Tive a oportunidade de visitar Veneza em 1989 e, de forma inesperada, retornei por dois dias em 2025. Desta vez, a visita ocorreu apenas dois dias antes do Carnaval, enquanto a viagem anterior ocorreu em setembro, longe da agitação do Carnaval, em uma época em que o sobreturismo já começava a afetar intensamente os principais destinos na Europa.
A minha visita foi marcada por um dilema interno: de um lado, desejo da minha família de conhecer a cidade; do outro, um sentimento de culpa por contribuir para aquilo que está a destruir a “sereníssima” capital do Adriático. No entanto, não sou radicalmente oposto à indústria do turismo, nem ao chamado “turismo de massas”, que, com a queda dos custos das viagens aéreas e certas opções de hospedagem, tornou acessíveis destinos que antes eram inviáveis para a maioria.
Acredito na viabilidade de um Turismo Sustentável por meio de regulamentações que controlem o excesso de turistas e estabeleçam medidas adequadas de gestão.
O verdadeiro problema de Veneza não reside na presença do turismo, mas sim na saturação do fluxo turístico. Em 2023, a cidade recebeu mais de 5,7 milhões de turistas, um aumento de 119,1% em relação ao ano anterior, superando assim o pico de visitantes pré-pandemia, que foi de 5,5 milhões em 2019.
Os impactos dessa pressão turística na cidade são evidentes:
1. Durante o Carnaval, estima-se que a cidade receba cerca de 3 milhões de visitantes em apenas alguns dias, quase o mesmo que durante todo o restante do ano. Apesar dessa concentração massiva de turistas, notavelmente, não há uma infraestrutura adequada de gestão de resíduos, como uma extensa rede de lixeiras ou ecopontos. A coleta de lixo na cidade é feita por pequenas carrinhas que transportam os resíduos para embarcações que navegam os canais. As lojas e restaurantes não possuem contentores visíveis; os resíduos são recolhidos em sacos pretos por funcionários da autarquia em horários previamente acordados.
2. Com uma área histórica de pouco mais de 3 km², os 5,7 milhões de turistas anuais representam uma pressão exorbitante sobre os transportes públicos, que em Veneza consistem basicamente em barcos operados pela “Azienda del Consorzio Trasporti Veneziano”. Durante o Carnaval, essa sobrecarga é particularmente intensa, levando a polícia local a organizar o fluxo de pedestres, o que pode gerar situações perigosas em caso de distúrbios públicos.
3. No geral, Veneza está muito saturada de turistas, e as visitas durante o Carnaval não são recomendadas, considerando tanto os riscos envolvidos quanto o fato de não serem a melhor época para explorar a cidade. Recentemente, foi anunciada uma limitação aos grupos turísticos, restringindo-os a 25 pessoas e proibindo o uso de altifalantes por guias turísticos. Embora a taxa turística tenha sido aumentada para 10 euros, essas medidas têm tido pouco impacto, pois milhões de visitantes continuam a chegar, sobrecarregando a infraestrutura e encarecendo a habitação.
4. O alto número de turistas provoca desgaste em monumentos históricos, como as pontes de Veneza, que é mensurado com sensores de pressão e vibração, bem como por meio de tecnologias como LIDAR, que permite um mapeamento preciso das superfícies e do desgaste ao longo do tempo. Essas mesmas tecnologias deveriam ser aplicadas em Lisboa.
5. A pressão turística na cidade também afeta o mercado imobiliário, elevando os preços dos aluguéis e dos bens consumíveis pelas famílias. Veneza possui poucas lojas de grande porte e supermercados, o que aumenta a dificuldade de acesso a produtos básicos, especialmente para os moradores, que preferem residir no continente. O mercado de alojamento local é considerável, com mais de 10,5 mil registros no Airbnb, resultando numa conversão significativa de residências em ofertas para turistas.
6. A pressão exercida pelos turistas, em sua maioria oriundos de países desenvolvidos, é especialmente notável em produtos essenciais. Comparando preços básicos, verifica-se que em Lisboa, por exemplo, o leite custa 1,13€, enquanto em Roma e Veneza custa 5,83€ e 6,22€, respectivamente. Os preços bem como o poder de compra em Veneza são substancialmente inferiores, o que resulta em um custo de vida mais elevado em comparação com Lisboa.
