Arturo Pérez-Reverte
O Problema Final
“Reivindicar a investigação criminal inteligente perante a moda imposta pelo cinema americano e o romance negro” é a intenção do mais recente romance de Arturo Pérez-Reverte. Em junho de 1960, Hopalong Basil, um refinado ator do cinema clássico famoso por interpretar a figura de Sherlock Holmes (homenagem a Basil Rathbone), encontra-se temporariamente isolado do mundo em um hotel de uma pequena ilha paradisíaca ao largo de Corfu, devido ao mau tempo, cercado por oito hóspedes, três empregados e uma proprietária. Quando uma série de crimes ocorre, ele decide usar as habilidades dedutivas que adquiriu através de suas numerosas leituras da obra de Conan Doyle e dos filmes que protagonizou para resolver o mistério. O Problema Final é uma obra escrita com a astúcia de quem compreende que “o duelo num romance policial não é entre o assassino e o detetive, mas sim entre o autor e o leitor” e que “a verdadeira arte do narrador policial (…) não consiste em contar uma história, mas sim em fazer com que o leitor, enganado ou não, a conte a si mesmo”. É também uma fascinante reflexão sobre a relação entre o real e o imaginário, onde o protagonista “aplica a ficção para iluminar a realidade”. LAE ASA
Fernanda Melchor
Isto não é Miami
Uma criança observa um objeto brilhante na noite escura e acredita tratar-se de um OVNI, mas na verdade é apenas mais uma avioneta carregada de cocaína. Um grupo de clandestinos desesperados chega a Veracruz, pensando que se trata da sonhada Miami. Um estudante brilha em seu curso de Direito, mas não tem influências suficientes para conseguir um bom emprego. Seduzidas pelo dinheiro, uma idosa e sua neta atuam como figurantes em um filme, mas não recebem nem a metade do que foi prometido. Todas as personagens deste livro veem seus sonhos destruídos pela aridez da realidade. Estes 12 textos, que a autora se recusa a classificar como ficção (“A única ficção que aceito reconhecer nestes relatos é aquela que permeia toda a construção da linguagem humana, desde a poesia às notas de rodapé: sua forma, sua estrutura narrativa”), favorecem o “testemunho” e o “relato dramático e oral”. Histórias profundamente enraizadas na realidade, que “só puderam nascer neste lugar” (Veracruz, cidade natal da autora), que compõem o relato de uma sociedade confrontada com a violência e a brutalidade do mal: corrupção, narcotráfico, assassinato, miséria, desumanização. As narrativas evocam, literalmente, a velha canção do filme de Pedro Infante: La vida no vale nada. LAE Elsinore

Victor Correia
História da Homossexualidade em Portugal
O objetivo deste livro inédito de Victor Correia, que não é historiador – licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e doutorado em Filosofia Política e Jurídica pela Universidade Sorbonne de Paris – é escrever “uma história” da homossexualidade que, por um lado, apresente os temas mais importantes, e por outro, faça isso “não de forma minuciosa, mas sim com aquilo que consideramos mais significativo”. Trata-se, ainda assim, de uma obra abrangente que apresenta uma visão temporal e temática vasta, estruturada em duas partes: a abordagem da homossexualidade em Portugal ao longo de oito séculos de história e um conjunto de anexos compostos por documentos antigos. Alguns desses documentos testemunham a perseguição e condenação de homossexuais em períodos como a Inquisição e o Estado Novo (“Papelada imunda, que impestava a cidade”: assim se refere Marcelo Caetano às obras de Raúl Leal, de António Botto e da “desavergonhada” Judith Teixeira). Um trabalho relevante que busca “tornar visível o que ficou escondido, ignorado, esquecido, colocado de lado na historiografia portuguesa”. LAE Âncora Editora
Chimamanda Ngozi Adichie
Inventário de sonhos
Após uma década, Chimamanda Ngozi Adichie apresenta Inventário de sonhos, seu livro mais introspectivo. O que significa ser humano? É em torno desta questão que o romance se desenrola. Ao longo de quase 600 páginas, a autora nos conta a história de quatro mulheres africanas que partem para os EUA em busca do “sonho americano”. Chiamaka, uma escritora nigeriana que, repleta de incertezas, sempre almejou a fama. Zikora, uma advogada de sucesso e melhor amiga de Chiamaka, abandona-se ao desespero após ser deixada pelo namorado ao revelar que está grávida. Omelogor, prima de Chia e figura influente na alta finança na Nigéria, dona de um humor nem sempre compreendido, tem um site chamado Só para homens, onde pede que eles lhe enviem seus problemas e oferece conselhos. Por fim, Kadiatou, a governanta de Chia, que após enfrentar inúmeras perdas, como a morte do pai, da irmã e do marido, se vê com uma filha bebê, a quem educa com perseverança, envolvida em uma situação complexa e dramática que pode arruinar tudo o que conquistou até então. Quatro mulheres em busca de um significado para suas vidas, em um livro que aborda temas como migração, maternidade, desejo e a necessidade de amor, em meio a uma pandemia. “Será a felicidade alcançável, ou é apenas um estado efêmero?” SS Dom Quixote

