Correspondência literária entre Lisboa e Maputo: a conexão entre os autores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive gerou uma coleção

Correspondência literária entre Lisboa e Maputo: a conexão entre os autores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive gerou uma coleção

Depois de um pequeno atraso para a entrevista, Eduardo Quive encontra-se com Ana Bárbara Pedrosa na esplanada. Era duas da tarde, a temperatura estava acima do normal para a primavera, e o Miradouro de São João de Alcântara fervilhava, com Lisboa exposta ao sol, brilhando sob nossos pés.

— Isto ainda me impressiona — comenta Eduardo, observando as mesas ao redor.
— O que é isso? — pergunta Ana Bárbara Pedrosa.
— A presença de mulheres com as pernas cruzadas em público.
— Hã?

Ana Bárbara observa suas próprias pernas, também cruzadas. Eduardo sorri e dá de ombros, como quem diz: “é verdade, o que se pode fazer?”

Em apenas dez segundos, a dupla encena, no palco improvisado da esplanada, um curioso e inusitado diálogo que eles mantêm desde janeiro, em trocas semanais de “cartas” entre Lisboa e Maputo, publicadas na Mensagem de Lisboa na crônica Maningue Giro.

Um intercâmbio de perspectivas cultivadas pela visão de uma portuguesa e um moçambicano, sobre dois mundos em continentes diferentes, backgrounds culturais diversos e duas realidades separadas por dez horas de voo, unidas pela mesma língua.

Esse diálogo, mediado pela língua portuguesa, aproxima Portugal de Moçambique, apesar – ou melhor, graças – às distinções entre os dois países, refletidas, por exemplo, na maneira como cruzam as pernas as mulheres.

Talvez para a geração Z e as seguintes seja difícil imaginar, mas não faz tanto tempo assim que as pessoas trocavam correspondências por meio de cartas. Sentavam-se diante de uma folha, escreviam, corrigiam, reescreviam, datavam, assinavam, dobravam o papel e colocavam em um envelope antes de saírem de casa para o correio.

Em algumas culturas, não tão primárias assim, havia ainda o ritual de uma insalubre lambida no selo para garantir que este grudasse no envelope.

Atualmente, em tempos em que o único remetente que nos escreve é alguém das Finanças e uma mensagem de e-mail chega em nanosegundos – e não em dias ou semanas – parece improvável retomar a prática de trocar cartas, revivendo digitalmente a rica tradição da literatura epistolar.

No caso em questão, entre Ana Bárbara e Eduardo, trata-se de uma literatura e-pistolar.

Uma amizade traduzida em palavras

A amizade entre Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive começou a florescer após duas visitas da escritora de Vizela, que reside em Lisboa desde 2012, a Maputo, a mais recente em 2024, quando foi selecionada para um intercâmbio financiado pela Câmara Municipal de Lisboa e o Centro Camões de Maputo.

Experiências que resultaram em crônicas também publicadas na Mensagem, entre 2024 e 2025.

No coração da capital moçambicana, Eduardo se transforma em um entusiasta guia turístico, acompanhando Ana Bárbara em incursões pela Maputo. Longos passeios e diálogos sobre meandros linguísticos, curiosidades da lusofonia e as divergências entre Portugal e Moçambique.

Essas conversas se mantiveram após o retorno de Ana Bárbara a Lisboa, por meio de mensagens no Whatsapp. Os diálogos presenciais em Maputo e as conversas virtuais se tornaram a matéria-prima para as cartas.

Ambos têm a intenção clara de mostrar que é possível reconhecer o outro pelo reflexo das diferenças.

“A ideia é quebrar certas barreiras que fazem com que as pessoas vejam o outro como uma estranheza. O que é diferente pode nos unir, pode ser o caminho para um relacionamento. Sem as diferenças, não teríamos nem tema para discutir”, explica Ana Bárbara Pedrosa.

Nunca antes Ana Bárbara e Eduardo tinham trocado cartas com outras pessoas. Esta experiência inédita se transforma para ambos em um exercício literário.

“E mais do que isso, é um exercício da lusofonia. A literatura ainda circula pouco entre Portugal e Moçambique, e as cartas sempre foram uma forma de aproximar lugares distantes. De unir o escritor ao leitor numa literatura em primeira mão”, salienta Eduardo Quive.

Uma prova da riqueza das diferenças lingüísticas é a influência de outras culturas sobre o idioma português; exemplo disso está no título da coluna, um misto do anglicismo “maningue”, de many – muitos – um calão criado por moçambicanos que emigraram para a África do Sul, com o termo lisboeta “giro”.

“Até hoje, nenhuma carta escrita pelo Quive trouxe todas as palavras que eu conheço”, afirma Ana Bárbara Pedrosa.

Eduardo sorri, mas enfatiza que as cartas não se restringem a detalhes de linguagem ou trivialidades. “Eu quero ser a pessoa que discute temas importantes.”

A abordagem desses assuntos significativos é envolta na informalidade dos diálogos epistolares. “A carta traz um tom informal, intimista, que nos permite discutir qualquer tema”, revela Ana Bárbara, acrescentando que planejam continuar a troca de cartas até, pelo menos, o final do ano.

Se haverá material suficiente para tanto?

“Assim como uma vida nunca tem fim, os assuntos nunca se esgotam”, garante Ana Bárbara Pedrosa.

Troca de cartas e também de livros

Além da correspondência, as conversas entre os dois escritores resultarão em dois livros. A publicação do primeiro romance de Eduardo Quive, A cor da tua sombra, em abril, foi a razão da segunda visita do moçambicano a Lisboa, que também proporcionou o encontro presencial entre os amigos.

“Durante um dos nossos passeios em Maputo, o Quive mencionou que estava escrevendo um romance. Após insistir, ele deixou que eu lesse o original e pensei imediatamente: ‘Isso precisa se tornar um livro’”, conta Ana Bárbara Pedrosa, editora da obra lançada pelo selo portuense Desmuro.

A cor da tua sombra distoa da narrativa geralmente consumida por leitores europeus da literatura africana, frequentemente girando em torno do fantástico e do imaginário, apresentando um drama familiar sob a perspectiva de duas personagens, um homem e uma mulher.

A visita da portuguesa a Maputo também resultará em um livro, a novela gráfica Vila Algarve, título que alude a um dos locais “turísticos” visitados pela dupla na capital moçambicana.

“A Vila Algarve é um imenso recinto murado, de acesso proibido para os moçambicanos. Nenhum moçambicano se questiona sobre a razão, apenas pensam ‘é proibido lá estar’, mas Ana Bárbara não hesitou em encontrar um buraco no muro e entrar”, conta Eduardo.

Ainda sem data de publicação, o segredo por trás dos muros da Vila Algarve ficará guardado, mas até lá, já é possível começar a ler a primeira incursão de Ana Bárbara Pedrosa na banda desenhada, com o lançamento de Vizinhos (ASA) previsto para 12 de maio, com ilustrações de Nuno Saraiva, com quem colaborou em suas primeiras crônicas na Mensagem.

“São quatro histórias sobre vizinhos em Portugal. Uma nova experiência como escritora, pois a banda desenhada é distinta de um livro, sendo uma criação literária mais imagética e sensorial”, explica Ana Bárbara Pedrosa.

Cartas, livros e a riqueza do encontro entre culturas aparentemente distintas, traduzidas em palavras que provam que o diferente pode ser, de fato, muito giro.

Maningue giro.

Fotografias de Margarida Filipe

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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