A Agenda Cultural de Lisboa foi criada em outubro de 1990, numa época anterior à popularização da Internet e ao uso corrente de telemóveis. A vida cultural da cidade começava a ganhar força e a revista surgiu para dar conta de tudo o que se passava. Nesse mês, entre outros eventos, ocorreu a estreia de Pretty Woman, estrelado por Julia Roberts e Richard Gere, e de Non ou a Vão Glória de Mandar, de Manoel de Oliveira; João Lourenço encenava Desejo Sob Ulmeiros e Loucos por Amor, enquanto Fernanda Lapa apresentava Quem Tem Medo de Virginia Woolf?; no Teatro São Luiz, expunha-se a obra de Carlos Solano de Almeida, e na Gulbenkian, o Coro e a Orquestra interpretavam a versão de concerto de Fidélio, a ópera de Beethoven.
Foram mais de 30 anos de muitas páginas escritas, acompanhando o trabalho de quem cria espetáculos, organiza concertos ou exposições, publica livros ou realiza filmes. Para comemorar o aniversário, conversamos com artistas que nasceram no mesmo ano que a Agenda, buscando entender o que significa ter 35 anos hoje.
Ana Bárbara Pedrosa
Escritora
Autora de Lisboa, chão sagrado (2019), Palavra do Senhor (2021), Amor estragado (2023) e Viagens com o Mehdi (2024), todos publicados pela Bertrand Editora.
“Cresci numa época em que a Internet ainda não dominava. Passava as noites a ler e a escrever, e essa concentração se tornou mais difícil hoje, com os telemóveis a apitar e a televisão a ter muito mais canais… Tive a oportunidade de me aprofundar na literatura, enquanto as crianças atuais enfrentam desafios maiores. As telas anestesiam o mundo ao redor e é mais complicado cultivar a solidão necessária. Aos 35, vive-se num limbo, uma mistura de juventude tardia e início do envelhecimento. Há uma urgência em realizar coisas, mas é uma urgência mais tranquila, pois parte do caminho já foi trilhada. Sinto-me agora capaz de escrever um romance, mas a vontade de aprender persiste, pois não gosto de repetir fórmulas; prefiro não ter a certeza do que sou capaz e lutar contra mim mesma, desenvolvendo habilidades à medida que escrevo. Isso me motiva, sinto que estou em constante evolução e sempre criando algo novo.”
Bernardo Majer
Autor de Banda Desenhada e Ilustrador
Designer gráfico, é autor de Estes Dias (2022) e Espiga (2024), ambos publicados pelas Edições Polvo.
“Ainda não sei se sei o que é ter 35 anos. Serei pai em fevereiro, então isso vai marcar uma fase de muitas mudanças. Sinto que estou entrando na vida adulta talvez um pouco mais tarde do que o esperado. Os 35 anos trazem responsabilidades e um pouco mais de paciência, uma qualidade que vem com a idade e a experiência. Aos 20, passar três anos escrevendo um livro parecia uma eternidade. Agora, sei que a banda desenhada é um processo lento, por isso estou disposto a dar tempo ao meu terceiro livro em que estou a trabalhar. E hoje, questiono mais o que faço, pensando sempre: ‘será que é bom? Vale a pena investir três anos da minha vida nisso?’. Cada época tem seus desafios, e minha geração enfrenta dificuldades em comprar ou alugar casa, o que implica ganhar dinheiro e limita as oportunidades de empreendimentos menos rentáveis… como a banda desenhada. Quem faz BD em Portugal faz por amor à arte, e isso é, ao mesmo tempo, horrível e bonito.”
Sara Barros Leitão
Atriz, Encenadora e Dramaturga
Com o espetáculo Suplicantes – sobre migrações – em digressão nacional nos próximos meses, planeja ainda uma peça sobre o aborto para 2026.
