No recanto, com afeto

No recanto, com afeto

Após um longo e somburoso inverno, onde os comboios transportavam não só passageiros, mas também tristezas, e os rios deixavam de fluir naturalmente para o mar, desabando do céu sobre nossas cabeças, o vento já não varria as copas das árvores, mas espantava as nuvens, permitindo que o sol finalmente se mostrasse.

Ah, o sol!

No quiosque dos Coruchéus, aqui em Alvalade, a presença do sol faz toda a diferença. Após dois ou três meses de céus cinzentos, as cadeiras do jardim pareciam abandonadas, tornando a esplanada uma triste árvore sem folhas. Mas com apenas uma tímida luz solar, um fino raio amarelo passando entre as nuvens, a vida renascia.

Um quiosque pode parecer apenas uma estrutura cilíndrica de metal cercada por mesas e cadeiras. Contudo, essa organização, em anéis como as galáxias, reflete a importância vital que eles têm na dinâmica do bairro, atuando como catalisadores do microcosmos comunitário.

A vida de um bairro orbita em torno de um quiosque, atraída pela gravidade dos aromas de café e tostas mistas, flutuando no ar com os eflúvios das cervejas, onde crianças correm em alta velocidade e bolas de borracha voam como cometas, perseguindo um cão ofegante, enquanto a tristeza, o frio e a desesperança são sugados por um buraco negro qualquer.

E ao final da tarde, quando o sol se despede lentamente, estrelas surgem nos olhos de um casal apaixonado, marcando o início de uma nova primavera de amor.

Está tudo ali, na Via Láctea de um quiosque, e não é preciso de um telescópio para testemunhar.

Foi neste pequeno e vibrante universo do quiosque em Alvalade que encontrei o meu lugar, acolhido em Lisboa. Sentado à mesa de ferro, percebi que ali estava a minha versão da sagrada família, sempre um ombro amigo e um ouvido atento nos momentos difíceis, pois é certo que as horas difíceis sempre chegarão.

Sagrada família também porque todos no quiosque têm nomes bíblicos.

Começando pelos proprietários, Maria e Tiago, que sempre me acolhem com um sorriso, a Rita, a psicóloga laureada da mesa – os outros são amadores – a arquiteta Susana, agora adepta apenas do chá, e o querido José, o “Zé das Finanças”, que coleciona relógios e é um irmão de todas as horas que Lisboa me proporcionou.

De algum versículo provém também o Pedro, que se casou na Espanha, o Jorge, que agora descobriu o samba, e o João, aquele do milagre da multiplicação das jolas. Há ainda os que não estão na Bíblia, mas fazem seus próprios milagres no quiosque, como o Nuno, apaixonado pelo Benfica, e o Renatão, o maior torcedor do Sporting, até em estatura.

Além de tantos outros que vão e vêm, estrelas passageiras dessa pequena galáxia.

No comando deste quiosque, girando as manivelas da cafeteira e da cervejeira, estava o Marco, que não é Marco Polo, mas poderia muito bem ser, um navegador que aprendeu seu ofício em Aveiro e agora, em vez de ser âncora, tornou-se vela para ganhar o mundo, levando sua simpatia e lealdade para outras constelações.

Como recordação de sua passagem meteórica pelo quiosque, o Marco tirou uma foto em chiaroscuro no balcão, posando de filósofo existencial, uma memória agora fixada na cortiça da parede.

No quiosque, também aprendi algumas sutilezas do ethos lisboeta, detalhes que fazem diferença para quem quer se integrar em Lisboa, como saber que tremoços não são indícios de uma doença nervosa, mas sim um tira-gosto típico, e que o foooodaaassseee, pronunciado de forma prolongada e com todas as vogais, não é uma ofensa, mas uma interjeição de apoio, do tipo:

— Que frio é este?!?!

Foooodaaassseee!

Aprendi esta e outras preciosidades do vernáculo minimalista de Lisboa, além do onipresente ê-pá!, e sua variação próxima, o ê-ná!, usados como uma interjeição de espanto.

Incluindo o emblemático e então?, que funciona tanto como o nosso conte mais, quanto para chamar a atenção de alguém que esteja cometendo um erro, seja uma criança tentando enfiar o dedo na tomada ou um motorista que não sinaliza ao fazer a curva.

Ainda não tive tempo de aprender, mas logo chegarei ao singular nhén!, que resume uma oração inteira, por exemplo, em vez da pessoa dizer pois é, o trânsito de Lisboa é assim mesmo e não tem como evitar, ela simplesmente encolhe os ombros e pronuncia um breve e agudo nhén!.

Que riqueza!

Um universo inteiro acessível aos ouvidos estrangeiros na mesa de um quiosque. A próxima temporada está apenas começando, o sol há de triunfar e Lisboa voltará a girar na órbita dos quiosques. A matrícula já está feita e, ê-ná!, estou ansioso para recomeçar os estudos avançados na língua lisboeta.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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