7. A intensa atividade turística contribui para a descaracterização da cidade, onde pequenos comércios tradicionais são substituídos por lojas voltadas ao turismo, reduzindo a variedade do comércio local. Em Lisboa, embora haja um número considerável de lojas de souvenirs, a oferta de comércio local é muito mais diversificada.
8. A intensa atividade turística também prejudica a qualidade da água e a preservação dos edifícios, com os táxis aquáticos e outras embarcações contribuindo para a erosão. Em Lisboa, observa-se uma situação similar com a presença de tuk-tuks que, apesar de promessas de regulamentação, continuam a afetar a mobilidade e o espaço urbano.
9. Tanto Lisboa quanto Veneza recebem uma quantidade significativa de turistas de grandes navios de cruzeiro, que não só impactam a erosão como também agravem a poluição do ar, lançando gases nocivos à atmosfera. A falta de conexão elétrica para os navios implica em que seus motores precisam operar constantemente, aumentando consideravelmente a poluição causada por essas embarcações.
10. A degradação dos edifícios em Veneza é alarmante, com muitos deles apresentando sinais claros de abandono e deterioração. A elevação do nível do mar, desde 1897, tem sido uma crise constante, com prognósticos alarmantes sobre a habitabilidade da cidade. Embora o sistema “MOSE” tenha demonstrado eficácia em prevenir inundações, a um custo elevado, a principal causa de deterioração persiste, exigindo estratégias de preservação mais eficazes.
Lisboa enfrenta desafios similares em relação às inundações recorrentes e à elevação do nível do mar, que ameaçam a infraestrutura local e o patrimônio histórico, com a implicação que os danos em áreas ribeirinhas aumentem no futuro.
Para mitigar esses impactos em Lisboa, é essencial implementar medidas de adaptação, como barreiras contra inundações e o reforço de infraestruturas, além de considerar práticas inovadoras, como o uso de ostras para proteger a costa e melhorar a qualidade da água.
Medidas para Controlar o Turismo Excessivo:
a. É necessário que Veneza e Lisboa regulamentem a entrada de turistas e implementem uma taxa especial para visitantes de dia único e para aqueles que fiquem mais de três dias, a fim de suavizar o fluxo turístico sem restringir o acesso.
b. O aumento da taxa turística deve ser direcionado a projetos de habitação pública a preços acessíveis, compensando as externalidades geradas pelo turismo e fomentando melhores serviços urbanos.
c. Limitar a quantidade de dias e de navios de cruzeiro é outra medida necessária. Em Lisboa, o desembarque em zonas históricas é inadequado, devendo ser redirecionado para áreas que permitam melhor acesso ao transporte público.
d. A regulamentação do Alojamento Local (AL) é uma urgência em ambas as cidades, com Lisboa enfrentando uma grave crise habitacional decorrente do desvio de residências para este fim.
e. Campanhas de incentivo às visitas fora da alta temporada são fundamentais, promovendo promoções e descontos durante períodos de menor afluência.
f. Sistemas robustos de monitoramento do fluxo de turistas são essenciais para permitir uma melhor gestão da capacidade turística nas áreas mais afetadas.
Por fim, aqui vão dez dicas para quem visita Veneza ou Lisboa:
1. Evite a alta temporada para evitar multidões.
2. Escolha acomodações sustentáveis, evitando AL que exacerbem a crise habitacional.
3. Utilize transportes públicos em vez de táxis ou serviços similares.
4. Respeite os moradores, mantendo o silêncio e cumprindo as regras locais.
5. Descarte seu lixo corretamente.
6. Evite viagens de cruzeiro devido ao seu impacto ambiental.
7. Apoie o comércio local em vez de lojas de souvenirs turísticos.
8. Proteja monumentos e espaços históricos.
9. Descubra bairros menos turísticos para uma experiência mais autêntica.
10. Informe-se sobre práticas sustentáveis e adote hábitos ambientalmente responsáveis.









