Paixão e infidelidade na Praça Central

Paixão e infidelidade na Praça Central


Há mais de 30 anos, no Teatro do Bairro Alto, assistiu-se a uma produção francesa de La Place Royale, encenada por Brigitte Jaques para o Théatre de la Commune. O então estudante Jorge Cramez ficou “impactado”. “Apaixonei-me imediatamente pela peça, que desconhecia por completo”, recorda. O texto de Pierre Corneille, escrito no século XVII, apresentava personagens que o faziam ver o mundo ao seu redor, refletindo o seu universo afetivo de amigos e conhecidos. Aqueles jovens adultos de há 300 anos faziam-lhe reconhecer que vivíamos amorosamente da mesma maneira, enfrentando dilemas semelhantes, como o medo do casamento ou as infidelidades.

No contexto de “uma intriga inverosímil, com excessos, mas à qual aderimos de imediato”, Corneille narra a história de amor entre a bela Angélique (Carolina Campanela) e o sedutor Alidor (Francisco Vistas). Em um impulso desmedido, pois vê o amor como um empecilho à sua liberdade, o jovem “apaixonado extravagante” abdica de Angélique, planejando “libertar” seu próprio coração por meio de um plano algo insensato: forjando uma carta de amor falsa destinada a outra mulher, Alidor busca ser rejeitado, permitindo que seu melhor amigo, Cléandre (Jaime Beata), conquiste o coração da bela amante. No entanto, apesar do desejo de Cléandre por Angélique, ela não parece disposta a corresponder a esse amor, criando uma grande confusão, e a jovem acaba influenciada pela sua melhor amiga, Phylis (Carolina Serrão).

Sabendo que seu irmão Doraste (Eduardo Frazão) também é um apaixonado por Angélique, Phylis convence a amiga a aceitar o pedido de casamento do irmão. Percebendo que seu plano falhou, Alidor, com a ajuda de Cléandre, trama o rapto de Angélique na noite do noivado dela com Doraste, que acontece na Praça Real.

Até o fim, um carrossel de equívocos e enganos proporciona novas descobertas e paixões, resultando em um quase desfecho feliz para todos os personagens. Contudo, Corneille já sabia, assim como nós, que quando o amor assusta e machuca, nem sempre termina dessa forma.

Sem desvirtuar o sentido do texto de Corneille, para esta produção, Cramez trabalha uma tradução inédita de Luís Lima Barreto e Fátima Ferreira. “É muito difícil, pois a peça foi escrita em verso alexandrino, tornando uma tradução literal inadequada para os dias de hoje”, observa o encenador, que já dirigiu, em 2017, um longa-metragem inspirado nesta obra.

No filme Amor Amor, escrito por Cramez, em coautoria com Edmundo Cordeiro e Tiago Salinas do Carmo Vaz, o texto se passa na Lisboa contemporânea. Nesta versão para o teatro, o diretor ambienta toda a ação em uma pequena praça de estilo lisboeta, evocando a Praça Real, onde os labirintos do amor se desenrolam, mesclando o tempo antigo, principalmente pela palavra, com a modernidade refletida nos figurinos e na trilha sonora que aparece periodicamente ao fundo.

Em sua segunda experiência no teatro – após ter encenado, a convite do ator Eduardo Frazão, O Princípio de Arquimedes, de Josep Maria Miró, em 2022 – Cramez diz que está agora explorando “com muito mais seriedade” a magia do palco. “Assim como no cinema, o que mais gosto é trabalhar com os atores”, confessa. Ao falar sobre o teatro, não resiste em traçar um paralelo com a realização de um filme: “é como dirigir um plano-sequência”.

Em O Apaixonado Extravagante, o encenador busca dar, essencialmente por meio das marcações dos atores nas suas entradas e saídas de cena, “um lado mais cinematográfico” ao espetáculo. Isso se reflete também nos blackouts, que funcionam “como um fotograma a negro”, e, quando a cena é restabelecida, traz as personagens já “em movimento”. Ou seja, “funcionam como um corte no cinema, proporcionando uma sensação de continuidade no tempo do teatro”.

Ao completar um ciclo de décadas de envolvimento com a peça de Corneille e suas questões centrais – “a oposição entre o amor e a liberdade, ou entre a vontade e a paixão” – Cramez oferece em O Apaixonado Extravagante um reencontro ou uma nova descoberta de um texto fundamental na dramaturgia francófona. Embora seja cômica, muitas vezes leve e divertida, a peça toma, no último ato, “um intrigante e cruel rumo perverso”. O medo do amor conduz a um desfecho incomum para uma comédia, pois nos minutos finais, os protagonistas enfrentam destinos bem distantes do idealizado final feliz.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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