Perícia Literária de Pedro Mexia

Perícia Literária de Pedro Mexia


A sexta edição considera que o Festival Lisboa 5L já conquistou uma identidade própria?

O festival tinha uma identidade inicial que se relacionava com os seus cinco vetores – língua, literatura, livros, livrarias e leitura –, com a ligação à cidade de Lisboa e à figura de José Pinho. O José Pinho fez um grande trabalho no Fólio de Óbidos, onde imprimiu a sua marca. Desde então, como não possui o mesmo histórico dos outros, o festival tem experimentado modelos diferentes.

Aceitou ser o curador desta edição. Qual será o seu contributo?

Aprecio mais o termo “programador”, porque o programador tem um papel ativo e o curador é um termo que não compreendo tão bem. Este ano, o espaço de tempo entre o convite e a entrega da programação foi limitado. Devido a essa circunstância, houve menos disponibilidade de autores estrangeiros, cujas agendas são planejadas com um ano de antecedência. Portanto, para que o festival não ficasse enfraquecido, decidi reunir os meus escritores preferidos, aqueles cuja obra acompanho, representando várias gerações na poesia, no ensaio e na ficção. Também contaremos com a presença de historiadores e pessoas do teatro…

“Casa” é o tema geral desta edição. Em que sentido?

Creio que os temas dos festivais são meramente indicativos; ninguém vai ou deixa de ir por causa de um tema. O texto introdutório do festival é intitulado com um verso do poema de Ruy Belo, “Oh as casas as casas as casas”, que remete para a ideia de casa como experiência vivida. Este tema é bastante interessante, é quase uma carta branca. “Casa” possui diversos significados, conforme se pode verificar no dicionário, e representa quase o que quisermos: um ponto de refúgio, de chegada, de partida, família, língua, pátria, intimidade, vida conjugal e, atualmente, também tem o significado de migrações.

Para além das mesas sobre livros e autores, fale-nos sobre as outras vertentes da programação.

No início do festival, que coincide com o Dia Mundial da Língua Portuguesa, faremos uma homenagem a António Lobo Antunes com Maria Rueff e Rui Cardoso Martins. Na música, um dos concertos será do Samuel Úria, que considero dotado de talento literário, com letras marcantes e originais. Também programamos três filmes, na Cinema Nimas, que giram em torno da ideia de casa, com abordagens muito diversas: O Joelho de Claire, de Éric Rohmer, que explora o espaço das férias e a forma como as ligações afetivas se transformam; O Pântano, de Lucrecia Martel, que encena tensões, confrontos e lutas de classes em torno de uma piscina; e Violência e Paixão, de Luchino Visconti, ambientado em um velho palacete, que reflete sobre a identidade do autor enquanto aristocrata, comunista e esteta.

“O que acontece hoje, por falta de crítica jornalística, é que um livro importante pode nascer e morrer sem que se escreva nada sobre ele”

Lisboa tem sido um tema constante na história da literatura portuguesa, e não só, particularmente no romance e na poesia. O que falta para que se afirme internacionalmente como cidade literária?

Acredito que já se afirmou como cidade literária. Para nós, que temos referências que um estrangeiro pode não ter, como o Chiado de Eça de Queirós ou a Lisboa de Cesário Verde, a verdade é que o fenómeno Pessoa fez de Lisboa uma cidade, em termos turísticos, mas principalmente culturais, ligada a um escritor. A ideia de que as deambulações de um autor, as personagens ou os poemas de alguém criam um roteiro que, mais do que turístico, constrói uma visão do lugar, da sua história e passado. Numa cidade antiga, não estamos apenas no presente, mas em toda a sua trajetória. Além disso, escritores que visitaram Portugal ou que escreveram sobre ele compartilham a sensação de que Lisboa possui uma relação especial com a literatura e, em particular, com a poesia. Nesse sentido, creio que não precisamos fazer nada; essa afirmação já existe, não por causa dos poderes públicos, mas pelos escritores que transmitiram a sua visão da cidade.

Acredita que estes festivais podem contribuir para criar leitores? Não se dirigem essencialmente a quem já possui hábitos de leitura e interesse pela literatura em geral?

Não creio. Nas últimas décadas, com os dois festivais mais visíveis, Correntes d’Escrita e Fólio, a relação das pessoas com a literatura mudou bastante. Hoje em dia, essa relação passa muito pela personalização dos escritores. Os livros de um autor que não se apresenta como uma personalidade, por assim dizer, acabam sendo prejudicados. A menos que optem por se tornar invisíveis, como é o caso de [Elena] Ferrante. Se me perguntarem se preciso conhecer os autores dos livros ou se preciso dos seus autógrafos, eu diria que não, mas compreendo que isso aproxima da literatura pessoas para quem ela é atualmente menos evidente. A presença da literatura em espaços públicos reduziu bastante, tanto nos suplementos literários dos jornais quanto na televisão. Acredito que nada substitui a relação de um leitor com o livro sozinho, em casa, em um café ou em um local de leitura preferido; essa é a verdadeira relação literária. Contudo, entendo que as formas de acesso aos livros mudaram e que os festivais ajudam a aproximar esses públicos.

Como poeta e oriundo de um país que, desde Camões, é reconhecido pela relevância da sua poesia, como você analisa o número desanimador de leitores desse gênero literário em particular?

No festival teremos uma mesa intitulada Poesia na Cave, como se numa “casa” guardássemos o lugar mais obscuro para a poesia. No entanto, é preciso nuance nesse discurso. Excetuando quatro ou cinco autores, a poesia nunca foi um gênero de grande sucesso comercial. O que se observa hoje, devido à falta de crítica jornalística, é que um livro importante pode surgir e desaparecer sem que ninguém escreva sobre ele. Contudo, existem aspectos interessantes: estão surgindo livrarias de poesia em Lisboa e no Porto e uma multiplicidade de pequenas editoras com circuitos distintos. Mas é verdade que há uma diminuição do investimento de muitas editoras históricas na poesia, o que é lamentável. Além disso, muitas livrarias colocam a poesia, por ser menos atrativa, nas prateleiras de baixo, forçando os leitores a se agacharem para procurá-la, talvez como uma forma de prestar homenagem aos deuses líricos…

Que relevância a literatura pode ter em um momento em que o mundo parece caminhar novamente para a guerra e o abismo?

Durante a pandemia, as pessoas começaram a ler A Peste [de Albert Camus], Decameron [de Giovanni Boccaccio] e outros clássicos relacionados a epidemias. Achei isso interessante, pois significa que pessoas antes de nós já pensaram e escreveram sobre essa experiência humana. Isso desmente a ideia comumente aceita de que a literatura não está conectada à nossa vida, e que essa seria uma objeção válida se fosse verdadeira. Existem livros que tratam de saudade, morte, amor, doenças, guerra, exílio… E são livros de qualidade. Uma vez, fui convidado para falar sobre poesia em uma prisão. Foi desafiador, e eu esperava encontrar uma chave de entrada para aquela conversa, até que, em determinado momento, um dos detentos comentou: “Sabe, não nos interessamos por poesia porque nenhum poeta esteve preso”. Eu respondi: “Oh, meu amigo, vamos discutir isso. Vamos falar de todos os poetas que estiveram presos por crimes de A a Z”. Porque, no fundo, independentemente da experiência humana, a literatura sempre esteve presente.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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