alguma coisa, o Diogo fazer a Irina [risos].
DI – Como tenho por este texto uma enorme paixão desde a primeira vez que o li no Conservatório, tinha mesmo de estar de fora. Claro que, na altura, imaginei-me logo o jovem Treplev, o artista em litígio consigo próprio. Tenho a ambição de criar um espetáculo muito belo, muito bonito, curiosamente muito divertido, mas do qual possamos sair ligeiramente incomodados.
AL – Até já propus uma peça ao Diogo [risos]. Gostaria que fosse possível, mas tenho tantos receios. Um deles, por exemplo, é que agora, quando fizer a Irina, achem que estou a fazer de mim própria. Depois há os nossos pesadelos recorrentes enquanto atores como as “brancas”, o entrar em palco e não ter o figurino… Isto é duro como o raio! Cada vez que se sobe a um palco é como entrar numa arena, é quase estar entre a vida e a morte. É certo que não morremos, mas quando acaba e a personagem sai, estamos um farrapo. E depois, temos que nos reencontrar e voltar à vida real. Sinto falta disso, de poder trabalhar mais e mais, e com todos estes jovens tão talentosos que tanto me desafiam…
DI – Há uma peça americana que propus à Alexandra, mas não posso revelar. É um registo diferente que implica desmontar a sua imagem pública, a obriga a ir para uma zona mais escura. Exige coragem e generosidade, e ela diz estar pronta para isso…
AL – É por superstição que não contamos. Como o bater na madeira, ou não vestir verde em cena, ou não poder dizer “cobra”… Ainda mantenho uma: a de ninguém poder tocar no meu texto. Prefiro mesmo que não o façam até final da temporada, mesmo que caia ao chão e alguém o apanhe.









