Max Beerbohm (1872-1956) foi um ensaísta, parodista e caricaturista inglês conhecido pela perspicácia e inteligência do seu humor. Virginia Woolf descreveu-o como “o príncipe da sua profissão”. Neste texto singular, a realidade é sugerida pelo narrador, que é o próprio Max Beerbohm, e que começa a narrativa na companhia do pintor William Rothenstein, uma figura real. Dentre esses dois homens autênticos, surge Enoch Soames, um escritor ignorado pela crítica e leitores. Considerando-se um gênio, Soames faz um pacto com o diabo para descobrir o que a posteridade dirá sobre ele, apenas para enfrentar a humilhante decepção de ser visto como uma mera invenção de Beerbohm. A obra, cheia de delícias, questiona habilmente os limites entre realidade e ficção. Terá Enoch Soames existência física e humana fora do mundo de Beerbohm, ou apenas pertence à realidade fictícia do autor? Terá Beerbohm a capacidade de imaginar um personagem fazendo-o parecer real, ou de transformar um personagem real em alguém fictício? Para adicionar ao mistério, a capa do livro reproduz um retrato (imaginário?) de Enoch Soames, criado pelo próprio Max Beerbohm, onde ele é representado com um pequeno chapéu e “a gabardina que em nenhum lugar e em nenhuma estação dispensava”.
Entra-se na Casa pelo Pátio, de Carla Louro, conquistou unanimemente a primeira edição do Prêmio de Poesia Nuno Júdice. Este volume poético, de grande sensibilidade, explora a intimidade feminina, com versos que se relacionam a três temas centrais. Primeiramente, a própria criação literária e a arte de escrever poesia, associando o ato da escrita visualmente à ideia de linha (“os poemas são letras são letras em linhas / com espaços entre elas”): linha de letras, linha de costura (“o meu avô era alfaiate”), linha de novelo (a avó tecia tapetes), e as linhas paralelas de um caderno. Em segundo lugar, a casa como um espaço de intimidade e criação (“foram sempre as palavras que construíram todas as casas onde vivi”). Por fim, o tema da memória entrelaçado com os anteriores (“comecei a ler-te por causa do mundo / da memória do mundo da memória das coisas”), (“as casas são como os nossos corpos / cada parte uma memória cada órgão uma função”). Entramos na casa de Carla Louro pelo pátio e descobrimos o espaço interior da poeta que escreve: “gosto do som que as palavras deixam nas folhas / e do espaço em branco onde faço a prova dos versos”.
Um caçador perdido em um bosque sagrado encontra uma pintura que ilustra uma história de amor. Este romance bucólico, uma das primeiras obras de ficção em prosa da literatura ocidental, descreve a paixão entre dois adolescentes: Dâfnis e Cloé. Ambos abandonados ao nascer na natureza, foram salvos por uma cabra e uma ovelha que os amamentaram até serem adotados pelos respectivos pastores. Sobre o autor, Longo, pouco se sabe. Duarte Venâncio dos Anjos, tradutor e autor do posfácio e das notas desta edição, menciona que “alguns estudiosos inferem que era natural da ilha de Lesbos, pois o apelido Longus era comum nesta ilha do Mar Jônico na época imperial”. Teria sido “um romano vivendo em Lesbos” ou oriundo de “uma família grega romanizada”? O ano de 220 d.C. é apontado como a data mais provável da escrita desta obra. Desde a sua criação, Dâfnis e Cloé “tornou-se uma fonte inesgotável de inspiração”. Na literatura: Shakespeare, Colette, Mishima, Aquilino Ribeiro. Na pintura e escultura: Boucher, Corot, Millet, Rodin, Bonnard, Miró, Chagall, e Aristide Maillol, cujas belas ilustrações em gravura adornam esta edição. Na música (Ravel), no cinema (Oréstis Láskos), e até na moda (Karl Lagerfeld). Esta primeira tradução em Portugal do original grego antigo, em uma edição de grande rigor gráfico, apresenta uma obra-prima de fascínio universal e atemporal.
