“Como repensar o teatro à luz do algoritmo? Como criar espaço para o humano dentro de estruturas tecnológicas digitais?” Com essas questões em mente, Jorge Jácome refletiu ao aceitar o convite do Teatro Nacional D. Maria II e da empresa de consultoria tecnológica NTT DATA para criar uma nova obra. O filme está em exibição de 9 a 27 de julho no lounge do Teatro Variedades, com entrada gratuita. Cosmic Sans é descrito como “um diálogo, ou talvez uma tensão, entre dois mundos: um, ligado ao digital, que valoriza produtividade, inovação e futuro; outro, enraizado na memória ancestral do gesto, do corpo presente, da palavra falada,” explica o cineasta.
O título, um trocadilho com o nome de uma fonte lançada pela Microsoft, sugere também “a ideia de estar ‘sem cosmos’ – deslocado, sem orientação, à deriva,” revela Jorge Jácome. Ele acrescenta: “O nome evoca, simultaneamente, a vastidão do universo (cosmic) e uma ausência ou recusa de sentido (sans). A alusão à tipografia Comic Sans vai além de uma mera provocação visual: é um convite a reconsiderar o que consideramos ‘sério’, ‘belo’ ou ‘aceitável’ na linguagem e na forma como nos comunicamos.” Na tela, um homem em Bangkok observa o pôr do sol sobre a cidade – mas contar mais do que isso apenas tiraria a alegria da descoberta de Cosmic Sans. “Numa era dominada por dispositivos, quis me apropriar dos gestos, dos dedos – como quem tenta recordar que o corpo ainda está aqui. Que há algo de háptico, de tátil, que não só resiste ao ecrã como também o habita,” afirma o realizador.
Sobre as quatro sugestões culturais para esta semana, ele comenta: “São propostas que acredito que ninguém deve perder, mas mais do que isso, são obras de pessoas que estão explorando muitos dos temas e dimensões que também atravessam Cosmic Sans. São, para mim, ecos e extensões de questões que têm me ocupado: o tempo, o corpo, a linguagem e a forma como inventamos maneiras de existir juntos.”
Audição, de Teatro Praga
16 a 20 julho
Sala Estúdio Valentim de Barros, Jardins do Bombarda
Estreia no dia 16 o espetáculo que comemora os 30 anos do Teatro Praga, Audição. Para Jorge Jácome, “a Praga é a companhia de teatro mais estimulante em Portugal – irreverentes, inteligentes, capazes de rir de tudo (inclusive de si mesmos) enquanto reinventam o palco como espaço crítico e sensorial.” Ele acrescenta: “Não é por acaso que convidei André e. Teodósio, um dos membros, para escrever comigo o texto deste Cosmic Sans. Quanto a Audição, que será apresentada na Sala Estúdio Valentim de Barros, espaço onde a companhia ensaiou por muitos anos, considero que é uma oportunidade para testemunhar como a Praga continua, três décadas depois, a desafiar as linguagens cênicas e o pensamento dominante sobre o que é teatro hoje.”
Ou.kupa
Até 13 julho
Teatro do Bairro Alto e Casa Independente
Bailarina, coreógrafa e performer, Piny é a curadora do festival Ou.kupa, que celebra as culturas de dança urbana – do street ao clubbing e ballroom. Jorge Jácome recomenda esta segunda edição, que começou em 29 de junho e vai até o final desta semana. “No TBA há novas criações, uma exposição, sessões de treino com DJ sets e conversas, além do Ball Conto Preto na Casa Independente, dedicado à cultura ballroom,” destaca sobre esta programação que também passou pelo Jardim de Verão da Gulbenkian. “É um festival-celebração que expande o entendimento da festa e do que significa dançar em comunidade. Uma afirmação de linguagens e de modos de existir.”
Pizza Space-Time, de João Marçal
Até 6 setembro
Galeria Zé dos Bois
Na exposição de João Marçal na ZDB, com curadoria de Natxo Checa e em exibição desde o final de fevereiro, o realizador não poupa elogios: “Gosto muito da pintura do João porque, com aparente simplicidade, cria obras que abrem janelas para outras dimensões. Vale a pena visitar esta exposição para ver como a pintura pode ser divertida, rigorosa e profundamente misteriosa ao mesmo tempo.”
A Campa de Marx, de Isadora Neves Marques
Não Edições
O novo livro de poesia de Isadora Neves Marques, lançado no final de abril, é a última sugestão de Jorge Jácome. “Conhecida pelo seu trabalho híbrido entre arte, cinema, literatura e pensamento crítico, Isadora escreve de forma clara e sensível sobre temas complexos como desejo e sexo, relações interpessoais, tempo e perda. Este livro traz reflexões que nos inquietam, abrindo espaço para repensar como vivemos, com quem nos relacionamos e o que resta de nós após cada encontro ou despedida.”








