Três anos depois do conflito, ucranianos se reinvencionar e constroem novos futuros distantes das antigas profissões

Maíra Streit

A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, deu origem à mais significativa crise de deslocamento populacional desde a Segunda Guerra Mundial. Mais de seis milhões de ucranianos foram forçados a deixar suas casas, conforme os dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e muitos deles se espalharam por toda a Europa.

Em Portugal, aproximadamente 60 mil ucranianos encontraram abrigo, tornando-se a maior comunidade de refugiados no país. Após três anos aguardando um desfecho para o conflito, muitos continuam a tentar recomeçar suas vidas e, sempre que possível, buscar um novo sentido de normalidade.

Entre as lembranças do que foi perdido e as incertezas do futuro, o trabalho se torna uma fonte de segurança, não apenas para garantir a subsistência, mas também para promover um senso de pertencimento e a chance de alimentar novos sonhos.

Porém, esse novo começo traz diversos desafios. A barreira linguística é um dos primeiros obstáculos, ampliado pela dificuldade em conseguir o reconhecimento de diplomas e qualificações obtidas em seu país de origem, o que restringe o acesso a melhores salários e a áreas que condizem com suas formações.

Novos caminhos

A adaptação ao mercado de trabalho português exige resiliência e constante reinvenção, como demonstram as experiências de Viktoriia Stovbun, que atuava como recepcionista de hotel na Ucrânia. Em Portugal, devido à barreira da língua, ela continuou no setor hoteleiro, mas na área de limpeza, longe do contato direto com o público.

No entanto, o que parecia uma boa oportunidade evoluiu para um cenário de exploração. “Uma única pessoa tinha que limpar um número irreal de quartos e a maioria dos trabalhadores não aguentava. Não tinha escolha e, durante anos, enfrentei o cansaço, as dores e as lágrimas”, recorda.

Após um período desgastante, decidiu atuar por conta própria, oferecendo serviços de limpeza para diferentes clientes e conquistando a liberdade que tanto desejava. Com o título de residência obtido, adquiriu um carro, fez um curso de life coaching e assegura que nunca deixará de estudar. Agora, também pode desfrutar do sol, do calor e das belas paisagens que, segundo ela, a encantaram em Portugal desde o início.

Hobby virou profissão

Outra pessoa que precisou redefinir sua carreira foi Ganna Gavriushyna, que chegou há três anos com seu filho. Com um mestrado em tratamento térmico de metais, anteriormente trabalhava como engenheira em uma empresa de gás. “Foi difícil encontrar trabalho na minha área devido à língua e ao não reconhecimento dos documentos”, desabafa, uma experiência comum a milhares de estrangeiros em busca de reintegração profissional.

A solução que encontrou foi revisitar um hobby antigo, a massagem, que se tornou sua principal fonte de renda. Regularizou sua situação no país, fez cursos de qualificação e viu no empreendedorismo uma alternativa viável. Agora, atende clientes em casa, trabalha de forma independente e, pouco a pouco, está superando os obstáculos para recuperar a confiança e investir em um futuro mais seguro.

Apoio para recomeçar

Desde que a invasão da Rússia começou, Portugal se tornou um destino para muitos ucranianos, exigindo do governo medidas que respondessem às necessidades desses novos cidadãos. Desde o início, foi concedida a proteção temporária prevista pela União Europeia para situações de emergência humanitária, que oferece direitos imediatos, incluindo residência legal, benefícios sociais, emissão de documentos e acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Uma das iniciativas para facilitar a integração foi a plataforma Portugal for Ukraine, que inclui o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Entre outros serviços, o site disponibiliza vagas de trabalho, possibilita a inscrição em centros de emprego, encaminha para cursos de português e fornece informações para empregadores interessados em contratar refugiados.

Um relatório preliminar da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), divulgado em abril deste ano, indicou que 61.648 cidadãos ucranianos entraram em Portugal após o início da guerra, sob o regime de proteção temporária.

Até o início de 2023, eram cerca de 57 mil, segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Entre eles, 33.386 eram mulheres e 23.733, homens. Os maiores registros ocorreram nos concelhos de Lisboa (12.341), Cascais (3.562), Porto (2.906), Sintra (1.927) e Albufeira (1.414). Mais de 14 mil — aproximadamente um quarto do total — eram menores de 18 anos.

