O manto que cobre também pode revelar. A indumentária, imbuída de simbolismo, acompanha a humanidade há milênios, em diversas culturas e lugares. Mais do que vestuário, é um sinal, uma mensagem. Não é à toa que duas peças dessa natureza estão em evidência na exposição Complexo Brasil.
O Manto Tupinambá, de Glicéria Tupinambá, e o Manto da Apresentação, de Bispo do Rosário, ao lado dos Parangolés de Hélio Oiticica — uma versão mais não convencional de manto — são peças que, expostas na Fundação Calouste Gulbenkian, ajudam a “descobrir” aspectos significativos da cultura brasileira.
Descobrir é uma palavra emblemática na relação entre brasileiros e portugueses, marcada pela perspectiva europeia que considera que o vasto continente americano foi “descoberto” apenas com a chegada das caravelas, ignorando a presença dos povos originários e suas tradições.
Entre esses povos, os tupinambás.
Atualmente restritos à vila de Olivença, na Bahia, e à região do Baixo Tapajós, no Pará, os tupinambás formavam uma grande nação de falantes do ramo tupi ao longo do litoral brasileiro durante o período do descobrimento do Brasil. Segundo o filólogo Eduardo Navarro, o termo tupinambá deriva da junção de tupi (povo), anama (família) e mbá (todos).
O contato com os karaiwa – referindo-se ao homem branco, cujo termo também compõe o gentílico carioca (karaiwa + oka, casa) – foi um episódio trágico para os tupinambás, marcado por doenças, como a cárie, que dizimaram sua população, além da expropriação de terras e saques das suas riquezas, incluindo os magníficos mantos.
Confeccionados com plumas vermelhas do guará e trançados com os nós característicos dos tupinambás, o açoiaba ou “manto” em tupi era considerado sagrado e utilizado em ritualísticas. Nas mãos dos europeus, transformou-se em objeto exótico de coleção, muito valorizado no comércio transatlântico da época.
Essa trajetória explica por que, passados 500 anos do primeiro contato europeu com os tupinambás, apenas 11 fragmentos do manto se encontravam em museus da Bélgica, Dinamarca, França, Itália e Suíça, sem nenhum no Brasil.
Essa é mais uma distorção do Complexo Brasil, que levou os descendentes tupinambás a entrarem em contato pela primeira vez com seu manto sagrado ao verem o exemplar emprestado pelo Museu Nacional da Dinamarca na Mostra do Redescobrimento, em 2000, durante as celebrações do quinto centenário brasileiro.
Entre esses descendentes estava Glicéria, que, 400 anos depois, retomou a confecção do manto sagrado pelas mãos de um tupinambá.
O manto que levou 400 anos a ser costurado
O Manto Tupinambá deve ser observado com essa responsabilidade, no início da exposição da Gulbenkian. Ele carrega não apenas o peso da tradição, mas também um simbolismo forte, especialmente para os imigrantes brasileiros em Lisboa e Portugal.
Guilherme Wisnik, um dos curadores de Complexo Brasil, expressa seu orgulho pela presença desta peça na mostra, que representa não apenas um objeto, mas também um saber fazer.
“A intenção ao incluir o Manto Tupinambá foi enfatizar o movimento de repatriação”, explica Guilherme Wisnik.
O curador menciona que Glicéria, professora, doutoranda em antropologia, artista e liderança indígena, ao observar o exemplar trazido da Dinamarca, percebeu que o nó utilizado para amarrar as penas era o mesmo ainda praticado pelos tupinambás em sua tribo na Bahia.
“A partir de imagens do manto, ela passou a estudar a técnica de confecção utilizando esse nó peculiar tupinambá, que é extremamente complexo.”
Um dos principais desafios na retomada da produção foi a matéria-prima, já que o guará, pássaro de plumagem avermelhada e próximo do íbis, está em risco de extinção. A saída foi optar por outros tipos de penas de aves que habitam o território tupinambá, como pavões, gaviões, corujas, patos e galinhas.
Assim, o primeiro manto produzido por um tupinambá desde o século XVI foi finalizado em janeiro de 2006 e utilizado pelos pajés nas celebrações da cerimônia dos Encantados, um ritual que conecta várias culturas originárias do Brasil, evocando entidades sobrenaturais e cultuando os antepassados.
Por mais de uma década, o manto de Glicéria foi o único representante da cultura tupinambá até o repatriamento, em 2023, do exemplar dinamarquês, que havia inspirado a jovem indígena.
