O projeto “Camino Irreal” surge da interseção entre as artes performativas e visuais, música e cinema, e é o tema desta edição inédita da BoCA, que acontece simultaneamente em Lisboa e Madrid. Segundo a direção da bienal, isso reforça “o eixo ibérico de criação e apresentação artística”.
John Romão, que está à frente da programação pela última vez (o curador é, desde abril, o diretor artístico designado para Évora 2027 – Capital Europeia da Cultura), descreve o evento como “um convite ao desvio, ao deslocamento simbólico e à possibilidade de reconfigurar o lugar do artista e do espectador” numa “realidade atual cada vez mais distorcida”. Ele observa que, na era da pós-verdade, “questionamos tudo o que julgávamos adquirido” e acredita que são os artistas que têm a responsabilidade de “trazer novos imaginários capazes de a contrariar”. Com isso em mente, os artistas participantes nesta BoCA apresentam projetos que desafiam e resistem.
O primeiro grande destaque desse “desvio” é a ópera em cinco atos de Dino D’Santiago, que, convidado por Romão, criou uma obra que “cruza história, cultura e a identidade multicultural portuguesa”. Intitulada Adilson, a ópera conta a história de um homem afrodescendente, nascido em Angola, filho de pais cabo-verdianos, que vive em Portugal há mais de 40 anos sem conseguir a cidadania. Com libreto de Rui Catalão, a peça entrelaça essa narrativa de um “labirinto burocrático” com outras histórias de injustiça social e discriminação. A estreia está marcada para 12 de setembro, no Centro Cultural de Belém.
Antes disso, a bienal tem seu início oficial em 10 de setembro com uma obra emblemática de Alberto Cortés, reconhecido na cena teatral espanhola atual. Analphabet, após sua passagem pelo Porto em maio, será apresentado no Teatro do Bairro Alto. A obra traz “a invenção de um mito queer“, onde um espírito romântico manifesta-se a casais em crise, “não para curar, mas para revelar”.
Cortés ainda apresenta outro projeto nesta BoCA em colaboração com o pintor português João Gabriel. Com estreia em outubro no Teatro de La Abadia, em Madrid, Os Rapazes da Praia Adoro explora a intimidade do arquivo audiovisual do cinema pornográfico dos anos 70 e 80, que inspira as pinturas de João Gabriel, juntamente com a poesia dos corpos que se revelam como paisagens no teatro de Cortés. A peça será apresentada em Lisboa, no Teatro do Bairro Alto, nos dias 25 e 26 de outubro, e é uma das colaborações que unem criadores portugueses e espanhóis – incluindo ainda trabalhos de Tânia Carvalho com Rocío Guzmán (Nossas Mãos) e de Francisco Camacho com Elena Córdoba (Uma ficção na dobra do mapa).

Embora o programa ainda não esteja fechado e mais artistas aguardem ser anunciados, Romão ressaltou em uma apresentação à imprensa a estreia mundial de Coral dos Corpos sem Norte, a mais recente criação do angolano Kiluanji Kia Henda. Além de ser um espetáculo sobre viagem e migrações, que estreia na Sala Estúdio Valentim de Barros em 20 de setembro, o projeto inclui uma instalação impactante no MAAT, visitável entre 4 de outubro e 3 de novembro, com três ações performativas de entrada livre nos dias 5, 12 e 19 de outubro.
Outro destaque da bienal em Lisboa é a criação mais recente de Milo Rau, em colaboração com a dramaturga e ativista francesa Servane Décle, intitulada O Julgamento de Pelicot. Após estrear em Viena e passar pelo Festival de Avignon, a peça chega a Lisboa como uma “leitura performativa” em tributo a Gisèle Pelicot, uma mulher que foi vítima de mais de 200 violações sob submissão química ao longo de uma década. A obra busca devolver “a dignidade da voz a quem foi silenciado” e será apresentada em 11 de outubro no Panteão Nacional.
No campo do cinema, a BoCA, em parceria com a Cinemateca Portuguesa e a Filmoteca Espanhola, apresenta Malamor/Tainted Love, um ciclo no qual os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata dialogam suas obras com as de diretores como John Waters, Pedro Almodóvar, Rainer Werner Fassbinder e Lucio Fulci. Além dessa “espécie de carta branca”, que ocorre simultaneamente em Lisboa e Madrid, duas criações inéditas também serão exibidas: a estreia mundial da curta-metragem 13 Alfinetes, uma encomenda da BoCA dedicada à iconografia de Santo Antônio, que também estará na capital espanhola através dos frescos de Goya na Ermida de San Antonio de la Florida, e a instalação fílmica Sem Antes Nem Depois, que poderá ser vista na Sociedade Nacional de Belas Artes a partir de 11 de setembro.
Outros destaques na bienal em Lisboa incluem Toda la Luz del Mediodía, do artista espanhol residente em Lisboa, Julián Pacómio (nos dias 13 e 14 de setembro); Ocean Cage, um “espetáculo imersivo e poderoso” inspirado nas histórias dos habitantes de Lamalera, focando em “questões de solidariedade, coexistência econômica e ecossistemas em risco”, criado pelo artista visual chinês Tianzhuo Chen e pelo performer indonésio Siko Setyanto (19 e 20 de setembro); Yo No Tengo Nombre, uma instalação performativa na Estufa Fria, produzida pelo coletivo teatral catalão El Conde de Torrefiel (de 9 a 15 de outubro); A Beginning #16161D, da dupla espanhola Aurora Bauzà & Pere Jou (24 e 25 de outubro); e Totentanz, de Marcos Morau e La Veronal (também nos dias 24 e 25).
No Museu Nacional do Prado, Tiago Rodrigues, Patrícia Portela, Angélica Liddell e Rodrigo García, após residências artísticas, criaram obras inspiradas na coleção de um dos maiores museus da Europa. Este ciclo, intitulado Palavras e Gestos: para uma coleção performativa no Museu do Prado, contará com performances de cerca de 20 minutos em quatro salas distintas, proporcionando ao público um percurso único em um Museu do Prado à porta fechada. Para quem planeja uma visita a Madrid, essa rara oportunidade acontece nos dias 27 e 28 de setembro e 4 e 5 de outubro. Já está revelada a pintura que inspirou Patrícia Portela, que originará a peça Os Fuzilamentos de 3 de Maio, de Francisco Goya.









