Martim Moniz, situado ao pé da Mouraria, enfrenta as majestosas colinas da Graça e do Castelo. Martim Moniz representa a terra. Lisboa, que é a verdadeira protagonista dessas narrativas, diz que devemos iniciar nossa jornada descendo.
Martim Moniz é um lugar especial. Em Cabo Verde, existe uma aldeia chamada Chão Bom, que é conhecida por alguns como Txon Bon. Ao norte da aldeia, há alguns quilômetros, existiu um campo de concentração. Muitas pessoas de valor, e até admiradas, passaram por lá. Um deles foi Luandino Vieira, um conterrâneo e herói meu. Em 1965, quando recebeu o prêmio da Sociedade Portuguesa de Aurores pelo seu Luuanda, ele estava preso no campo de concentração do Tarrafal.
A Sociedade Portuguesa de Escritores foi fechada por premiar um “terrorista”. E o Luandino provocava temor, como posso explicá-lo? Ele escrevia coisas como “juncada de arroz maninho”.
Ele traduziu Amália, que, ao cantar uma rua próxima do Martim Moniz, a do Capelão, referia-se a ela como “juncada de rosmaninho”. Contudo, na Luanda dele, não havia Lavandula stoechas ou alfazema.
Entretanto, havia paixões arrebatadas – histórias como “tenho o destino marcado, desde a hora em que te vi” e “se o meu amor vier cedinho, eu beijo as pedras do chão que ele pisar no caminho”. Essas eram comuns em Luanda, e essas cerimônias eram celebradas com arroz pequeno, “maninho”, como diziam. Nas procissões da igreja do Carmo da Luanda, prima distante da capela da Saúde, também era tradicional lançar arroz maninho, mas os amores profanos explicam melhor as crônicas.
Peço desculpas pela digressão por Chão Bom, Luanda e Macau, este último, de onde trouxemos a única versão linda de congestionamento. Juncada, porque vimos muitos juncos no rio das Pérolas. Falar do Martim Moniz arrisca trazer o mundo para perto e trocar vivências. O Luandino fez 90 anos recentemente e vive na margem do rio Minho, você ouviu algo a respeito?
Martim Moniz possui pessoas debaixo com talento para o drama e comédia e atrai quem tem bom gosto, tornando-se um lugar fascinante. Percorrer o Martim Moniz é um deleite para quem busca detalhes. O Martim Moniz é o superlativo absoluto simples do contar com sujeito, predicado e complementos avulsos.
Até Júlio Dantas, um homem de postura ereta e bigode de pontas reviradas, na peça A Severa, menciona logo no primeiro ato: “Um café de lepes, na Mouraria, no topo da rua do Capelão, coito de boleeiros alquiladores, marchantes e galdranas.”
É verdade que ele nos direciona aos dicionários, mas a frase é gramaticalmente enxuta. Depois de alguns complementos de lugar, ele dispensa verbos e avança para os sujeitos que, de fato, se conectavam pouco a predicados. Basta nomeá-los e logo percebemos a ação que está em andamento.
Galdrana, você conhece a função? Alfredo Marceneiro, fadista e marceneiro, comentou em um fado sobre o dia da procissão da Senhora da Saúde:
Até a Rosa Maria
Da Rua do Capelão
Parece que tem virtude…
Na História do Fado, de 1903, Pinto de Carvalho, que por décadas se fez notar como Tinop nos jornais, também mencionou a figura. Não a efêmera virtuosa, não a borboleta breve em dia santo, mas aquela que se dedicava aos dias normais de trabalho.
“Uma cantárida da Rua do Capelão, a Rosa Maria, tinha um amásio, soldado artilheiro, que se escondia numa alcova do prostíbulo sórdido da megera, para atacar os pataus que ousavam aventurar-se ali.”
Essa é a vida como realmente é. Pode-se criticar, mas que magia de vocabulário.
Há uma foto da capela da Nossa Senhora da Saúde, que confere ao Martim Moniz um ar de estúdio cinematográfico. Os detalhes saltam aos olhos, como nos filmes de Sergio Leone. Se não há pistoleiros mexicanos, existem personagens solitários que emprestam o ar do tempo. A foto é antiga, mais do que um século, evidenciado pelos coadjuvantes que perambulam pelo adro, todos homens de chapéu de aba, incluindo o vendedor ambulante.