A força do Manto Tupinambá de Glicéria, entretanto, é inegável. A peça de 2006 sobreviveu ao devastador incêndio que destruiu o Museu Nacional, onde estava exposta. O modelo na Gulbenkian é uma das peças mais novas, produzidas em 2025.
Loucura e fé na obra feita para Deus
O outro manto na exposição em Lisboa carrega também simbolismo da fé, sendo uma magnífica criação do artista, tapeceiro e bordador Bispo do Rosário, natural de Sergipe, mas que viveu a maior parte da sua vida no Rio de Janeiro, quase sempre internado na instituição psiquiátrica Colônia Juliano Moreira, onde foi diagnosticado como esquizofrênico-paranóico.
Após um diagnóstico tardio aos 27 anos, Bispo do Rosário teve um passado de alistamento na Marinha e foi boxeador profissional, mas a luta mais intensa foi travada na instituição psiquiátrica até sua morte em 1989, aos 78 anos, devido a broncopneumonia.
Durante seus surtos, Bispo do Rosário se via como uma representação divina na Terra, encarregado de julgar os vivos e os mortos. Com dimensões imponentes de 2,28m por 1,15m, o Manto da Apresentação faz parte dessa missão do artista, sendo tecido para um dia em que se apresentaria diante de Deus.
“A peça é fantástica, pois Bispo do Rosário utilizou a matéria-prima disponível: os lençóis do hospital, desfiando o uniforme dos pacientes para bordar com a linha, o que explica as tonalidades de azul do uniforme e o branco do lençol”, ressalta Guilherme Wisnik.
Originalmente exposto junto a um acervo de mais de 800 peças no museu que leva seu nome no Rio de Janeiro, a obra também chama atenção na Gulbenkian e merece uma apreciação cuidadosa, tanto pela parte da frente quanto pelo avesso.
Além do impacto estético, o Manto da Apresentação dialoga com o Manto Tupinambá na trajetória sincrética religiosa, incluindo as representações de matrizes africanas presentes no Complexo Brasil, que são cruciais para a formação multicultural da fé brasileira.
Os Parangolés, uma antiobra de arte
Entre os dois mantos, uma estrutura suspensa abriga outra obra concebida para cobrir o corpo, mas que também convida o visitante a descobrir uma das vertentes da arte contemporânea brasileira, especificamente a teoria do não-objeto que marcou o neoconcretismo no Brasil na segunda metade do século XX.
Coloridos e deformados, os Parangolés de Hélio Oiticica são um exemplo didático do não-objeto defendido pelo poeta e crítico Ferreira Gullar, onde a obra de arte não se limita a uma representação, mas se transforma em uma experiência sensorial, convocando o público a interagir e, de certa forma, “fazer parte” da obra, um conceito que Oiticica chamava de sua antiobra.
No calão do português brasileiro, parangolé refere-se a uma conversa sem sentido, um diálogo impossível que Oiticica propõe ao vestir seu público com as obras, um movimento que percorreu as décadas de 1960 e 70 até sua morte precoce em 1980.
Diferente dos mantos de Glicéria e Bispo do Rosário, as capas dos Parangolés não fazem referência ao sagrado; pelo contrário, evocam a dessacralização da arte e a subversão do status quo durante a Ditadura brasileira, que começou em 1964, ano em que Oiticica confeccionou o primeiro Parangolé após uma visita ao galpão da escola de samba Mangueira.
Dois anos depois, Oiticica defendia a favela brasileira e a configuração de seus barracos, onde a sala, o quarto e a cozinha se intercalam, como a essência dos Parangolés, cujas partes se conectam ao corpo de maneira fluida. O nome da sua antiobra foi inspirado em uma placa pendurada em um abrigo de mendigos: “Aqui é o Parangolé”.
Os Parangolés são as únicas peças em exibição na Gulbenkian que convidam e estimulam o manuseio, continuando a filosofia do não-objeto que marcou a arte contemporânea brasileira. Juntas, essas três indumentárias tecem o tecido da formação de um brasileiro moldado em um Brasil perpetuamente complexo.
Complexo Brasil
Galeria Principal e Piso inferior da Fundação Calouste Gulbenkian
Até 17 de fevereiro de 2026
Quarta a segunda, das 10h às 18h
(sábados, até às 21h)
Artigo publicado em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian









