O encenador João Mota recorda que foi o próprio Ionesco que classificou As Cadeiras, uma peça escrita entre 1950 e 1951, como uma “farsa trágica”. A interpretação gira em torno de um casal idoso (Manuel Coelho e Custódia Gallego) que aguarda a morte numa sala vazia, tentando contornar a solidão e o tempo por meio de memórias nebulosas de viagens a uma Paris há muito perdida, imitações dos meses do ano através de mímicas, e até mesmo a evocação de um filho cuja existência permanece incerta.
Sabendo que ele, a quem carinhosamente se refere como “queridinho”, possui uma importante mensagem para a humanidade, o casal decide organizar uma conferência. Nesse evento, o Velho (Manuel Coelho) irá, através de um Orador contratado (João Mota/Carlos Paulo), comunicar um mensagem que se revelará crucial para toda a humanidade.
Com o cair da noite, os convidados, que nunca são vistos pelo público, começam a chegar. Enquanto dialogam brevemente com os visitantes, o Velho e a Velha (como Ionesco os define) se envolvem em uma correria para arrumar cadeiras. A sala de estar, até então quase vazia, se enche rapidamente, e mesmo assim, entre cada toque de campainha, há tempo para flertar com uma antiga paixão, pedir postura a um militar, ou até mesmo para momentos de intimidade. Tudo isso evoca a fisicalidade e os absurdos da slapstick comedy.
No entanto, a excitação do momento cede lugar à confusão e, consequentemente, ao desespero. O Orador atrasa-se, e o discurso do Velho torna-se cada vez mais sombrio e grave, enquanto a Velha, quase como um eco do marido, antecipa um desfecho que claramente se apresenta como trágico.
“Estes dois personagens simbolizam o homem perdido no vazio da angústia e da solidão”, observa João Mota, lembrando o contexto em que a peça foi escrita. “Era um período de reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial, uma recuperação que não era só material, após tantas cidades destruídas, mas principalmente humana e ideológica.”
As Cadeiras estreou em 1952 em Paris, onde foi inicialmente um fracasso, mas, com o passar dos anos, tornou-se uma das obras de maior sucesso de Ionesco. Tal como em outras de suas peças, neste trabalho o absurdo se entrelaça em um excesso crescente e uma crescente sensação de claustrofobia se apodera do cenário.
Neste retorno da Comuna ao teatro do absurdo e à obra de Ionesco (a companhia já havia produzido, em 2010, O Rei está a Morrer, com uma interpretação marcante de Carlos Paulo), o encenador procura “traduzir neste espetáculo o vazio existencial humano”, percebendo que o mundo atual revela “paralelismos inquietantes com a época em que foi escrita”. Contudo, esta peça contém mais do que isso. No discurso dos protagonistas, diante do medo do mundo exterior e da inevitável chegada da morte, ainda pairam a vida e as memórias “da infância, dos amores e dos ódios, dos sonhos e dos fracassos, das suas contradições”. Lá fora, um apocalipse se desenha, temos medo, mas o coração ainda pulsa.
Até 31 de maio, no Teatro da Comuna.