A simplicidade da capela, única com paredes brancas, está lá como que para ilustrar um ambiente de época. Uma fileira de prédios modestos, uma tabuleta no primeiro andar, “Barbeiro Coiffeur”, outra, “Café da Saúde”, de porta única e térrea, e tudo abafando a capela: as telhas de uma mansarda ameaçam saltar para o campanário. Outra utilidade da foto: a surpresa por haver um tempo, no início do século passado, em que a capela da Saúde era parte de uma vila medieval.
Outra foto, sessenta anos mais tarde, em 1958, já mostra a capela quase como a única inquilina do Martim Moniz. A imagem, de Judah Benoliel, talvez tirada do alto de um guindaste. Se tirada por um drone, ver-se-iam as consequências que um drone moderno normalmente registra: a praça devastada. Uma casinha branca em um campo aberto e esburacado, entre as obras do metropolitano, que se arrastaram dos fins dos anos 50 até quase a década de 1990. A estação seria chamada durante anos de Socorro. Com um ponto de exclamação, seria a imagem perfeita.

O Martim Moniz carrega um estigma: de ser julgado por quem está de fora. É um lugar, como toda a Mouraria, visto além da Cerca Fernandina. Isso implica um lugar “extramuros”, quintal, vilão, não cidadão, arrabalde, subúrbio. Em suma, na visão de quem manda, e em termos diretos: sub. Assim tem sido a visão do Martim Moniz. Desde que foi urbanizado no século XVII, o Martim Moniz (a Mouraria de baixo) foi um local marcado pelo estigma de ser “de fora” da cidade.
Entretanto, foi ali que ancorou a barca com as relíquias do corpo de São Vicente, trazidas do promontório de Sagres até o Tejo. Chegou pelos canais que cruzavam a Baixa, sempre acompanhada por dois corvos, até ao sopé da Mouraria, de onde subiu em procissão para a capela-mor da Sé em 1173 – palavras do Senhor José Augusto França (Lisboa – História Física e Moral).
Como pode o Martim Moniz, considerado periférico, ao receber São Vicente, ter dado origem ao Brasão Militar da cidade, a barca e os dois corvos?
E não é o único destaque do largo. Se a figura de Martim Moniz pode ser lenda e a iconografia de mártir tão atual, uma coisa é certa: entre o que se deve e o que se tem, ser vítima nunca é algo positivo. A imagem que Martim Moniz deixou, entalado em um portão, literalmente assegura que ele não fechou as portas. Ele permitiu que elas permanecessem abertas. Que ideia tão moderna e útil. O secretário-geral da ONU deveria relembrar, em conflitos modernos, o gesto do antigo compatriota.
Contemporâneo de Martim Moniz, o cruzado Osberno de Bawdsey, de Suffolk, Inglaterra, não é suspeito de lenda. Ele esteve presente no cerco de Lisboa em 1147 e deixou uma carta tão detalhada sobre a cidade que lhe dedicou uma “Rua do Cruzado Osberno”, em Chelas.
O cruzado inglês descreveu Lisboa em geral, notoriamente menciona Martim Moniz (o largo): “Nada há nela inculto ou estéril; antes os seus campos são bons para a cultura. Não fabricam o sal: escavam-no. É de tal modo abundante de figos que nós a custo podemos consumir uma parte deles. Até nas praças vicejam os pastos…”
Nunca o Turismo de Portugal nos vendeu tão bem.
Meio século depois, o terramoto de Lisboa dizimou mil fogos na freguesia que abrangia a Mouraria e o Martim Moniz. Partiram os artesãos chapeleiros franceses, mas galegos chegaram para a reconstrução. Não se contabilizou ainda a perda dos chapeleiros, mas esses galegos foram a primeira onda de uma comunidade que se tornaria significativa na cidade.
Martim Moniz insistiu em ser um lugar de população antiga, mas também de recém-chegados.

Por outro lado, esse aspecto rural sobreviveu até tarde. Norberto Araújo, um dos mais destacados estudiosos de Lisboa, nos ensinou que a rua do Benformoso, que parte (ou chega, ali é sempre assim) da praça Martim Moniz, tinha como nome antigo “rua do Boy Formoso”, uma homenagem a um animal que pastava por ali.
E Tinop recorda a horta das Atafonas, do Francisco da horta, “um tanque de lavadeiras, um poço com sua hora e jogos de malha e bola.” A horta “era frequentadíssima pela gente do sítio, ali se empinavam os copázios do tinto e se guitarreava para matar saudades.”
