O Brasil tem muito a oferecer a outros países no que diz respeito ao combate ao racismo, abordando a questão sob uma luz mais construtiva. Essa visão é compartilhada pela professora, pesquisadora e curadora brasileira Milena Britto, que é uma das principais responsáveis pela criação da exposição Complexo Brasil. Essa mostra procura destacar a importância das culturas negra e indígena na sociedade brasileira durante toda a sua trajetória expositiva.
O convite para curar a exposição partiu de José Wisnik, curador na Fundação Calouste Gulbenkian, amigo de Milena há mais de duas décadas e admirador de seu trabalho em estabelecer as relações e contribuições de todas as culturas brasileiras, em especial as que, segundo a curadora, “permaneçam invisíveis”.
“São culturas que sempre estiveram latentes na sociedade brasileira, mas que por questões de escolhas, muitas delas orientadas pelo racismo, ainda teimam ser apagadas”, explica a pesquisadora.
O primeiro grande desafio de Milena para dar visibilidade a essas culturas ocorreu no Brasil, durante os dois anos em que foi curadora da Flip, o Festival Literário Internacional de Paraty, o maior do país. “Um evento que estava muito preso ao cânone, engessado no eixo Rio-São Paulo, sem a presença de autores nordestinos, negros e indígenas”, conta.
A Complexo Brasil representa um avanço nesse percurso, não apenas por expandir o campo da literatura para outras expressões artísticas, mas por acontecer em Portugal.
“O convite foi especial pois é a primeira vez que trago um trabalho para um país que foi colonizador do Brasil. Nesse ponto, mereceu mais atenção, pois a ideia não era apontar o dedo, mas gerar uma reflexão.”
Essa reflexão deve permear toda a exposição, do início ao fim, e destaca a relevância do trabalho de Milena, que busca garantir que as culturas negras e indígenas não sejam relegadas a uma esfera específica, mas que permeiem todas as manifestações artísticas, assim como acontece na sociedade brasileira.
“O Brasil pode ensinar muito a outros países sobre racismo, mostrando como a presença negra e indígena não é menor, mas parte de uma tecnologia de vida, que pode ensinar a convivência e a construção de relações culturais fortes, sem que o passado dite constantemente as regras.”
Embranquecer o Brasil?
Milena trouxe para a exposição dados históricos sobre a tentativa falha de embranquecimento. “O Brasil não estava imune às correntes cientificistas da época e a tentativa de embranquecimento é um exemplo claro disso, já que tratava-se de um país miscigenado com três culturas centrais no debate sobre a construção da ideia de uma nação em formação”, explica a pesquisadora.
Ela relata que para setores da sociedade colonial brasileira, o embranquecimento parecia a “solução mais festejada” por valorizar a cultura branca, convertendo um país com raízes indígenas e africanas em uma civilização “perfeita através da assimilação” da pele branca.
A exposição inclui uma sequência de quatro obras, começando com Redenção de Cam, de Modesto Brocos, que Milena utilizou para ilustrar essa tentativa. Pintada em 1895, poucos anos após a abolição da escravatura em 1888, o quadro simboliza o embranquecimento, ao apresentar a avó negra ao lado da mãe mulata e do filho branco no colo, junto ao marido europeu. As sutilezas da obra incluem a avó negra de braços erguidos, como em prece, agradecendo pela redenção do título, enquanto a mesma mulher pisa em um chão de terra batida, ao passo que a mãe e o filho estão sobre um piso de pedras, onde o europeu se encontra sentado.
A sequência continua com obras de Carlos Vergara (Poder, de 1972), o Retrato de Família de Chichico Alckmin (1910), e a belíssima fotografia de Rogério Reis, Na Lona, que retrata uma mulher negra trans no Carnaval do Rio de Janeiro em 1986, simbolizando a inversão do processo de embranquecimento da nação.
“Esse projeto de embranquecimento não deu certo e falha por uma característica única do Brasil: a capacidade de resistência, a não aceitação de uma ordem estabelecida e o respeito pela potência das culturas negras e indígenas que se manifestam no país até hoje, desde o futebol até o Carnaval e às questões da Amazônia.”
