Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.
Então, Ana Bárbara Pedrosa, chegado a Maputo, dei por mim a cantar o hino dos gémeos: Maaaaria Pedrooosa, Daaavid Pedrooosa! E fiquei com o coração encantado, mais encantado do que estive ao vê-los, pois só aqui percebi que Lisboa já não é a mesma coisa desde que esses bebés habitam a cidade. Deram-me baila na Av. Liberdade: o David pôs-se a ensaiar protestos a sério e a Maria procurava transpor os muros da incongruência. Como é que, na calçada, pode haver gradeamento de territórios?
Não fui comer o hambúrguer com bacon da multinacional, isso é verdade. Nem é por protesto, nem por acto cívico, nem por qualquer coisa anticapitalista. Fui atraído pelos kebabs no Martim Moniz. Disse-te que o lugar de Lisboa de que mais gosto é ali, naquela zona? Ali onde se falam mil e um idiomas do Sul da Ásia, da África Ocidental e Oriental — e também do Sul. Estava lá eu, num contraste absoluto com os idiomas do Norte Global. A língua portuguesa? É ali um território à parte.
É a Lisboa plural, multicultural, eurofuturista em paralelo com o afrofuturismo que se propaga. Gosto de sentir os cheiros penetrantes dos temperos, a mistura natural das coisas: o trigo, a alface, o pepino, a cenoura, o limão, o tomate, a cebola, a carne moída, a batata. E as especiarias da perdição — que o diga Vasco da Gama e companhia. O Portugal do passado foi à procura das Índias, chegou ao Golfo da Guiné e à África Austral. O Portugal de hoje não precisa de ir tão longe. Quem quer descobrir o mundo que vá ao Martim Moniz, essa Lisboa que espanta, quebra fronteiras e é palco da multiculturalidade.
Eu, que venho de um Moçambique onde gravitam nas ruas mais de 25 idiomas nacionais, sinto que cheguei, finalmente, a um lugar onde tudo faz sentido: a humanidade faz-se na escuta do estranho.
Se serve de consolo para uma cidade sufocada pelo turismo do tal Norte Global — que é bem-vindo em qualquer lugar —, o Martim Moniz deve ser dos poucos espaços na cidade em que não estamos metidos no espectáculo da extracção turística, em que não somos modelos para poses de fotografias de viajantes. Confesso que me custa ver uma cidade onde os principais espaços comuns viraram uma montra; onde os transeuntes se olham com a intenção de extrair alguma coisa e todos têm de acenar para câmaras de smartphones. Custa-me estar numa cidade onde não se sabe em que língua falar, onde o sentido de local ficou viciado ou corroído pela globalização efusiva.
Sobre o ir para ficar de vez, vou contar-te como vi as coisas acontecerem no meu bairro, onde os homens que carregam o peso de «chefes» de família são capazes de tudo — até de partir para ficar de vez. Que uma mãe se vá é um crime capital. Que um pai se vá é o que se espera. Uma mãe ficar com os filhos é destino; agora, um pai que os faz e depois parte é apenas a vida a fazer uma curva existencial. Vocês chamariam a isso paternidade irresponsável. Vi isso num jornal português, sobre pais que não cuidam dos filhos, pais ausentes. Nós chamamos a isso «acreditar».
Não fazes ideia de quantas crianças cresceram sem pai no meu bairro, e nós, entre conversas, a ouvirmos os adultos dizerem que o senhor fulano «acreditou na África do Sul» — aku kholwa a Djoni. Claro que isso faz sentido na língua do bairro e não tem uma tradução linear na nossa língua comum. Vou usar os truques de escritor para destrinçar a carga semântica changana.
Os homens acreditavam que a África do Sul era a terra onde a descoberta do ouro e de outros minerais iria enriquecer famílias, bairros, cidades e províncias. Por isso, quase todos tinham o destino traçado nas minas de Joanesburgo (Djoni). Esses homens, no entanto, não deixavam de ter uma vida em Moçambique, apesar de passarem 330 dias do outro lado da fronteira.