Burocracia e espera

Para Pavlo Sandokan, presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, seus conterrâneos têm se integrado bem na cultura portuguesa, sem perder de vista suas próprias tradições, que costumam manter vivas em eventos e festividades. Essa é também uma forma de transmitir às novas gerações os costumes, a história e a identidade de seu povo.

No entanto, em relação ao mercado de trabalho, ele acredita que a burocracia em torno das ordens profissionais, como a medicina, é um dos maiores entraves para a inclusão dos estrangeiros.

O tempo de espera e as exigências nos processos de validação fazem com que muitos ucranianos permaneçam desempregados, sem que suas competências sejam reconhecidas, mesmo em áreas com carência de mão-de-obra. “É muito difícil ultrapassar esse obstáculo”, afirma.

A percepção de Pavlo é corroborada por estatísticas. Um levantamento divulgado em 2023 pela Pordata, a base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos, mostra que mais de 1 em cada 3 estrangeiros em Portugal tem um contrato de trabalho temporário, em comparação a 16% dos cidadãos nacionais.

Portugal ocupa a quarta posição entre 21 países europeus analisados, em termos de precariedade laboral entre estrangeiros, ficando atrás apenas da Croácia, Países Baixos e Polônia. Adicionalmente, 31% dos estrangeiros residentes em Portugal estão em situação de pobreza ou exclusão social, 11 pontos percentuais acima da média da população nacional.

Persistência no dia a dia

Quem vivencia essa realidade de perto é Iryna Grechanyuk. Natural de Khmelnytskyi, na Ucrânia, está em Portugal há 25 anos. Atualmente, sente-se bem adaptada, mas nem sempre foi assim. Formada em engenharia química, trabalhava como microbiologista em uma fábrica de vinho. Ao tentar uma nova vida, a continuidade na mesma profissão não se mostrou viável.

Ela conseguiu empregos como empregada doméstica, enquanto seu marido trabalhava em obras, mas, devido ao desconhecimento do idioma, frequentemente era enganado nos pagamentos. Depois de algum tempo, o casal montou um pequeno café próximo ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Eu nem sabia a diferença entre um café bom e um café ruim. Na minha terra, o costume é beber mais chá”, confessa, sorrindo.

Com paciência e desejo de aprender, o negócio prosperou e decidiram investir em um espaço maior. Hoje, a família é proprietária da tradicional pastelaria Colmeia, que existe desde 1954 em São Domingos de Benfica. Trabalham no local o casal, os filhos, o genro, além de outros colaboradores. “É preciso ter coragem e não temer o recomeço. Mesmo que não dê certo, é sempre uma grande experiência. Se as pessoas não arriscam, nada conseguem”, aconselha.

Iryna acompanha, à distância, as notícias da guerra e não consegue esconder a preocupação com aqueles que ficaram. Seus pais, que estavam em Portugal, decidiram não voltar quando o conflito começou, mas nem todos tiveram a mesma sorte. “Foi um choque. Ninguém estava preparado. Nas primeiras semanas, eu mal conseguia dormir. Temos amigos e familiares naquela região. Irmãos, tios, sobrinhos. É horrível”, lamenta.

Hoje, a cada bolo que sai do forno e a cada chávena servida com cuidado, Iryna mantém um gesto silencioso de resistência contra o caos que afeta seu país. Ela segue tentando construir uma rotina, descobrindo a força de se reerguer dia após dia no local que a acolheu e onde agora escreve sua própria história.

Contactos Úteis:
Associação dos Ucranianos em Portugal
https://www.spilka.pt/index.php/em-portugues/quem-somos
ucranianosemportugal@gmail.com
Conselho Português Para os Refugiados (CPR)
https://cpr.pt
geral@cpr.pt
(+351) 21 831 43 72
JRS Portugal: Serviço Jesuíta aos Refugiados
www.jrsportugal.pt
jrsportugal@jrs.net
(+351) 21 755 27 90
(+351) 937 541 620
Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR)
https://pacnur.org/pt
geral@pacnur.org
(+351) 308 800 382
Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA)
https://aima.gov.pt
geral@aima.gov.pt
(+351) 217 115 000
Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP)
www.iefp.pt
(+351) 21 580 35 55


Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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