Fins do século XIX, bebiam, tocavam guitarra e iam buscar água ao poço – que civilização.
É verdade que os vícios também começaram a se urbanizar.
O Tinop, na História do Fado, descreveu as novas gentes. “A loja do barbeiro Longuinho na escada nº 30 – onde se fazia a barba encostando a cabeça à parede.” Que prudência reveladora… “A taberna do Avelino, onde ia apanhar sua moafa o Ângelo Cardona, dentista e barbeiro sangrador.” Podem temer os costumes, mas é encantador sentir que se escreve para nós, para que as palavras não desapareçam.
Defender os valores linguísticos e também preservar o gosto da língua: “Defronte do chafariz da Carreirinha do Socorro [hoje, rua Fernandes da Fonseca, que passa no Centro Comercial da Mouraria], a casa que abrigou a famosa tasca do João do Grão, onde se manipulava o delicioso prato da desfeita”. Bacalhau desfeito em lascas com grão-de-bico, polvilhado de colorau (segundo outra gloriosa memória de bom gosto, a de Ramalho Ortigão. Meu Deus. Foi ali que também se inventou a desfeita, como não amar o Martim Moniz e desejar mais?)
Já sabemos que um dia a capela da Senhora da Saúde ficou isolada de seus vizinhos, em uma praça transformada, durante décadas, em estaleiro e estacionamento precário. No próximo Fala-me de Ti, iremos explorar em detalhe os extensos pormenores que foram eliminados no Martim Moniz, entre 1946 e 1961.
Neste episódio, lembramos o ato cívico extraordinário de dois amantes de Lisboa que já conhecemos de outras andanças, Matos Sequeira e Luís Pastor de Macedo. Esses olisipógrafos, autores de A Nossa Lisboa, estavam cansados em 1945 das notícias e boatos sobre o iminente fim do Arco do Marquês do Alegrete. Este era uma das saídas e entradas da cidade, a venerável Porta da Mouraria, que respeitava a Muralha Fernandina na condição de passagem, retirando-lhe a de paragem. Sob o arco passavam “elétricos, automóveis, pessoas a pé, caminhões, caminhonetes, carros, carrinhas e carretas”, conforme o balanço da revista Olisipo, de abril de 1945.
Assim, os especialistas em antiguidades decidiram ir entrevistar o arco. Intitularam o texto Uma Entrevista com o Arco do Marquês do Alegrete, uma lição de modernidade e de respeito por Lisboa e seus habitantes, incluindo os arcos. Para compreender a justiça da causa, manter o arco vivo, bastava observar a aguarela de Roque Gameiro.

Quem não gostaria, atualmente, de estar no lugar do aguadeiro? Os dois foram até a casa do arco: “Estivemos lá ontem, em sua companhia. Ali na Mouraria.” O arco demonstrava “um ar de desânimo e de abandono de quem já conta com o fim.” Apesar da empatia, os entrevistadores explicaram ao entrevistado as razões do progresso: “O que se busca agora é espaço. Aquele automóvel – viu? – quase levou um pedaço dele.” Mas o arco, na sua lógica inocente, desmontou o argumento: “E para que vai ele tão depressa?”
Quando perguntado sobre a procissão da Saúde, o arco recordou os tempos antigos: “Fez-me saudades. Fiquei comovido ao ouvir que não me encostassem por causa da água que eu exalava. Não eram saudades. Eram lágrimas.”
Os sábios se foram, “roçando a mão pelo arco como uma forma de despedida.” Iam para o Rossio, e os “placards luminosos brilhando na escuridão” lhes pareceram “a Civilização que trabalhava, numa ironia, para a última porta da cidade, sua trágica sentença.” Estava tudo decidido, embora o arco ainda perdurasse até 1961.

Matos Sequeira faleceu no ano seguinte da entrevista e Pastor de Macedo dez anos depois. Não, não é verdade. Hoje, por 40 euros, posso adquirir, em um alfarrabista, que não despreze o exemplar, ou em leilão na internet, uma edição bem cuidada de A Nossa Lisboa. Com pouco custo, Matos Sequeira e Pastor de Macedo estão vivos em meu coração.
Já o arco do Palácio do Marquês do Alegrete foi demolido, reduzido a pó, para sempre. É essa a imensa perda que experimentei, sem “se” nem “mas”. Passo frequentemente pelo Martim Moniz, quero tocar aquela pedra, mesmo que seja só para me despedir, e agora não tenho onde fazer isso. Terminei.
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