O historiador Pedro Ramos Pinto, autor do livro “A cidade e a revolução”, argumenta que a democracia que surgiu após o 25 de Abril de 1974 tem se mantido “sempre bastante distante e desconfiada da participação das pessoas”.
“Não estou a falar apenas de governos e parlamentos; até mesmo as câmaras e instituições são muito fechadas, não têm conseguido, salvo raras e honrosas exceções, abrir e criar espaços de diálogo constante e participação com a população”, observou em uma conversa com a Lusa, referindo-se à sua obra A cidade e a revolução. Lutas urbanas em Lisboa 1974-1975 (publicada pela editora Tinta da China), já disponível nas livrarias.
Como professor de História Contemporânea na Universidade de Cambridge, Pedro Ramos Pinto tem se dedicado, na última década, a estudar desigualdades e lutas sociais, notando “um certo distanciamento e elitismo” por parte dos líderes do regime democrático ao longo dos últimos cinquenta anos.
Esse afastamento gerou “uma desconfiança muito grande sobre o sistema político e o sistema do Estado”, que acabou resultando na “crise da democracia que observamos atualmente”, pontuou, destacando também outros fatores, como as “desigualdades gritantes” e “uma sensação de impotência sobre o futuro”.
Nessa perspectiva, o historiador sugere uma “abertura em relação ao que as pessoas desejam, quais são as suas frustrações e esperanças”, propondo que se deixe de lado “o que o líder partidário x disse hoje sobre o líder partidário y” ou “o que comeu o primeiro-ministro ao pequeno-almoço”.
“Se conseguíssemos sair desse jogo e começássemos a olhar seriamente para o que as pessoas estão tentando realizar no dia a dia, como vivem suas vidas e quais são suas esperanças, acho que isso melhoraria a nossa democracia”, ele defende.
Para isso, é necessário, por exemplo, eliminar os “enormes obstáculos” que dificultam a participação cidadã, como os investimentos exigidos para que alguém se candidate a eleições de forma extrapartidária.
Ressaltando que não é “antipartidário”, Ramos Pinto observa que “os partidos, em geral, e isso é um problema em toda a Europa, têm se encerrado cada vez mais” e são hoje “muito centralizados”, apresentando “cada vez menos membros ativos” e representando os interesses de “cada vez mais pequenos grupos”.
O porta a porta — uma prática comum no Reino Unido, onde vive há anos — “não é apenas uma questão de tentar ganhar o voto naquele dia, mas também de manter uma relação próxima com as pessoas”.
A esfera política portuguesa “perdeu muito disso”, compara, observando que o Chega tem investido na sua presença local, especialmente fora das grandes cidades.
Assim, para combater a disseminação do discurso populista e de extrema-direita, é necessário “conhecer as pessoas” e “criar confiança no nível local”.
A questão da habitação é crucial nesse contexto, ele ressalta, lembrando que “há frustrações que são canalizadas e manipuladas para atacar a imigração”, resultantes da sensação de “ser escorraçado do seu próprio lugar, ao ver quem chega (…), quando, na verdade, a questão está relacionada ao preço das casas, à especulação imobiliária e à má gestão da cidade e da habitação”.
O livro de que é autor, que faz parte da coleção “O 25 de Abril visto de fora”, da Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril, resulta de um estudo sobre os movimentos sociais urbanos durante o período revolucionário.
Focando na participação em Lisboa, o historiador escolheu a habitação para examinar como as pessoas se mobilizaram “para reivindicar direitos”.
“A política é a comunidade, o bairro, a cidadania cotidiana”, elenca, citando como exemplo, durante o período revolucionário, as cooperativas do programa estatal de construção habitacional SAAL, conhecido por todos, quando o movimento de organização de comissões de moradores e assembleias locais “foi algo muito maior”, e o maior legado foi a união das pessoas em seus bairros, intervindo sobre eles.
Sentindo “uma certa frustração” por “grande parte” da pesquisa sobre a revolução portuguesa ser “uma história de elites”, tanto da esquerda quanto da direita, “muito focada em um grupo restrito de pessoas”, Ramos Pinto decidiu investigar “um momento extraordinário de participação popular” e compreender como isso foi possível.
“Em um país onde muitas vezes falamos de uma apatia histórica e de um ativismo tradicional, como é que, de repente, as pessoas saem à rua, discutem, agem e constroem o futuro, seja bem ou mal?”, questionou-se, recordando: “O dia 25 de Abril foi uma oportunidade, mas só temos a revolução porque há todo um crescente de contestação, mobilização e organização, no momento em que os capitães conseguem derrubar o regime”.
Atualmente, ele reconhece que “há uma compartimentalização da memória do período revolucionário”, reduzindo-a a “ativistas de esquerda radical”, quando “a participação foi transversal à sociedade portuguesa e veio da direita, da esquerda, do centro, de pessoas que não se viam politicamente em um grupo ou noutro, mas que participaram da maneira que queriam e podiam em todo o processo”.
Ramos Pinto afirma que a história dos movimentos sociais em Portugal desde 1974 demonstra um aumento da mobilização “cada vez mais desligada ou pelo menos autónoma e independente de partidos”, especialmente no século XXI, apontando como exemplos os movimentos Geração à Rasca e, atualmente, o direito à habitação.
“Quando as pessoas têm a oportunidade e são dadas condições para se expressarem, elas (…) têm um instinto bastante participativo e democrático”, acredita.
Através das redes sociais e de pequenas intervenções visíveis, os movimentos pela habitação “têm sido muito eficazes em colocar o tema na agenda do dia”, considera.
“Há uma nova crise habitacional”, embora com “contornos diferentes” da que se viveu nos anos 1960-70, período que seu livro aborda: atualmente, “os bairros de lata” na periferia de Lisboa “continuam a existir e se tornaram mais visíveis”, mas agora a habitação também se tornou “inacessível para grande parte da classe média”.









