Assim que o cliente entra no salão, o funcionário por trás do balcão não hesita. “O senhor Luís prefere sentar aqui ou talvez ali?”, pergunta, guiando-o para a mesa. Um segundo cliente chega e, sem precisar de palavras, o funcionário já antecipa seu pedido, chamando a empregada na cafeteira: “um café para o senhor engenheiro!”.
O ponteiro do antigo relógio na parede continua sua rotina marcada pelos segundos, sinalizando a hora do almoço, enquanto o fluxo no café é incessante. Cada nova entrada é recebida com reconhecimento, nome e preferência: “bebes vinho ou água, Ricardo?”, “António, há um espaço no balcão para a sopa!” ou ainda “um cafezinho, senhor Moreira?”.
No Jacaré Paguá, possivelmente o último café de bairro da Avenida de Roma, o atendimento personalizado é uma tradição. Cada cliente tem o rosto, o nome e o gosto guardados na memória de António e Celestino Varela, pai e filho que administram a pastelaria há 30 anos, nutrindo não apenas a fome dos vizinhos, mas também o espírito comunitário em Alvalade.
“Aqui, 90% dos clientes são os mesmos todos os dias”, assegura António Varela, 79 anos, natural de Santa Comba Dão e lisboeta desde 1971, quando iniciou sua trajetória no setor de alimentação. Naquela época, ele era sócio de um primo em um negócio ainda ativo na Alameda, que curiosamente também faz referência a um local no Rio de Janeiro: a pastelaria Pão de Açúcar.
Quando, em 1985, adquiriu o restaurante de antigos proprietários que viveram no Brasil, o café já se chamava Jacaré Paguá, assim, com o jacaré separado do paguá, em contraste com a versão original em tupi-guarani jacarepaguá, que significa “lagoa rasa dos jacarés”.
A familiaridade com o nome vem de sua paixão pela Fórmula 1. “Eu era fã do Ayrton Senna. Assistia a todas as corridas, mas depois daquela tragédia, perdi o gosto”, recorda António sobre o trágico acidente de Senna na Curva Tamburello em 1994.
A decisão de alterar a grafia do café mantendo Jacaré e Paguá separados foi uma questão de praticidade. “Era um nome muito longo para constar em um contrato”, explica. Essa mudança facilitou a vida dos clientes, que costumam se referir ao espaço simplesmente como “vamos ao Jacaré?” ou “vou ao senhor António” e, entre os jovens, “que tal uma mini no Celestino?”.
Assim, no Jacaré Paguá, cada cliente é chamado pelo nome, e o café é reconhecido através dos proprietários. Um reflexo da intimidade, quase familiaridade, num cenário que se torna cada vez mais raro.
Uma segunda casa para os clientes
Celestino observa um jovem entrar pela porta do número 76D da Avenida de Roma e, sem nenhum diálogo, deixa o balcão para buscar um pesado aquecedor no depósito. Retorna com a caixa, mostrando o esforço ao subir as escadas.
Não, o Jacaré Paguá não vende eletrodomésticos.
“Os vizinhos costumam dar o nosso endereço para as entregas, pois nunca estão em casa”, explica Celestino, recuperando o fôlego. “Outro dia, recebi uma TV de 50 polegadas”, complementa.
Diferente de outros estabelecimentos que têm acordos com serviços de venda online, a pastelaria de António e Celestino não recebe nada em troca por esse “serviço”. Agradecimento é um simples cheio e uma nata. “Somos como uma segunda casa para os vizinhos”, resume.
A “família” do Jacaré Paguá, composta por António, Tatiana, Carina, Fátima e Celestino, dá as boas-vindas aos primeiros clientes da manhã, criando uma dinâmica ecológica entre os funcionários dos bancos de terno e os uniformes vibrantes dos empregados da junta. Há também leitores da malta da escola, diretores, professores e alunos da Rainha Dona Leonor nas proximidades.
O patriarca António tem consciência da importância de abrir à hora certa e, às quatro e meia da manhã, já está a postos. “Gosto de fazer tudo com calma e bem feito. Para que tudo esteja pronto às sete, leva tempo”, diz, habilmente organizando o balcão repleto.
Esse “tudo” inclui uma impressionante variedade de salgados e doces: chamuças, empadas, rissóis, croquetes, coxinhas, croissants, pastéis de bacalhau, bem como natas, queijadas, queques, cookies, brigadeiros e mil-folhas.
Entre as opções, a joia da coroa é o bolo-rei, mas não um bolo-rei qualquer. “Esse é o primeiro bolo-rei bebé de Lisboa”, afirma António, exibindo a iguaria que cabe na palma da mão, emoldurada como uma preciosidade no café.
O bolo-rei bebé foi o original, criado por um ex-gerente da casa em 1990, um marco que inspirou outras pastelarias em Lisboa. Embora não esteja disponível o ano todo, durante o Natal ele retorna ao balcão.
Trinta anos depois, o bolo-rei bebé original permanece em perfeito estado, como se tivesse acabado de sair do forno.
As chaves das casas dos vizinhos
Com a aproximação do meio-dia, o senhor António e seu filho Celestino trocam de turnos no balcão do Jacaré, marcando a mudança na clientela, que agora inclui aposentados do bairro para o almoço.
Gerentes, advogados, funcionários públicos que buscam a companhia de outros vizinhos e uma refeição quente para vencer a solidão. Alguns, devido a problemas de saúde, não podem mais frequentar o café.
“Seis ou sete vizinhos nos ligam daily para que levemos a refeição”, explica Celestino.
Esse cuidado se reflete também na caixa de madeira abaixo do balcão, que abriga as chaves das casas dos clientes. “Muitos deixam as chaves aqui quando viajam, para o caso de emergências, como um vazamento”, explica Celestino.
“Outros as deixam para não esquecer em casa”, completa.
O ocorrido também se inverte: “Quando um cliente fiel não aparece, os filhos ligam para justificar a ausência, nos deixando tranquilos”, brinca Celestino.
Refúgio na solidão do apagão
Com o término do almoço, Celestino assume o controle do balcão. É hora do sol iluminar a esplanada e os rostos conhecidos do terceiro turno que se acomodam no passeio.
Esse é o momento das famílias, que param para um café ou um sumo após buscar os filhos na escola. Cães esperam por afagos, enquanto outros lêem jornais em papel.
Por volta das cinco, Celestino começa a receber os clientes que saíram do trabalho para o happy hour. É uma atmosfera descontraída, onde comentários sobre futebol e pequenas conversas permeiam o ar. O Jacaré Paguá transforma-se em uma agradável tasca, embora Celestino evite esse rótulo. No entanto, é inegável que é um espaço familiar.
O local ganhou notoriedade durante um apagão que atingiu Lisboa e a Península Ibérica em abril de 2025. Enquanto outros estabelecimentos fecharam, António e Celestino acolheram todos, mesmo aqueles sem dinheiro, permitindo que comessem e pagassem depois.
“Foi curioso ver o pessoal da banca sem dinheiro devido ao apagão. Muitos afirmaram que, se não fosse o Jacaré, teriam passado fome”, relembra Celestino.
Em um momento repleto de incertezas, o balcão do Jacaré Paguá sempre estava cheio, reunindo conhecidos e estranhos em busca de abrigo. Quando a noite chegou e a escuridão se instalou, todos permaneceram do lado de fora do Jacaré, reunidos como uma comunidade. Apenas quando a energia retornou foi que puderam voltar para suas casas, certos de que sempre há um refugio próximo onde se sentem em casa.