Faziam o lobolo, o matrimónio tradicional, que podemos resumir assim: o homem que pretende juntar-se a uma mulher para viver maritalmente recebe uma lista de requisitos para poder «levá-la», muitas vezes uma quantia em dinheiro, animais domésticos, roupas para pais, avós, tios, irmãos, bengalas, bebidas, etc. Cumprido esse requisito, numa negociação entre famílias, o homem fica com a mulher, ou seja, estão casados perante a lei dos homens e dos antepassados.
Os mineiros e outros trabalhadores na África do Sul eram a classe de homens com que quase todas as famílias projectavam o futuro das suas filhas. Lá no meu bairro, e em tantos outros de Maputo, Gaza e Inhambane, houve mulheres que foram loboladas e casaram assim, por uma promessa de boa vida, sem nunca terem visto o homem.
Os homens tinham emigrado, muitos sem tempo sequer para regressar. Alguns voltavam apenas para procriar; outros, para construir casas melhoradas para as suas famílias, regressando depois às minas. Findo um ciclo — que muitas vezes coincidia com uma tuberculose mortal ou com o HIV —, voltavam com uma mala na mão e alguns rands, para virem morrer na terra. Mas muitos jamais regressaram: ou porque trocaram as esposas do bairro por sul-africanas, ou porque acreditaram numa vida mais feliz na África do Sul.
Então, um homem que se vai de vez? Realmente é inconcebível. Ele só pode acreditar. Que mentes criativas, não é? Trocar um ir de vez por acreditar. Trocar uma fuga às responsabilidades pela ideia puritana da fé, bem-vindo ao patriarcado.
Mais intrigante ainda era ver aquelas mulheres a viver eternamente casadas e fiéis aos crentes ausentes. Os filhos viviam à espera de um telefonema e contavam os carros que entravam e saíam do bairro — os cross borders e os zolabades — que traziam os imigrantes da África do Sul, carregados de mobiliário, cebolas, batatas, leite em pó, Ricoffy e maionese: a materialização do sonho de Djoni.
Ao fim de dez anos, chegava a notícia de que o pai morrera, descartado, traído pela esposa sul-africana, que o entregara a bandidos para o assassinarem, ficando ela como única herdeira dos seus pertences. Os caixões irrompiam pelos quintais, trazendo um defunto completamente estranho, de tão remotas que eram as lembranças dos filhos sobre os pais que nunca viram ou que apenas estiveram nas suas mãos nos primeiros dias de vida.
Talvez tenhas razão: ir para ficar de vez revela que não se cogita o mundo à volta, ou que se julga natural partir sem amarras, como se o coração tivesse asas para voar num avião. Mas esse é o submundo de uma cidade onde muitos são errantes nas encruzilhadas das histórias mal contadas das suas vidas. Cada alma que caminha nas ruas de Maputo poderá contar-te uma história sobre quem partiu de vez — não para a eternidade, mas por ter acreditado num outro projecto de vida, numa outra terra.
Agora que te conto isto, ocorre-me que há sul-africanos a agredir e a saquear bens de moçambicanos, nigerianos, zimbabweanos, malawianos e outros africanos. Xenofobia de um povo que foi torturado pela segregação, privado da liberdade de pertencer a um lugar pelo regime de Pieter Botha. O mesmo que mandou bombardear a Matola e Maputo, que fez explodir uma bomba na Avenida Julius Nyerere, mesmo ali onde moraste, de frente para a Eduardo Mondlane, por acolher activistas e políticos do ANC que lutavam pela liberdade dos negros da África do Sul.
Já agora, os nossos cunhados — pois Graça, a viúva de Samora Machel, casou-se com Nelson Mandela. Nas nossas tradições, aqueles que se casam com as nossas irmãs devem-nos respeito e consideração. Mais ainda quando se trata da Graça, a quem só nos foi ensinado chamar Mamã. Mandela, ao casar com a nossa Mamã, tornou-se nosso papá — e cada sul-africano, nosso irmão. Mas será que uma mulher consegue unificar o que a história não conseguiu?
O que valem as mulheres num casamento? O que valem as mulheres num país onde a fúria fala mais alto que a razão? O que vale uma mulher numa terra onde o ódio foi ensinado desde o berço? O que valem a pobreza e as desigualdades sociais quando instrumentalizadas por políticos sem soluções que melhorem a vida das pessoas? De que vale tudo isto que te escrevo? Não sei. Não sei.
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