Vestir branco e pular sete ondas
Uma das influências na cultura brasileira que ainda é pouco compreendida por portugueses e europeus é a presença das religiões de matrizes africanas, como o candomblé e a umbanda, vulgarmente associadas à macumba como “feitiço”. Essas religiões foram trazidas pelos escravos africanos, mas atualmente estão banalizadas.
“A força da religião de matriz africana no Brasil vem da resistência e sobrevivência, pois durante anos manteve a comunidade africana unida e forte. O terreiro era um espaço de cuidado, proteção, pertencimento e autonomia, evitando que o branco subjugasse completamente o negro, e assim sempre ligado à ideia de soberania”, destaca Milena.
A partir daí, a assimilação dos costumes das religiões africanas pelo brasileiro se refletiu em atividades cotidianas, como o uso de roupas brancas ou o ato de pular sete ondas no mar durante a passagem do ano para atrair boa sorte, além de expressões como “meu santo não bateu com o dele”, no sentido de não se dar bem com alguém.
“As religiões de matrizes africanas não escolhem cores nem gêneros, mantendo uma forte relação com a terra e os elementos naturais. O ritual da macumba, por exemplo, valoriza a realização de desejos que devem ser comunicados ao universo para se concretizarem”, explica.
Ao contrário de outras religiões, nas matrizes africanas não existe a noção de “pecado”, mas a responsabilidade por suas ações. “No candomblé, não há a ideia de bem e mal, mas um convite a cada um a cumprir suas responsabilidades, para que assim o orixá possa abrir caminhos”, afirma.
A exposição Complexo Brasil apresenta esculturas do artista baiano Rubem Valentim, que consistem em totens relacionados aos “orixás” e ao candomblé. Uma sequência de quadros vibrantes faz referência à simbologia dos orixás, estabelecendo uma ligação estética com a geometria do modernismo brasileiro.
“Isso demonstra que, ao contrário do movimento modernista europeu, os artistas brasileiros já conviviam tanto com a cultura africana quanto com a indígena.”
A força da violência e da vida
Uma das obras mais impactantes é a sequência de cabeças negras decapitadas ao pé de uma bancada de trabalho de uma oficina, intitulada Delírios de Catharina (2017), de Caetano Dias.
“Essa relação do período colonial com a exploração do corpo negro como ferramenta econômica de produção cria lugares muito marginalizados na sociedade. Essa obra destaca que a colonização não foi um movimento que gerou riqueza e que a contribuição portuguesa no Brasil foi, sobretudo, marcada pela violência”, explica Milena.
A associação dessa obra com outras na exposição, nas quais a cultura negra é valorizada e celebrada, invoca uma reflexão de que essa mesma colonização também originou uma “resistência” manifestada em vários movimentos que desafiavam o status quo, como o cangaço no Nordeste brasileiro, representado pela poderosa fotografia da cabeça decepada de Lampião e seu bando.
Na visão da curadora, raízes baseadas em uma violência “muito crua” podem, de certa forma, proporcionar um espaço onde o brasileiro se “recolhe para se fortalecer” e enfrentar novas visões sobre o que é o Brasil.
Essa ideia é representada nas pinturas de Gê Viana, que subvertem as obras do francês Jean-Baptiste Debret, convertendo cenas de martírio de escravos em festivos cenários, assim como as telas em azul intenso que celebram a vida das pessoas negras, valorizando suas simbologias e contribuições.
A capacidade de assimilar diferentes culturas e reinterpretá-las artisticamente de maneira positiva é um dos pontos altos da Complexo Brasil, que a curadora gostaria que os visitantes adoçõessem. “A intenção é que tanto portugueses quanto brasileiros abandonem a mítica ideia de um Brasil festivo, do Carnaval, e achando que tudo está resolvido”, afirma.
Para Milena, o Brasil também é isso, mas a exposição convida a perceber que os brasileiros continuam lutando dia após dia, formando uma identidade que não se limita a ser reconhecida apenas como um país explorado que deve tudo ao colonizador. “Trata-se de entender que a história é, ao mesmo tempo, violenta e potente na preservação da vida”, conclui.
Artigo publicado em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian









