“Não há anões, nem elfos, nem trolls”, ouvimos ao início da peça. E, no entanto, ali busca-se um monstro, uma monstruosidade qualquer que possa oferecer a melhor história já contada. Para “criar impacto”, para proporcionar a “sensação de empatia e destino partilhado” a quem a ouve. Afinal, para “mudar o mundo”. Em Os Antípodes, peça da dramaturga norte-americana Annie Baker, um grupo de escritores se senta à mesa – sete homens, um deles o chefe, e duas mulheres, uma delas a secretária – pagos para, juntos, criarem essa história excepcional.
Para atingir esse objetivo, eles começam a cavar em suas vidas pessoais, desde as primeiras experiências sexuais até os piores acontecimentos e seus maiores arrependimentos. Logo surgem os constrangimentos, os incômodos e os embaraços, enquanto uma toxicidade crescente se espalha pela sala. Não demora até que esses encontros culminem em uma distopia cada vez mais evidente, recheada de machismo, egoísmo, narcisismo e muitos outros ismos que parecem estar na moda atualmente.
“O tema central das histórias é constantemente interrompido pelo absurdo nas palavras e nas imagens que sugere”, observa João Pedro Mamede, que dirige o espetáculo com Os Possessos e o apresenta no TBA – Teatro do Bairro Alto, entre 7 e 16 de maio. “O que nos interessou mais foi a peça ser tão desigual e desequilibrada, e isso, de certa forma, responder aos tempos difíceis que vivemos agora. Está se tornando mais deformada, mais monstruosa.”
Assim como nas noites de Xerazade, as histórias vão se sucedendo à volta da mesa. Mas será que essas narrativas os salvarão? Será que, como relembra Sandy, o líder desse grupo, o que estão fazendo é importante? Ele fala, em tom de discurso: “Precisamos de histórias. Nós, enquanto cultura. É para isso que vivemos. Estes são tempos sombrios. As histórias são um pouco de luz que podemos segurar nas palmas das mãos como velas sagradas para nos guiarem para fora da floresta. Cada um de vocês já foi transformado por uma história em algum momento da vida, ou não estariam aqui, certo? Lembrem-se de quando eram pequenos e uma história mudou a vida de vocês. Façam isso agora mesmo. As histórias que criamos ensinam as pessoas a entenderem o que é ser outra pessoa em um nível visceral. Como contadores de histórias, sabemos como mudar a perspectiva e dar voz a diferentes pontos de vista. Imaginem o que aconteceria se todos neste mundo pudessem, de vez em quando, fazer o que nós já fazemos todos os dias. Seria revolucionário.”
O problema é que lá fora há tempestade e, mesmo que se afirme que dentro daquela sala nada pode ser ouvido, o barulho parece teimar em entrar. Os monstros procurados não estarão longe, alimentados por água com gás, smart food e maçãs verdes. “Alguma coisa está tão errada no funcionamento deste coletivo que nunca poderá sair daqui uma qualquer redenção”, observa João Pedro Mamede. Que histórias ainda restam para contar? E se continuarmos a contá-las, vamos sobreviver ou cair em um abismo ainda maior?









