“Muitas vezes, acontecem coisas na vida que estão fora do nosso controle e nos fazem perder o chão”, comenta João Lourenço sobre o drama vivido pelas personagens de Veneno – história de um casamento. A aclamada peça de Lot Vekemans é agora dirigida pelo experiente encenador, que tem como atrativo a presença de Carla Maciel e Gonçalo Waddington, um casal na vida real, interpretando dois indivíduos que se reencontram após uma separação traumática decorrente da perda de um filho.
“Já conhecia bem a Carla Maciel, mas nunca havia trabalhado com o Gonçalo, por isso não poderia estar mais feliz por tê-los aqui interpretando este texto. São dois grandes atores e estão ao mesmo nível. E não é fácil estar ao nível da Carla”, assegura Lourenço. Diante da intensidade emocional da obra da autora neerlandesa, “a intimidade entre eles como casal é fundamental, pois isso se transmite para a plateia, elevando o espetáculo a um outro nível”. O encenador não tem dúvidas sobre o quão raro é “encontrar algo assim em um palco de teatro”.
Datada de 2009, a peça de Vekemans chega ao Teatro Aberto com grande aclamação internacional e até uma versão recente para o cinema, dirigida por Désirée Nosbusch e protagonizada por Tim Roth e Trine Dyrholm. Para a versão portuguesa, a dramaturgista Vera San Payo de Lemos baseou-se nas traduções feitas do neerlandês para inglês, alemão e francês: “atualizamos um pouco a continuidade da ação”, sem comprometer “o foco da peça na questão da perda”.
No entanto, San Payo de Lemos sublinha que é essencial “compreender como a morte do filho em circunstâncias trágicas afeta cada um deles individualmente e, posteriormente, o casamento. Em determinado momento, a personagem do Gonçalo diz que primeiro perderam o filho, depois cada um deles se perdeu e, por último, perderam-se como casal. E ela concorda plenamente, afirmando que essa foi a única coisa correta que ele disse até ali”.
A abordagem do luto constitui, aliás, a essência reflexiva da peça de Vekemans. Quando se reencontram uma década após a separação, sem nunca terem se falado até então, ela se surpreende com o modo como ele parece ter superado o luto (está em um relacionamento com outra mulher e espera um bebê), enquanto ela permanece estagnada, em um estado de luto permanente devido à impossibilidade de ultrapassar a perda.
O conflito advém precisamente da incapacidade de ambos entenderem, como nota o encenador, que “cada pessoa tem o direito de fazer o luto à sua maneira”. Isso vai de encontro ao que a autora buscou ao afirmar que “a peça não trata do que está certo ou errado, mas sim de como lidar com as coisas”. E é justamente isso que se tornou mais difícil na vida desse casal que, como muitos outros, se desencontrou e se perdeu no caminho.









