A guitarra portuguesa é frequentemente vista como uma herança familiar. O que a levou a escolher este instrumento?
Iniciei o meu percurso na guitarra clássica aos sete anos, sob a orientação da professora Luísa Moutinho. Num determinado momento, minha mãe trabalhava no Clube Literário do Porto, que organizava diversos eventos. Certa vez, houve uma homenagem a um guitarrista e fui uma das crianças presentes. Recordo-me de nos terem envolvido com capas de estudantes, numa tradição ligada à guitarra de Coimbra, e de ter tido a oportunidade de experimentar o instrumento. Disseram que eu tinha talento (na época já fazia aulas de guitarra clássica). Após isso, insisti com minha mãe que queria aprender a tocar guitarra portuguesa. Assim, passei um bom tempo a estudar tanto guitarra clássica quanto guitarra portuguesa.
Historicamente, a guitarra portuguesa sempre foi mais tocada por homens. O cenário está a mudar?
Existem registros de mulheres guitarristas; inclusive, fala-se bastante da mãe de Carlos Paredes, que cantava e tocava para o fazer adormecer. Na verdade, só percebi esse desequilíbrio mais tarde… Quando estava no Conservatório de Música do Porto, havia duas colegas que também aprendiam guitarra portuguesa, mas que acabaram por não seguir a música. É um fato que o meio ainda é predominantemente masculino, mas hoje já podemos ver muitas mulheres a tocar.
Por ser mulher, traz uma sensibilidade diferente para o instrumento, ou a música não tem gênero?
Não vejo as coisas dessa maneira e não gosto de pensar em termos de gênero. Acredito que todos nós temos características masculinas e femininas e, muitas vezes, não nos sentimos à vontade para expressá-las. Acho que a sensibilidade que trazemos para o instrumento está mais ligada à personalidade de quem toca do que ao gênero em si.
Quais desafios (ou vantagens) você encontrou por ser uma mulher no protagonismo deste instrumento?
Talvez o fato de ser mulher guitarrista chame mais atenção, devido à escassez de representantes femininas na área. Em termos de desvantagens, lembro de uma situação em uma masterclass, onde me disseram que estava posicionando a guitarra de forma errada. Conversei com meu professor, Pedro Pinto, do Conservatório de Música do Porto, e ele considerou o comentário incoerente. Eu não estava usando uma posição sugerida para mim por conta do fato de ser mulher e ter peito, o que tornava a posição desconfortável. Também me aconteceu, nas raras vezes que toquei em casas de fado, perguntarem se eu estava lá para cantar. As pessoas me viam e logo associavam a minha presença a de uma fadista, e não a de uma guitarrista. Estou convencida de que essas situações estão lentamente mudando…
A guitarra portuguesa tem uma ligação profunda com o fado. Como você equilibra o respeito à tradição enquanto imprime sua própria marca nas composições?
Na verdade, meu aprendizado não foi necessariamente ligado ao fado, por isso não existe esse conflito. Minhas influências são oriundas do repertório instrumental da guitarra portuguesa, mais relacionadas com a tradição de Coimbra: Carlos Paredes, seu pai, Artur Paredes, e seu avô, Gonçalo Paredes; além de Pedro Caldeira Cabral e Otávio Sérgio. Gosto de assistir e acompanhar o que está acontecendo no fado, mas isso não se encontra entre minhas influências, visto que meu ensino foi fundamentado no repertório instrumental, ou seja, sem a presença da voz.
Qual emoção mais a guia ao compor?
Tenho composto mais para outros instrumentos, pois fiz licenciatura em Composição na Escola Superior de Música de Lisboa, e atualmente estou em mestrado. Embora tenha vontade de trabalhar de forma composicional com a guitarra portuguesa, também quero aproveitar ao máximo o curso, aprendendo a compor para vários instrumentos e a interagir com a guitarra portuguesa. Para compor, preciso estar com a mente livre. É mais difícil criar sob pressão, com muitas coisas a fazer. Quando a pressão me invade, não consigo encontrar espaço para a criação. É fundamental conseguir esse espaço em que parece que o tempo para.
Que conselho você daria a uma jovem interessada em aprender a tocar guitarra portuguesa?
Embora possa parecer um conselho pouco realista, diria para fazer o que mais ama. Que ela compreenda que o instrumento pode ser tudo que quiser, e que pode tocar os gêneros musicais que mais aprecia.
Como você recebeu o convite para o Festival de Guitarra Portuguesa?
Recebi a proposta no final de um concerto que fiz em Mafra. Nuno Sampaio, da empresa de produção de eventos Ghude, veio conversar comigo e com o guitarrista Gonçalo Rodrigues, que me acompanha em muitos espetáculos. Ele expressou que gostou muito do concerto e que gostaria que eu participasse no Festival. Alguns dias depois, recebi o convite formal.
Como foi ver seu nome junto a grandes figuras da guitarra portuguesa?
Tento não pensar muito nisso, senão se torna uma questão muito séria e pesada [risos].
O que você está preparando para este concerto?
Acredito que trarei algumas novidades, mas não serei a única. Hugo Vasco Reis tem um trabalho bastante instigante por trazer algo novo; Mike 11 também apresenta um registro totalmente diferente… haverá uma diversidade de estilos e vou ocupar meu espaço: tocarei composições minhas, permitindo que as pessoas entrem um pouco no meu mundo, mas não apenas isso. Também interpretarei Carlos Paredes, Otávio Sérgio e Pedro Caldeira Cabral. Serão dois concertos de 30 minutos.
Sua presença no festival representa uma nova geração de guitarristas que assegura o futuro do instrumento?
Sim, isso é fundamental, pois introduz novas abordagens ao instrumento, além de trazer riqueza e variedade ao Festival.
Há algum concerto que você esteja mais animada para assistir?
Na verdade, gostaria de poder participar de todos os concertos; não sei se terei essa liberdade [risos]. Na primeira edição, participei em um concerto de Luísa Amaro e consegui assistir a muitos outros shows.
Quais outros palcos ou projetos estão em seu horizonte?
Recentemente, fui convidada a escrever uma peça para guitarra clássica para o Prêmio de Jovens Músicos, que será publicada pela Artway. Estou organizando um concerto, mas ainda não posso falar muito sobre isso. Tenho vários projetos de composição e estou bastante ocupada com o mestrado. Neste momento, estou focada no espetáculo do Festival, que vem em boa hora, pois tenho tempo para preparar tudo em detalhe. Embora seja curto, vai ser muito especial.
Seu coração está na guitarra portuguesa?
Meu coração está na guitarra [risos]. Neste momento da minha vida, não tenho certeza absoluta, pois estou aberta a novas experiências. Portanto, não consigo dar uma resposta muito clara. Estou seguindo o meu caminho.
NOTA: Mafalda Lemos atua no Teatro Variedades a 7 de março (às 16h e às 18h).