“Aos 35, percebo que a vida adulta é uma ilusão. Quando crianças, imaginamos que ao crescer teríamos todas as respostas, mas na verdade seguimos à procura delas. Nascemos após a queda do muro de Berlim, com a promessa de que os muros poderiam cair; vimos a globalização e a transição digital. Os anos 90 foram extraordinários e tudo parecia possível: a proteção social, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde… Mas ao entrarmos no mercado de trabalho, enfrentamos crises, como a da Troika e a precariedade. Isso gerou grande frustração. Quando parecia que tudo se estabilizaria, veio a pandemia. E agora, quando há crescimento econômico, já temos 35 anos e não somos mais elegíveis para créditos à habitação, passes gratuitos e outros apoios… É como se nosso tempo já tivesse passado ou nunca fosse o nosso. Aos 35, já temos maturidade para entender que o trabalho é importante, mas a vida é muito mais do que isso. Vejo todos ao meu redor cansados. Espero que possamos encontrar um espaço de descanso e distribuição de riqueza, até para que o planeta resista.”
Alex D’Alva Teixeira
Músico
Em fevereiro, lançará o EP Livre, retornando ao trabalho solo, e também se apresentará no novo disco de Rita Onofre, Bruta, numa digressão chamada Livre Bruta.
“Costumo dizer que ‘já não sou jovem’, mas isso não é uma visão fatalista. Sinto-me frequentemente num estado de não-lugar, mas agora, muitos me convidam a sentar à mesa dos adultos. Aos 35 anos, lido com a ansiedade, resultado da crise da habitação, das questões políticas e da presença da inteligência artificial. Porém, sem importar a idade, vejo que estamos todos no mesmo barco. O que me mantém vivo é a curiosidade de saber o que vem a seguir, mesmo que seja um futuro distópico. Eu adoraria que as pessoas, coletivamente, tivessem uma visão voltada para a cooperação e a partilha. Atualmente, temos todos os recursos; basta distribuir deveres, responsabilidades e riqueza. Meu novo disco reflete sobre a crise do momento: mais vale dançar enquanto o mundo desmorona. É fundamental que os artistas proporcionem espaços de escapismo e mantenham viva a ideia de que há várias maneiras de existir.”
Miguel Mesquita
Arquiteto e Curador
Além dos projetos de curadoria e arquitetura, é consultor no Centro de Arte da Quinta do Quetzal e membro fundador da direção artística do Ceentaa – Associação Cultural e Ambiental, em Vila Velha de Rodão.
“Os anos 90 foram uma época áurea que moldou a minha geração em como percebemos o mundo. Depois, a crise nos pegou ao entrarmos no mercado de trabalho. Para mim, isso possibilitou explorar novos caminhos e, embora me tenha formado em arquitetura, desenvolvi um interesse pela curadoria. Desde então, busco questionar constantemente o que faço e encontrar outras formas de ação, revisitando lugares e refletindo sobre a relevância do meu trabalho. Quando iniciei na curadoria independente, o mundo foi atingido por outra crise: a COVID. Esses desafios podem ser frustrantes, mas vejo como um processo de desenvolvimento. Aos 35 anos, tenho muitas ideias do que quero realizar, mas sinto dificuldade em prever o futuro. Há uma instabilidade atual que torna complicado afirmar meus passos no caminho.”
André e Gonçalo Cabral
Bailarinos e Atores
André está mais ligado à dança contemporânea e Gonçalo às danças urbanas; atualmente, se juntam a outras duplas de gêmeos no espetáculo Bright Horses, que seguirá em digressão em 2026.
“Os trinta são os primeiros anos da vida adulta. Faço minhas escolhas e sei que não posso querer tudo ao mesmo tempo. É sonhar, mas com objetivos. Estamos fazendo nosso caminho, mas já começamos a passar o testemunho aos nossos alunos. Somos os tios! E ainda temos muito a aprender. Na dança, ganhei maturidade no movimento, conheço melhor meu corpo e seus limites, e isso me confere segurança. É uma jornada: passei da semente, floresci e agora estou criando raízes. Sinto-me apreensivo, mas esperançoso.” André
“O Gonçalo que tem 35 anos não seria o mesmo se não fosse pai. Isso molda meu comportamento. Temo menos o erro e vejo-o como uma oportunidade de aprender. Aprecio onde estou e acredito que posso crescer ainda mais. Sou grato por ter nascido nos anos 90 e por ter tido acesso a várias influências das danças urbanas. Enquanto mantenho um espírito jovem em relação ao movimento do corpo, a dança continua a fazer sentido. Os 30 são os novos 18, sinto-me no auge. Estou confiante (sem exageros) e ponderado.” Gonçalo