Tito Andrónico é a primeira das tragédias escritas por William Shakespeare (1564-1616). Baseada no drama da Roma Antiga e nas ferozes lutas pelo poder, tem Sêneca como fonte principal. A peça sugere os grandes textos da plena maturidade do autor, podendo ser considerada uma versão embrionária das futuras obras-primas. A combinação da astuciosa falsa loucura de Tito, com certo grau de insanidade real, estabelece um paralelo com Hamlet. Essa caracterização é incipiente, não atingindo o mesmo nível de sutileza e profundidade. Antecede também Othello, poderoso líder militar, que, em seu íntimo, é facilmente manipulável. Tal como o Rei Lear, comete erros (crimes) em nome da honra, mas, ao contrário dele, não possui capacidade ou grandeza para admitir tais atos. O mouro Arão prefigura os paradigmas de maldade que serão Iago e Ricardo III. Na estreia, cerca de 1590, a tragédia mais crua e sangrenta do dramaturgo alcançou sucesso e estabeleceu Shakespeare entre os principais autores de sua época. A obra revela, pela primeira vez, a preocupação do autor com a ética política, introduzindo dois temas recorrentes em suas peças históricas: a questão da sucessão ao trono e a restauração da ordem após sua ruptura causada pelas fraquezas humanas. A tradução e a introdução da presente edição são de Miguel Romeira.
Frequentador dos meios liberais, Fiódor Dostoievski (1821-1881) foi acusado de conspiração contra o Estado Russo e condenado à morte em 1849. Após a comutação da pena, foi deportado para a Sibéria por quatro anos. Ao retornar a São Petersburgo, iniciou uma produção literária abundante e viu sua fama se expandir rapidamente. No entanto, viveu uma existência precária marcada pelo vício do jogo e crises de epilepsia. O grande escritor transformou, de forma pioneira, o inconsciente das personagens e sua relação com Deus em motores principais da narrativa. O Jogador, publicado em 1866, é um romance com fortes elementos autobiográficos. Narra, em um estilo torturado e febril, por vezes quase satírico, a experiência de Aleksei, um jovem que pertence ao séquito de um general russo instalado na cidade fictícia de Roletenburgo, na Alemanha, em meio a um ambiente de cassinos. À espera de uma herança que não chega, tenta a sorte na roleta e envolve-se com um grupo de personagens ligadas pela avareza, ambição, fracasso, vício e compulsão pelo jogo, enquanto estabelece uma relação complexa de amor/ódio com Polina, a enteada do general. A tradução é de António Pescada.
“Não será bom que alguns viajem para dentro enquanto outros se preocupam com melhorar o mundo? Não é a diversidade que faz a civilização?” June e Bernard Tremaine casaram-se em 1946. Sempre que falavam do mundo além de si mesmos, referiam-se ao comunismo. Nesse contexto, com a expectativa de um mundo saudável e justo, sem guerra nem opressão, abandonaram seus empregos e se sentiram livres para declarar suas lealdades: filiaram-se ao Partido Comunista da Grã-Bretanha, numa atitude que consideravam inteligente e ousada. Enquanto Bernard manteve sua filiação até a invasão soviética da Hungria em 1956, a filiação de June durou apenas alguns meses, findando em um confronto que ocorreu durante a lua de mel, que dá título a esta narrativa. Vivendo uma utopia particular, logo June e Bernard começaram a enxergar o mundo de maneiras diferentes e a impacientar-se um com o outro. Durante uma caminhada, June avista dois cães que trazem sentido à sua existência, marcando o início de uma discórdia que perduraria para sempre: “se um cão era uma depressão pessoal, dois cães eram uma espécie de depressão cultural, os piores estados de espírito da civilização”. “Convencida da existência do mal e de Deus, e certa de que ambos eram incompatíveis com o comunismo, descobriu que não conseguia persuadir Bernard nem abrir mão dele.” Simbolizando os resquícios do nazismo, os cães representam a presença do “mal” no mundo contemporâneo, “…de onde voltarão para nos perseguir e atormentar, em alguma parte da Europa, em outro tempo”.
