Um canto da beira

Um canto da beira

Recentemente, fiquei surpreso ao descobrir, através de um artigo da revista Fadista, que o poeta, ensaísta e professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Arnaldo Saraiva – reconhecido, entre outras coisas, como um especialista na obra de Eugénio de Andrade – publicou um livro intitulado Amália: A Raiz e a Voz. Neste trabalho, ele argumenta que a maneira de cantar da nossa ilustre fadista é influenciada por uma matriz estética e cultural da Beira Baixa. O livro foi, não por acaso, editado pelo Jornal do Fundão.

Amália Rodrigues nasceu em 1920, em Lisboa, onde passou a maior parte da sua vida, e o fado é, desde sempre, uma expressão profundamente alfacinha. Contudo, suas origens familiares estão na Beira Baixa (sua mãe era do Fundão, o pai de Castelo Branco, e os avós do Souto da Casa, Castelejo e Alcaria). Sabemos que muitos membros da sua família cantavam e tocavam – a mãe, por exemplo, era conhecida como “o rouxinol do bairro” – e que Amália veio ao mundo na capital por um acaso, já que seus pais estavam em busca de trabalho na cidade grande naquela época.

É razoável imaginar que Amália tenha ouvido, ainda enquanto estava na barriga da mãe, as canções típicas da Beira Baixa; porém, sabendo que viveu em Lisboa com a avó durante praticamente toda a infância, seria excessivo afirmar que essas melodias tenham moldado sua forma de cantar. No entanto, nas diversas entrevistas ao longo de sua carreira, a fadista sempre fez questão de mencionar e destacar suas raízes beirãs, afirmando que o Fundão era “uma conversa diária”, que não tinha “sangue que não fosse da Beira Baixa” e que, mesmo antes de se tornar uma fadista profissional, já carregava “uma memória musical doméstica”, construída sobretudo nas férias e em almoços de domingo, quando a família cantava em casa.

Se o relato da própria artista não fosse suficiente para convencer sobre suas raízes beirãs, os depoimentos de Arnaldo Saraiva são valiosos. O autor do livro explica que a diva incorporou ao fado uma maneira de frisar e prolongar as sílabas, típica dos cantos beirões. Especialistas como Rui Vieira Nery e Frederico de Freitas também destacaram que Amália trouxe “melismas da Beira para o fado”, sendo “melisma” uma técnica vocal onde várias notas são cantadas sobre uma única sílaba.

Amália afirmou que, se não tivesse laços profundos com a “terra dos seus” (que sentia como não sendo a sua), não conseguiria interpretar o Fado Santa Luzia da forma que o fazia. O Santuário de Santa Luzia, localizado em Castelejo, era um local de peregrinação anual da família, e já nos anos 1940, Amália e Celeste Rodrigues se juntavam à romaria cantando fados sob pedido e acompanhadas por guitarra. Amália retornaria a essas peregrinações por diversas vezes, como comprovam fotos guardadas no Museu de Santa Luzia e reportagens publicadas no Jornal do Fundão – na época dirigido por Armando Pauloro – que sempre acompanhou de perto suas visitas e atividades.

Portanto, fica claro que, embora a sua residência tenha sido em Lisboa (e ainda hoje a casa seja o cenário de programas de televisão dedicados ao fado), o centro emocional de Amália sempre permaneceu no Fundão. Sua formação artística foi indiscutivelmente influenciada pelo folclore da Beira Baixa, do qual ela adaptou muitos sucessos em seu repertório, como Senhora do Livramento e Quando Eu era Pequenina.

Conforme defende Arnaldo Saraiva, corroborado pelo artigo na revista Fadista, é por isso que nos fados de Amália não ouvimos apenas a essência do fado lisboeta, mas também “a vibração longíqua das cantigas da Beira Baixa, o eco das vozes familiares, a tensão melódica das romarias e a tristeza radiante de uma das regiões musicalmente mais ricas do país.”

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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