Há 15 anos, trocou a França por Portugal, seguindo o caminho oposto dos seus pais. Chegou a Lisboa como professora universitária de macroeconomia e, por acaso, descobriu a vocação para a fotografia. Começou com a fadista Gisela João e, até meados de 2024, atua como fotógrafa residente no Teatro São Luiz, onde recentemente inaugurou a exposição A Luz que Ficou – um retrato íntimo do São Luiz. Coincidentemente, a sua outra exposição, Rémanence – do efémero à memória, encontra-se a duas ruas de distância, nos Estúdios Victor Cordón, ocupando o foyer desde o final de fevereiro.
“As duas exposições são, de alguma forma, complementares. Uma está ligada ao meu passado e a outra projeta o futuro do meu trabalho”, diz Estelle Valente. A mulher que dança enquanto fotografa compartilha seu olhar sobre as artes que a cercam e nos permite vislumbrar o imaginário poético que imprime em cada imagem que captura.
No São Luiz, até 19 de julho, A Luz que Ficou reúne cerca de 200 obras, incluindo fotografias de cena, retratos e imagens dos bastidores deste teatro municipal. Não será uma retrospetiva dos dez anos em que ali trabalhou, mas sim uma seleção baseada em afetos e conexões. “A escolha reflete mais a minha ligação com as fotografias tiradas durante esse período. É uma seleção mais afetiva e artística do que documental.” A mostra começa no muro em frente ao Teatro e se estende pelas áreas públicas e técnicas. “Quis que esta exposição fosse sobretudo uma homenagem às pessoas que passaram por lá e às que ainda estão: artistas e equipes do Teatro. Quero que os visitantes descubram o lugar e as pessoas que o fazem. Desejo que seja uma descoberta emocional.” Para isso, a fotógrafa realizará duas visitas guiadas gratuitas por mês (com inscrição) e, no dia 22 de maio, aniversário do São Luiz, fará retratos gratuitos no janelão. Uma oficina de fotografia de cena também está prevista.
A outra exposição, disponível até 8 de maio, é quase o oposto. Estelle apresenta um conjunto reduzido de fotografias, resultado de uma residência artística realizada no ano passado nos Estúdios Victor Cordón. Ligada ao movimento e à dança, expressões artísticas que aprecia fotografar, Rémanence revela seu trabalho mais recente, em que brinca com sobreposições, arrastamentos e apagamentos. “É a primeira vez que posso pensar com calma nas minhas fotografias e acredito que seja o início de um projeto maior.” As imagens apresentadas podem ser reais ou imaginárias — ou, como diz o título, remanescências e persistências que ficaram em sua memória, impressas no papel fotográfico como se fossem pinturas. “É isso que quero explorar no futuro: pintar de forma fotográfica sobre as minhas fotografias. Sempre imaginei isso na minha cabeça, mas só agora consegui concretizar.”
Não por acaso, suas sugestões para esta semana incluem a fusão de pintura e desenho com a fotografia. Para os próximos dias, ela recomenda uma peça de teatro, um encontro de poesia, além de música e cinema. Estas escolhas são principalmente afetivas, como não poderia deixar de ser quando se trata de Estelle.
A Galeria Francisco Fino reúne um conjunto de obras criadas por Helena Almeida entre os anos 1970 e 2000. A exposição propõe um olhar sobre diferentes momentos da prática da artista, mostrando como, ao longo de várias décadas, “interrogou de forma persistente os limites da pintura e do desenho, deslocando-os para um território onde o corpo, o gesto e a imagem se tornam indissociáveis”. Estelle comenta: “A Helena Almeida é uma referência para mim, pela originalidade do seu trabalho. A sua arte é poética e absurda, ao mesmo tempo. Gosto muito da mistura de fotografia e pintura, algo que gostaria de experimentar no futuro.”
Na peça da neerlandesa Lot Vekemans, encenada por João Lourenço, Veneno – história de um casamento, está em cena até 3 de maio no Teatro Aberto. Os atores Carla Maciel e Gonçalo Waddington interpretam um casal que se reencontra dez anos depois de uma separação traumática. “Ainda não vi, mas a Carla foi muito importante na minha trajetória, pois foi com ela que fiz, em 2018, minha primeira exposição, Carla no Papel, um projeto fotográfico onde exploramos imagens de ícones femininos do século XX. Penso que é muito bonito que a Carla e o Gonçalo, que são um casal na vida real, trabalham juntos no teatro.”
No dia 30 de março, haverá uma noite dedicada à poesia na Bota, às 21h18. Estelle recorda: “Há 15 anos, quando cheguei a Lisboa, frequentei eventos de poesia. Foi assim que descobri a cidade, através das suas noites culturais. Conheci diversos poetas portugueses e essas pessoas foram muito importantes para mim. Um dos meus primeiros amigos em Lisboa foi José Anjos, que escreve e recita poesia. Atualmente, ele tem um projeto chamado Poesia na Bota, que acontece todas as segundas-feiras. No dia 30 de março, celebramos o quarto aniversário com a participação do ator Rui Spranger e do músico e compositor Rui David, recomendo!”
O Shortcutz Lisboa, cujas sessões são realizadas às terças-feiras, hoje acontece na Cossoul, às 21h, e é uma ótima oportunidade para conhecer o cinema português. “O Shortcutz fez parte da minha vida nos meus primeiros anos em Portugal. Eu frequentava muito quando acontecia na Bica. Foi um dos lugares onde comecei a ter contato com o cinema português”, revela a fotógrafa. Nessa terça-feira, dia 31, serão exibidas as duas curtas-metragens vencedoras do mês, além de Kyiv Cake, do realizador ucraniano Mykyta Lyskov, e Dry Food, da realizadora austríaca Janka Dósa.
Por fim, no dia 4 de abril, às 21h, o trompetista franco-libanês Ibrahim Maalouf retorna a Lisboa para um concerto. Desta vez, traz o projeto T.O.M.A. – Trumpets of Michel-Ange, descrito como “um manifesto artístico que mistura influências do Oriente festivo e nostálgico”. “Ele é uma referência da música francesa contemporânea e não poderia deixar de fazer uma sugestão relacionada com a França”, afirma Estelle Valente.