Quando o mundo dorme transita entre o documental, o teórico e o confessional. A grande riqueza de um livro tão urgente quanto esse reside no último aspecto, o mais íntimo e pessoal, onde Francesca Albanese, reconhecida como Relatora Especial das Nações Unidas para os territórios palestinianos ocupados, se assume, além de jurista e especialista em direitos humanos, como mãe e cidadã. Um trecho impactante é narrado a partir de uma praia no sul da Itália, durante férias em família que a autora frequentemente interrompia para entrevistar online crianças da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, mesmo antes dos eventos de 7 de outubro de 2023. Albanese é surpreendida pela estrutura do discurso e pela pertinência dos argumentos utilizados pelos seus entrevistados, percebendo que, longe de qualquer tipo prévio de construção retórica, “enquanto meu filho de oito anos deve se preocupar em memorizar a tabuada, as crianças palestinianas se apropriam da linguagem jurídica como um manifesto para reivindicar a própria existência, a própria humanidade.” Como nota a poetisa palestiniana Shahd Wadi na introdução da edição portuguesa, este é, portanto, um livro “escrito a partir de um conhecimento profundo da questão palestiniana, com olhar crítico, consciência ética e amor”. Em especial, amor, esse feroz combatente “à nossa indiferença”, que, segundo a autora, continua a produzir monstros enquanto dormimos.
Inspirada na vida de Catalina Erauso, conhecida como a “Freira Alferes”, Gabriela Cabezón Cámara reconta a história dessa figura espanhola do século XVII que fugiu de um convento, viveu como homem, viajou por Espanha e lutou como soldado na conquista das Américas. Condenado à forca, Antonio de Erauso, uma das identidades que adotou, faz uma promessa à Virgem do laranjal e liberta duas meninas índias do domínio espanhol, escondendo-se na selva. É na companhia de Michi e Mitãkuña, dois macacos, uma cadela e dois cavalos, embalado por cantos que lhe chegam de longe, que começa a escrever uma longa carta à sua tia, prioresa do convento do qual escapou. “Quero contar-te, para começar, de onde te estou a escrever: desta selva, que é, para mim, uma espera. Estou à espera, tia. De sair vivo, claro; porém, sair para onde, para quê. Esta selva é imensa, é um mundo dentro do mundo.” A escrita da carta é interrompida pelas vozes das duas meninas, que questionam Antonio sobre os mais diversos assuntos, mostrando os dois lados do protagonista, Catalina/Antonio. Com a sensibilidade poética que caracteriza a escrita de Gabriela Cabezón Cámara, esta é uma obra que aborda a colonização, a transformação, a identidade de gênero e a relação do homem com a natureza. Romance que foi distinguido com o National Book Award para Literatura Traduzida, em 2025.
Fahrenheit 451 é o único grande romance distópico do século XX escrito por um autor de ficção científica. Admirável Mundo Novo, 1984, e A História de uma Serva surgiram da pena de escritores “mainstream”: Aldous Huxley, George Orwell e Margaret Atwood, respectivamente. Em uma sociedade futura fundamentada no prazer, no entretenimento, na excitação e no esquecimento, os bombeiros ateiam fogo, em vez de apagarem: destroem livros proibidos e casas onde estão escondidos. Montag, um desses bombeiros, cruza-se acidentalmente com uma jovem que lhe fala da memória de um passado diferente. De repente, ele percebe que vive em uma comunidade onde as pessoas se limitam “a dizer coisas” e os livros são proibidos porque “falam sobre o sentido das coisas”. Montague decide então trilhar o caminho da dissensão. Esta obra profética é também uma eloquente homenagem ao poder transformador da literatura e ao livro como “peça feita da costura de vários bocados do universo”. O rigoroso escritor Kingsley Amis, crítico implacável das convenções sociais, considerava Fahrenheit 451 “o inferno conformista mais habilmente construído de toda a ficção científica”.









