Os portugueses permanecem enclausurados em casa, com as persianas fechadas, afirma Zé ao sair do Pentagon, com a lucidez dos profetas de Lisboa. Serão vestígios da salazarice?, pondero enquanto percorro o caminho entre a costa do lagarto e o caracol da Penha, até chegar ao parêntesis da Almirante Reis, ali, na Alameda, que divide o norte do sul da Avenida, entre a Fonte Luminosa e o Instituto Técnico, entre esses dois enormes edifícios construídos pelo respeitado professor, cada vez mais apreciado pelas gerações que esqueceram o pão vazio com sardinha. E, enquanto observo as tristes varandas ao meu redor, a afirmação de Zé ecoa mais intensamente dentro de mim, como se o chão tremesse e retornássemos aos inocentes dias de 1755.
Decido partir, mas é Julho que continua partido, e nossa cidade permanece suspensa na expressão angelical de seu próprio desejo, amparada pelas asas do realizador alemão que sobrevoa Lisboa, como se a capital necessitasse de seus Anjos e não estivesse se preparando para um voo solitário, frequentemente observado nesses meses abafados. A cidade se sufoca enquanto o tempo sorri para os pequenos como A., que, balançando-se em seu carrinho, ajeito o chapéu ao sol, e seguimos por uma artéria sempre frenética. Navegamos como se estivéssemos em um antigo filme do cinema Rex. Que personagem poderia eu ser nesta Lisboa de plateia vazia, esquecida de seus protagonistas e com legendas em idiomas estrangeiros? A tela capital se esvai como uma memória em fade out até os créditos finais de Setembro.
A Almirante Reis desempenha seu papel, espinha cravada na garganta da cidade, que se curva diante do cineasta estrangeiro.
A Almirante Reis desempenha seu papel, espinha cravada na garganta da cidade curvada perante o realizador estrangeiro. O corredor onde Lisboa é atravessada por pessoas que cozinham com janelas abertas, que telefonam para longe com o smartphone junto ao coração, que vivem sem estores, sem escuridão, sem medo de perder, mesmo dentro de quartos refrigerados por cortinas pornográficas.
Nas esplanadas com copos pequenos e pratos minimalistas, os rostos comedidos e saudáveis sorriem airbniénbiamente, enquanto degustam coquetéis artesanais e petiscos carregados de queijo da serra, brincando de Óbrigádow. Até conheço esse lugar. De calções e chinelos, esforço-me para arranhar “Teşekkürler”, “Tak” ou “Mas” e entre os locals very typical, enquanto tentam sobreviver na própria cidade, esses bem-educados convidados, meros figurantes da cerimônia, sorrindo e acenando, tentando explicar-se com o golpe do Google Maps.
Sou sempre visto como um estrangeiro na cidade onde nasci, a que Saint-Exupéry chamou de “paraíso claro e triste”. Começo a acreditar que aqui não sou desejado, enquanto o pequeno A. aponta com a perna para um movimento aceleracionista. Avançamos. Olho para a lua cheia e suas estrelas nuas, harém noturno, abaixo a guarda e tropeço em um amigo alfarrabista no jardim, que traz uma camisa com cheiro a saudade constantina, ah, os bons velhos tempos, sugere-me as obras de António Ferro, os manuais escolares da Mocidade, que andam esgotados, era de outra qualidade, pá. Na esplanada do quiosque, um imigrante lê, absorto, um livro amarelo com a bandeira portuguesa. Título: Os Portugueses. Vejo-me refletido naquela capa, assim como em Memórias da Plantação de Grada Kilomba. Que serei eu? E tu? Que seremos nós neste movimento perpétuo a soluçar por pulsões de crescimento obrigatório? A cidade perdida em suas curiosidades vãs nunca se deixará conhecer.
(O caixote do lixo desapareceu. A vizinha do último andar, porteira não oficial, tem uma certeza:
Foram os bárbaros do prédio ao lado.
Pergunto como sabe. Ela suspira, como quem não precisa de explicar que os grelos são verdes:
Dizem que foi para esconder droga, guardam o contentor dentro de casa. Aquilo é um curral.)
Suspenso, voo para outro tempo. Lisboa, outro século, anos trinta. Uma no cravo, outra na ditadura.
Na Alemanha, nesse mesmo ano, diziam sobre os bárbaros palavras gémeas: São diferentes, são muitos, ocupam, abusam, roubam. Com o mesmo tom banal, esqueço a voz que ouço, fixo-me no rosto da vizinha e penso que tudo que é humano é belo.
Na maternidade, antes de o pequeno A. nascer, ouvi da doutora M.: Os bárbaros chegam ao aeroporto e querem logo o parto marcado. É para entrarem no nosso sistema, está visto.
Tatuo num sussurro o pensamento: Cuidado com quem odeias. Pode acabar sendo alguém que amas.
Texto com revisão de Tiago Leão
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