O músico do Bairro da Praça de Alvalade que fascina os moradores do pátio, nos intervalos, e necessita de um novo instrumento.

O músico do Bairro da Praça de Alvalade que fascina os moradores do pátio, nos intervalos, e necessita de um novo instrumento.

Viver nas proximidades de um supermercado tem suas vantagens, como a facilidade de ter sempre à mão itens como pão, leite, pescados, carnes, frutas e legumes. Na Praça de Alvalade, essa experiência ganha um toque especial: os vizinhos do Continente Bom Dia podem ouvir uma das Quatro Estações de Vivaldi ou até um hit de Justin Bieber tocado no violino. Assim tem sido para os moradores desde a chegada de um talentoso funcionário com seu violino.

Fernando Arsênio, 21 anos, é um angolano de Benguela que foi para Lisboa no início deste ano com o sonho de se tornar músico profissional. Para sustentar-se, ele encontrou emprego no Continente.

“Um dia quero ver meu nome no cartaz de um concerto”, afirma Fernando, enquanto sonha acordado.

O violinista rapidamente se tornou uma sensação nas redes sociais. Em abril, durante seu trabalho em uma loja do Continente na Avenida de Paris, no Areeiro, ele já havia chamado a atenção.

“Minha chefe soube que eu tocava violino e pediu para eu receber os clientes tocando”, recorda. O vídeo que foi postado no Instagram acabou se espalhando pela rede interna da empresa e, agora, Fernando é um dos favoritos para vencer o próximo concurso de talentos da companhia.

Fernando e seu violino recebendo os clientes no supermercado.

A surpresa de seus colegas de trabalho não foi nova para Fernando. Antes de trabalhar na rede de supermercados, ele atuou em uma cozinha de uma steak house na Avenida de Roma, onde seu talento com o violino também não passou despercebido.

No último Dia da Mulher, Fernando trocou a grelha e os pratos pela área principal do restaurante, realizando um mini-concerto em homenagem às clientes.

Em Alvalade, a habilidade do músico foi reconhecida quando uma vizinha postou um vídeo dele tocando no pátio atrás da loja, onde os funcionários costumam fazer pausas para descanso e conversas.

“O violino exige prática diária e aproveitei o tempo livre para tocar”, explica.

Vídeo de Rita Gonçalves Henriques.

O concerto foi tão secreto que nem Fernando sabia que estava sendo observado. “Quando percebi, era hora de voltar ao trabalho e parei de tocar. Só então ouvi as pessoas nas janelas dos apartamentos aplaudindo”, lembra-se.

O vídeo de sua apresentação foi visto logo depois por um colega e, desde então, Fernando é carinhosamente chamado de “o nosso artista” no supermercado.

Um artista, por enquanto, ainda sem palco, concerts ou turnês.

Além do pátio do supermercado e do pequeno quarto onde mora em Moscavide, Fernando segue o caminho dos músicos à procura de espaço, tocando para o público apressado que passa pela estação de comboios do Oriente.

Seu repertório é variado, passeando desde a música clássica de Vivaldi e Beethoven até os sucessos pop de Justin Bieber, Ed Sheeran e Rihanna.

A pressa dos transeuntes, porém, trouxe desafios para Fernando. Um dia, um passageiro saiu apressadamente do metrô e atingiu sua caixa de violino, causando uma fissura no instrumento.

Agora, além de tocar nas ruas por amor à música e para praticar, ele tem um novo objetivo: “Estou economizando para comprar outro violino”.

O amigo Damon foi atingido por um passageiro apressado no metrô, e agora Fernando economiza para adquirir um novo violino. Foto: Líbia Florentino.

Essa pode ser a aposentadoria de seu fiel companheiro, que Fernando carinhosamente chama de Damon, em homenagem ao seu personagem de série favorito, Diários do Vampiro.

Porém, ainda não há uma data para a estreia do substituto de Damon, pois depende das contribuições ocasionais de pessoas apressadas em frente à estação do Oriente. Fernando busca juntar cerca de 400 euros necessários para adquirir um novo violino.

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O menino que queria ser padre virou violinista

Até pegar um violino pela primeira vez, há apenas dois anos, Fernando acreditava que sua vocação era outra: ser padre. Desde pequeno. Entrou no seminário aos 9 anos e saiu aos 18, para cumprir um ano de reflexão obrigatório, antes de fazer os votos eclesiásticos.

Fernando relembra que, na infância, era tocado “pelo estilo de vida” de um tio que era padre. Um dia, decidiu contar aos pais que queria ser padre como o tio. Sob a orientação do tio, cursou o 4º ao 7º ano em um seminário em Huambo e completou os cinco anos seguintes em uma segunda instituição em Luanda.

Quando criança, Fernando queria ser padre; após nove anos no seminário, descobriu sua verdadeira vocação como músico. Foto: Líbia Florentino.

No seminário, Fernando teve os primeiros contatos com a música, aprendendo a tocar flauta, guitarra e piano. O violino veio depois, quando integrou uma orquestra em Benguela, mas sua aspiração de ser padre já havia mudado.

De fato, em meio a muitos lugares do mundo para um período de reflexão, Fernando acabou optando por um destino famoso por muitas coisas, mas não necessariamente por seu lado religioso. “Fui parar ao Brasil, imagina”, diverte-se o músico, que foi convidado por amigos angolanos que viviam no Rio de Janeiro e depois no Recife. Ele passou seis meses em cada uma das ensolaradas capitais, vivenciando praias, samba, maracatu e carnaval, sem conseguir retomar seu caminho como padre.

Paciência.

A igreja perdeu uma de suas ovelhas, mas a comunidade musical ganhou um violinista. De volta a Benguela, já na orquestra, Fernando inicialmente pensou em se especializar no piano, mas as circunstâncias mudaram.

“O nível era muito básico e tudo que ensinavam eu já sabia. Foi então que descobri o violino”, recorda.

A primeira apresentação aconteceu em outubro de 2023 e, como as grandes paixões, foi arrebatadora. Enquanto os outros músicos iniciantes praticavam apenas uma vez por semana, Fernando mantinha uma rotina de cinco a seis horas diárias de prática. O resultado foi sua rápida ascensão, sendo convidado para as apresentações oficiais da orquestra.

<pNo final do ano passado, ele decidiu conversar seriamente com seus pais.

“Pensei que era hora de completar meus estudos, quem sabe em um novo lugar. Lisboa parecia o lugar ideal para realizar meus objetivos”, afirma.

Assim, em janeiro de 2025, Fernando e seu violino chegaram a Lisboa.

O plano inicial era ingressar na universidade para estudar psicologia, mas esse objetivo foi temporariamente adiado enquanto Fernando organiza suas finanças e aguarda a chegada do visto da CPLP.

Fernando, seu violino e colegas de trabalho no supermercado, onde agora é conhecido como “o nosso artista”. Foto: Arquivo do Autor

Enquanto isso, ele continua focado na prática com o violino, esperando que Damon resista à fissura até seu primeiro “concerto” oficial em Lisboa, um casamento no qual foi convidado a tocar no final de outubro. Ironia do destino: o menino que queria ser padre agora participará da união de um casal no momento crucial da “hora do sim”, mesmo que sob uma nova perspectiva.

É um sinal de que Deus pode escrever certas histórias de maneiras inesperadas.

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