Iniciaremos com a explicação do título da obra. PONS VAROLII é a parte mais antiga do cérebro humano e de muitos outros mamíferos, estabelecendo a ligação entre o cerebelo e a medula espinhal. Esta estrutura é crucial para o instinto de sobrevivência, incluindo necessidades básicas como fome e sede, além de funções vitais como a respiração e batimentos cardíacos. Na composição de Simão Costa, que terá sua estreia absoluta no Teatro São Luiz nos dias 18 e 19 de julho, a ideia de conexão se manifesta de várias maneiras. O pianista e compositor criou partituras a partir de gravações do som produzido pelos automóveis sobre a ponte 25 de Abril e, neste concerto, se une à Orquestra Metropolitana de Lisboa e a um filme de Mário Melo Costa, que retrata um objeto em constante vibração. “Explora-se a ecologia acústica desta ponte, os sons que as cidades interligadas por ela recebem, frequentemente vistos de forma negativa, reinterpretando-os para apreciar a escuta daquilo que nos envolve,” explica Simão Costa.
Simão revela que seu fascínio pelo som da ponte remonta à adolescência, quando costumava passar de bicicleta por ali. Coincidentemente, a sede da Orquestra Metropolitana de Lisboa está localizada sob aqueles pilares. “Há um diálogo muito intricado e feliz entre a música e o som.” Na obra PONS VAROLII, encontramos “sons gravados da ponte e outras derivações mais poéticas”, mas é sobretudo a ideia de pontes que o atrai. “Criar uma peça sobre pontes ganha relevância atualmente, um tempo em que estamos bastante divididos e onde construir pontes torna-se essencial. A ponte 25 de Abril conecta as duas margens do rio, antigamente vistas como intransponíveis. Sempre existem barreiras que consideramos intransponíveis, mas não são. Esta obra aborda isso, acima de tudo.” A ponte entre margens, mas também a ponte entre a música e a orquestra – “que hoje foca um repertório com mais de 100 anos, criando uma ponte com a música contemporânea,” ressalta.
O piano, segundo Simão Costa, “atua como um altifalante”. “Terei um piano expandido, além de suas capacidades originais e físicas, com dispositivos eletromagnéticos como ímãs e motores. Nesse sentido, discutimos uma ponte entre o passado e o futuro. Sempre é possível construir uma ponte rumo ao futuro.”
Uma última ponte revelada nesta obra é que PONS VAROLII é estruturada em dez quadros de quatro minutos e 33 segundos cada um, uma referência à composição 4’33” de John Cage, que consiste neste tempo exato de silêncio. “Faço uma homenagem a Cage, pois a escuta é muito importante. Escutar é ouvir com mais do que apenas os ouvidos; é foco e atenção. Todos os sons podem ser música. A música é um fenômeno hiper contextual. Cage postula que a maneira como prestamos atenção a um evento determina se é música ou não, e nos lembra que a atenção que damos às coisas as transforma.” Por isso, ele convida todos a comparecer ao São Luiz e testemunhar como o som de uma ponte pode ser música para nossos ouvidos. Nos outros dias da semana, há quatro sugestões para escolher.
Visita ao MAAT
De quarta a segunda-feira, das 10h às 19h.
“O MAAT é um museu em Lisboa que, pela sua natureza e foco nas relações entre arte e tecnologia, me é próximo. Gosto de acompanhar a programação, mas ainda não conheci essas exposições atuais. Costumo pedalar ao longo do rio e é fácil planejar uma visita ao MAAT ou improvisar uma parada no museu,” comenta o pianista e compositor. Neste período, cinco exposições merecem uma visita: from here to ear, de Céleste Boursier-Mougenot; Terra Poética, de Anna Maria Maiolino; A ilha púrpura: notas e paisagens, de Manuel João Vieira; Mais Alto, de Margarida Correia; o Turn around. Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP e A Carpintaria da Central Tejo, 1936-2013. Luz em toda a parte III.
Jazz na Esplanada
Concerto na Casa Fernando Pessoa, a 16 de julho, às 19h.
Mais uma vez, em julho, as tardes na esplanada do restaurante da Casa Fernando Pessoa são embutidas em jazz. Todas as quintas-feiras, há concertos ao ar livre com músicos do Hot Clube de Portugal, sob curadoria de Bruno Santos. Nesta semana, ouviremos a voz de Sara Catalão e o piano de Francisca González, um duo de jazz contemporâneo que propõe a fusão entre tradição e vanguarda “por meio de reinterpretações e arranjos originais”. Para Simão Costa, é uma boa sugestão. “Sou um apreciador de jazz. Houve um tempo em que estava muito atraído pela ideia de tocar jazz, mas depois percebi que isso não era necessário [risos]. Gosto muito do jazz português, que possui várias gerações executando em alto nível. A maior parte da música que ouço é ao vivo. Gosto de ver a música acontecer, o músico tocando, a conexão. Isso me atrai muito, o gesto.”
A Luz que Ficou – Um retrato íntimo do São Luiz, de Estelle Valente
No Teatro São Luiz, visita guiada a 18 de julho, às 11h.
Simão Costa é fã do trabalho de Estelle Valente, a fotógrafa que, ao longo de uma década, capturou espetáculos, bastidores e pessoas que passaram pelo Teatro São Luiz. Esta exposição – apresentada como “uma celebração da cumplicidade entre a fotografia e o Teatro” – entra na sua última semana, mas ainda haverá uma visita guiada neste sábado para explorar os bastidores do Teatro e visualizar todas as imagens. “Estelle Valente consegue captar a essência, digamos assim… Ela faz fotografias que são muito sincrônicas com o espírito dos projetos que fotografa. Isso demonstra uma sensibilidade admirável, seja na escolha das cores ou na granulação das imagens. Ela é excelente em observar os detalhes, mantendo uma visão mais ampla. As artes performativas têm a característica de serem efêmeras, e este trabalho de fotografia de cena apresenta uma espécie de extensão no tempo.”
Passeio a pé junto ao rio
Seja a trabalho ou a lazer, o rio Tejo faz parte da rotina de Simão Costa. Portanto, é quase inevitável essa sugestão, apresentada por quem atravessa a ponte diariamente e tem o hábito de percorrer suas margens a pé e de bicicleta. “Temos um rio absolutamente incrível, com uma luz deslumbrante. Recomendo uma viagem de cacilheiro para o Ginjal para apreciar o pôr do sol…” Quanto aos seus locais preferidos, do lado de cá, ele destaca três: “Aquela reentrância junto à Fundação Champalimaud, que possui uma micropraia e onde começa depois o paredão, é um dos meus lugares favoritos. Também gosto de estar, claro, sob a ponte 25 de Abril, e o Cais do Sodré continua a ter algo de muito especial.”