Alexandra Lucas Coelho
Gaza está em toda a parte
Desde 2002, durante a Segunda Intifada, Alexandra Lucas Coelho iniciou, como repórter, a cobertura regular da região do Médio Oriente onde se encontram Israel e a Palestina. Neste volume, a jornalista compila um conjunto extenso de crônicas publicadas após 7 de outubro de 2023, todas (exceto uma) no jornal Público. Como introdução, republica-se a reportagem Gaza à beira de explodir, publicada na Visão História, em julho de 2017, após a última visita de Lucas Coelho à Faixa de Gaza, um território com “apenas 40 quilômetros por 6 a 10 de largura, abrigando dois milhões de palestinos”, porque, como a autora destaca, “do título à última linha, parecia a véspera do 7 de outubro”. Além das crônicas, Gaza está em toda a parte inclui reportagens realizadas entre o final de 2023 e o início de 2024 na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e em Israel, junto com mais de trezentas fotografias que Lucas Coelho capturou, tanto em Gaza durante a última visita quanto no contexto das reportagens pós-7 de outubro. Para além do testemunho histórico, este livro, cujo título deriva de um conjunto de textos do filósofo judeu Günther Anders intitulado Hiroshima está em toda a parte, traz uma reflexão angustiante sobre esta grande tragédia do nosso tempo. FB Caminho
Hugo Gonçalves
Filho do pai
“O pai que salva também é o pai que condena. Qual deles iria encontrar, mais de quarenta anos depois, os dois últimos sem falar com ele, ao chegar à casa onde cresci?”. Após Filho da mãe, Hugo Gonçalves encerra o díptico do luto com Filho do pai. Um relato honesto e tocante sobre a relação entre pai e filho, onde o autor nos conduz em uma jornada desde sua infância, marcada pela morte da mãe, passando pela adolescência cúmplice com o irmão e a formação de uma nova família com o segundo casamento do pai. O relato acompanha sua vida adulta, momento em que Hugo se prepara para ser pai pela primeira vez e toma consciência de que não será pai e filho ao mesmo tempo. “Uma família é um ser vivo em constante mutação e, quando somos pequenos, não percebemos que nossos pais, aos quarenta anos, são pessoas diferentes do que eram aos trinta. Fui criado por um homem que era muitos homens, e ninguém, como ele, foi tão decisivo na formação da minha personalidade, por sua presença dominante, por sua ausência prolongada, porque imitei quem ele era, porque recusei quem ele era.” Um livro comovente e, ao mesmo tempo, desconfortável, que questiona os modelos tradicionais de masculinidade. SS Companhia das Letras
Noam Chomsky
Sobre o Anarquismo
O linguista, filósofo e ativista político Noam Chomsky aborda, neste ensaio, o anarquismo como uma tradição intelectual séria e uma possibilidade real, explorando suas raízes e sua continuidade como teoria política e socioeconômica. O autor concebe o anarquismo como um sinônimo de liberdade e de constante questionamento das estruturas de poder, fundamentado na ação coletiva. Desde Proudhon e Bakunin até o movimento Occupy, um testemunho vivo e em evolução, uma alternativa real cujo legado é analisado. Nathan Schneider, jornalista, autor e professor da Universidade de Colorado Boulder, nos EUA, escreve no prefácio desta edição: “Noam Chomsky desempenha o papel de embaixador de um tipo de anarquismo que se supunha ter sido esquecido – aquele que tem uma história e que a conhece, que já demonstrou que outro mundo é possível. (…) representa um tempo em que os anarquistas eram realmente temíveis – não por estarem dispostos a atirar uma pedra na vitrine do Starbucks, mas por haverem descoberto como se organizar em uma sociedade funcional, igualitária e suficientemente produtiva.” LAE Antígona

J. D. Salinger
Carpinteiros, Levantai Alto a Cumeeira e Seymour: Uma Introdução
Salinger conquistou a fama com a publicação de sua única novela, The Catcher in the Rye, em 1951. O relato da deambulação de Holden Caulfield pela cidade de Nova Iorque, escrito em uma linguagem coloquial cheia de frescor, utilizando o calão, tornou-se um marco da literatura do pós-guerra. Estes dois contos, menos conhecidos, descrevem acontecimentos significativos na vida dos sete irmãos da família Glass. Ambas as histórias são narradas por Buddy, o segundo mais velho. Carpinteiros, Levantai Alto a Cumeeira relata um incidente ocorrido no dia do casamento de Seymour, dentro de um táxi, entre a madrinha e o marido, revelando como as pessoas comuns percebem a família Glass e a excentricidade do irmão mais velho. Seymour: Uma Introdução é uma pungente oração fúnebre. Evocando a morte de Seymour, oferece um olhar melancólico sobre a forma impiedosa como os seres diferentes e inadaptados são tratados em uma sociedade rígida e conformista. Essas duas narrativas são publicadas na nova tradução de José Lima. LAE Relógio D’Água













