Há algumas semanas, recebi uma chamada de um amigo. Era João Soares, o político socialista, falando sobre eleições e tentando convencer-me a apoiar a sua candidatura. Apesar de apreciar as conversas com ele, interrompi-o: “Nunca estive tão certo quanto a estas eleições, meu voto é único, não perco tempo com discussões.”
João entendeu e mudou de assunto, brincando sobre a casa de Trotsky na Cidade do México, uma piada privada entre nós, o social-democrata de sempre e eu, ainda intrigado com o velho Léon. Percebi que não fiz a habitual provocação que tanto gosto de lhe fazer. Contudo, notei, mais uma vez, o quanto estou profundamente preocupado com a política.
A minha intenção de voto estava definida antes da primeira volta, como já havia dito ao João durante a nossa conversa: “Nunca estive tão certo em umas eleições, meu voto é apenas um.” Isso significa que são vários, todos essenciais e assim eu pretendia tratá-los.
E foi assim que fui votar. Naquela fase, essa eleição tão crucial, eu a tratava como um jogo de pôquer. Obviamente, afastei algumas cartas irrelevantes. Das que ficaram, não gostei nem um pouco de ver que não perceberam o que estava em jogo: os fora do baralho, como Livre, PCP e Bloco, tratando a grande política, aquela que molda a História ou, pelo menos, gerações, com táticas de pequenos comerciantes da sua própria loja. Era previsível que falhassem.
Até aquele 18 de janeiro, o distribuidor de cartas (nos casinos, chamado de croupier; nas eleições, empresas de sondagens) me deu quatro ases. De fato, entre os concorrentes a considerar, foram distribuídas cinco opções. As quatro que eu tinha na mão e uma outra.
Já que mencionei este jogo de metáforas, defino essa quinta carta: nos saloons do Velho Oeste, quem a deteria seria expulso da cidade, calças na mão, em completa desgraça…
Esse era um trapaceiro que não jogava limpo, com enganos e manobras, submetido à porta da cozinha nas festas que Trump promovia (e, mesmo assim, vangloriando-se: “Fui à festa, fui à festa”), um agitador mostrando fotos falsas em debates, um covarde a lançar essas imagens na cara de uma mulher porque sabia que ela, em estúdio e perante o público, não se levantaria para revidar. Ele, que sempre se mostrou apático, lembrando seus tempos de comentarista esportivo, permanecia pálido e em silêncio quando suspeitava que um oponente (na CMTV), que lhe chamava de “m-e-n-t-i-r-o-s-o”, realmente lhe daria um par de bofetadas. Portanto, essa quinta carta não poderia ser comparada cidadanamente às outras quatro.
Entretanto, percebo que as metáforas de pôquer são fracas no contexto atual. Elas apenas destacam um indivíduo deformado.
Na verdade, isso não é um jogo – é a minha vida que está em risco. Era André Ventura, do Chega, gritando para uma deputada portuguesa, por ser negra: “Vai para a tua terra.” Como se Portugal não fosse o lar de Mário Coluna, um dos maiores orgulhos de Portugal, que, há décadas, mostrou ao mundo que um capitão negro sempre seria um grande capitão.
Esse André era um cartaz enorme, profanando os ciganos e envergonhando uma criança cigana. Na sua escola, entre os seus colegas. Não quero epilogar sobre a criança, nem sobre a deputada, filosofar, discutir ou situar politicamente. Não quero nenhum mas ou meio-mas. Falo da educação sólida e essencial que todos os portugueses merecem, seja da elite, do sistema, ou até mesmo do analfabeto que, em uma ocasião no Big Brother, levantou-se e desligou o televisor ao ver um canalha dar um pontapé numa mulher.
Nós.
Aqueles que, se a avó fosse de origem indiana, perguntariam: “Avozinha, alguma vez te chamaram monhé?” E a resposta certamente lhe ensinaria a escolher as companhias.
Sou desse tipo, um português que, ontem, sentiu um orgulho imenso ao ver um conterrâneo, em uma importante conferência internacional entre a Índia e a União Europeia, apresentar seu passaporte indiano e exibi-lo com dignidade.
E não, António Costa não é indiano apenas por suas “origens pessoais”. Ele é, acima de tudo, um português por excelência, em um país que acolhe dezenas de milhares que nasceram na maternidade Alfredo da Costa, filhos de goeses que vieram repletos do saber de gerações de mestres que ensinaram ao mundo a parir desde o século XVIII. Temos mundo – e, portanto, a obrigação democrática mais significativa de todas: somos um só povo, sem divisões.
Nós.
Assim, quando entrei na cabine de votação no dia 18, tinha apenas um voto: quatro nomes, que as sondagens indicavam como possíveis de passar à segunda volta. Para mim, não importava se eram de esquerda ou direita, ou submarinistas.
Para ser claro: votaria até em um político que detesto, como Cavaco Silva. Meu amigo João, por acaso e entre as quatro opções, votei em António José Seguro. Com a consciência tranquila, diria o mesmo dos outros três.
Preclaro, por uma vez, afirmou André Ventura ontem no debate: “Todos contra mim.” Claro, as eleições são para democratas. As sondagens indicavam que ele estava entre os cinco que poderiam ganhar. E, mais ainda, Ventura era um dos mais prováveis a avançar. Um racista – ou seja, aquele que carrega o estigma mais sujo entre os democratas, não deveria passar.
Com isso, minha variedade de quatro escolhas, no dia 18 de janeiro, tornou-se uma única e imperativa no dia 8 de fevereiro. O foco agora, Luís, João, Henrique ou António José, era garantir que um racista não ganhasse.
Sim, voto por uma banalidade. Pela banalidade de que o racismo não deve existir e pela banalidade de que a democracia não precisa de justificativas. Mas como o racismo persiste e a democracia exige ação, André Ventura deve ser derrotado.
Nunca o voto foi tão crucial desde o 25 de Abril. Porque nunca antes um racista teve a chance de vencer uma eleição presidencial em Portugal, ou de receber uma votação significativa que o impulsionasse a um comportamento predador.
Isso não deve levar à ironia desdenhosa, dos cínicos que acham António José Seguro ineficaz.
O fato é que a ironia se aplica a todos nós: hoje e agora, Seguro é o político mais necessário desde que vivemos em democracia.
Ele está em sua posição.
E nós?
No segundo turno presidencial de 2002, escrevi uma crônica sobre um amigo meu, também conterrâneo e de direita (foi ministro do Governo de Pedro Santana Lopes). Publicamente, manifestei-lhe meu orgulho: “Obrigado.”
Meu embaixador na França fez o que um diplomata deveria evitar. Mas António Monteiro fez o que era correto. Ele foi a um comício eleitoral para aplaudir publicamente Jacques Chirac contra um antepassado de André Ventura.
Em tempos extraordinários, os normais devem ser normais. E proclamá-lo.









