Durante anos, Joaquim Quadros foi a voz das tardes da Vodafone FM, onde, com a Red Bull, também apresentou programas sobre música. Ele agenciou bandas e participou de diversas atividades, desde colar cartazes até buscar artistas no aeroporto, o que lhe proporcionou “uma visão 360º do universo da música independente e alternativa e da promoção de espetáculos”. Aos 37 anos, afirma: “Não tenho interesse em eventos massivos ou para grandes públicos, gosto desta esfera onde as pessoas se voltam para uma comunidade e se ajudam mutuamente. Há uma beleza especial nesse universo.”
Tudo começou com a vontade de juntar pessoas e “amplificar novos projetos musicais”, movido pela “ideia de partilha” que sempre teve. Junto com os sócios Felipe e Alejandro Steiner, da Colômbia, e Luiz Gabriel Vieira, do Brasil, iniciou a abertura de um bar na Rua das Gaivotas, o Vago, mas logo percebeu que aquele não seria o melhor espaço para música ao vivo. “Era uma lógica diferente; a maioria das pessoas nem prestava atenção aos concertos que aconteciam num canto da sala”, relata. Em maio de 2023, decidiram transformar a sala vizinha, que funcionava como armazém de barris de cerveja, e que já havia sido uma oficina de carpintaria e metal e aço, na Lisa. O objetivo era criar “um espaço que refletisse a cidade”, e o nome foi inspirado na gíria que usavam para se referir a Lisboa.
Nestes quase três anos, no número 5 da Rua das Gaivotas, a Lisa tem sido um ponto de encontro para os amantes da música. O conceito sempre foi proporcionar total liberdade e misturar todos os gêneros musicais que estivessem emergindo, quase como um retrato da música de uma época. A partir deste janeiro, a programação da sala será menos intensa, passando a ser mais semanal do que diária, mas mantendo a essência que a caracteriza. “Apostamos nas noites de clubbing e nos concertos. Será essencialmente música, mas estamos abertos a outras expressões artísticas”, explica Joaquim. “Teremos principalmente artistas nacionais, mas também alguns internacionais: música africana e das comunidades da diáspora, techno e house, rock, apresentações de discos, novas bandas, músicos emergentes… vamos continuar fazendo o que fazíamos antes, mas com um caráter mais espaçado.” Quase nada muda, na verdade. A Lisa continua a ser um espelho sonoro de Lisboa, que vale a pena acompanhar de perto.
Do lado oposto da rua, um pouco abaixo da Lisa, está o espaço idealizado pelo Teatro Praga, na antiga Escola das Gaivotas, que mantém uma programação regular há 10 anos. “São nossos vizinhos e têm um excelente projeto de residências relacionado às artes performativas. É um lugar essencial para uma geração de artistas e novos talentos”, destaca Joaquim Quadros, que o descreve como um local para “uma constelação de pessoas que olham para o mundo”.
Pertencente à Câmara Municipal de Lisboa, o Polo Cultural Gaivotas | Boavista está localizado no Palácio Alarcão e funciona como “centro para a criação artística”, voltado tanto para artistas profissionais quanto emergentes. “É possível almoçar, parar para uma limonada ou um chá, e há ciclos de cinema e até concertos. Possui um pátio acolhedor, a céu aberto, ideal para uma reunião durante a tarde”, aconselha Joaquim. Dentro, há salas de ensaio, de formação e escritórios, assim como espaços de alojamento e trabalho para residências artísticas. Também funciona ali a Loja Lisboa Cultura, um “serviço de informação, atendimento e formação especializado em temas relacionados à atividade dos profissionais e organizações do setor cultural”. Durante o verão, ocorre o evento Gaivotas no Pátio, com diferentes programas culturais.
Abriu em 1988 e ainda é uma das referências da noite em Lisboa, o Incógnito continua a ser um lugar de encontro e resistência. Nos fins de semana, a festa ocorre em seus dois andares que guardam uma história de quase 40 anos. “Essencialmente um hub de pessoas em torno da música que se mantém relevante ao longo das décadas de transformação da zona”, ressalta Joaquim Quadros. Uma verdadeira “instituição”, o Incógnito surgiu como o primeiro espaço alternativo da cidade.
Inaugurado em 2013, o Atelier-Museu Júlio Pomar abriga centenas de obras, abrangendo pintura, escultura, desenho, gravura, cerâmica, colagens e assemblagens. “Normalmente apresenta eventos, conferências e exposições temporárias. A arquitetura do espaço é lindíssima”, menciona Joaquim Quadros, referindo-se ao projeto do arquiteto Álvaro Siza Vieira, que transformou um antigo armazém na rua onde Pomar viveu os últimos anos de sua vida.
Cossoul é um lugar comunitário com uma variedade de propostas: concertos de jazz, noites de cinema, stand-up, conversas, poesia e muito mais. “Um clássico que se realojou recentemente em um novo espaço após a venda do prédio original, mas que continua com sua programação”, elogia Joaquim Quadros, destacando o trabalho da Cossoul – Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, criada em 1885 por entusiastas da música e admiradores do compositor e violoncelista português do século XIX, que também foi o fundador dos bombeiros voluntários em Lisboa. Com uma galeria, livraria, sala de leitura, sala multiusos, rádio e bar, a Cossoul também desempenha um papel importante na formação através das artes.








