Em maio, Lisboa se torna um ponto de encontro para a literatura. O mês se inicia com o Festival Internacional de Literatura e Língua Portuguesa, Lisboa 5L, na Biblioteca Palácio Galveias, e se encerra com a 96.ª edição da Feira do Livro, que retorna ao Parque Eduardo VII. É uma oportunidade de refletir sobre a relação da cidade com os livros, a literatura e seus autores. Convidamos cinco pessoas ligadas ao mundo literário, com visões distintas: escritores, editores, tradutores, o presidente da APEL e um representante de uma editora. Eles compartilham suas percepções sobre os autores e obras que contribuíram para a imagem da cidade, a importância da proteção e promoção desse patrimônio, o papel das livrarias e bibliotecas e a relevância de criar comunidades em torno da leitura.
“Sérgio Machado Letria, Diretor Executivo da Fundação José Saramago, ressaltou que ‘Lisboa é uma cidade literária porque tem um patrimônio de autores que fizeram dela palco dos seus livros’. Ele menciona a importância de Saramago na literatura lisboeta e como a cidade influenciou sua criação. Letria comenta sobre a descentralização das livrarias, que estão se concentrando em grandes grupos econômicos, enquanto as livrarias independentes são patrimônio literário e devem ser preservadas. Ele destaca que a educação literária de Saramago foi iniciada em uma biblioteca pública e conclui que ‘a literatura é o grande espaço da liberdade num tempo de opinião única’.”
“A escritora e jornalista Ana Margarida de Carvalho, por sua vez, afirma que ‘Lisboa é, sem dúvida, a cidade mais literária de Portugal’. Ela destaca autores que escreveram sobre a cidade e fala da necessidade de preservar locais que foram pontos de encontro de escritores. Ela sugere a realização de um grande festival literário que una diferentes artes e atraia a participação do público, enfatizando que ‘o que temos de mais valioso é a nossa língua’.”
“Miguel Pauseiro, presidente da APEL e gestor do Grupo Bertrand Círculo, acredita que ‘tornar Lisboa uma cidade literária é um compromisso coletivo’. Ele ressalta a importância de criar um eixo cultural estratégico que una iniciativas voltadas para a promoção da literatura e da leitura. Pauseiro sugere a criação de uma marca que identifique Lisboa como uma cidade literária, com propostas como dar nomes a parques e criar eventos que integrem a literatura ao cotidiano da cidade.”
“A escritora e editora Maria do Rosário Pedreira aponta que Lisboa, apesar de estar ‘menos literária’ devido ao fechamento de livrarias por conta do turismo, continua a inspirar escritores e a ser um cenário de obras. Ela ressalta que a cidade deve ser celebrada na literatura e que iniciativas como a Feira do Livro refletem a importância da leitura na cultura da cidade, mas frisou que ainda há muito a ser feito na educação para aproximar as pessoas dos livros.”
“Por fim, Paulo Faria, escritor, tradutor e curador do clube de leitura da Livraria Almedina Rato, aborda a dissolução da comunidade em Lisboa. Ele acredita que a cidade só pode ser literária se preservar a comunidade e que o mercado, ao priorizar o lucro, prejudica a leitura. Faria defende a criação de comunidades em torno dos livros, como clubes de leitura, como uma forma de cultivar um sentimento de pertencimento entre as pessoas.”
[depoimentos recolhidos por Gabriela Lourenço e Luís Almeida d’Eça]









